Autor: Ronaldo Entler

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

Wolfgang Tillmans: engenharia do acaso

Ronaldo Entler | 16.abr.2012

As imagens de Wolfgang Tillmans são simples mas, como conjunto, seu trabalho é de difícil apreensão. Não é desses autores que a gente entende buscando referências em livros ou na internet. Quando fazemos isso, fica sempre a impressão de que as imagens não se conectam. Uma exposição panorâmica como a que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo não muda essa leitura, mas permite constatar o modo como suas imagens efetivamente não se conectam: reconhecemos que o aleatório se constrói ali como uma arquitetura. Não é suficienteLeia Mais

Pina 3D: as profundidades do cinema

Ronaldo Entler | 9.abr.2012

Fiquei apreensivo quando soube que Wim Wenders embarcaria na onda do cinema 3D em seu documentário sobre Pina Bausch. Com Paris Texas (1984) e Asas do Desejo (1987), ele já parecia ter demonstrado a profundidade que se pode arrancar dessa tela. Acompanhei mais ou menos o que veio em seguida, mas fiquei preso a algumas poucas coisas mais que descobri tardiamente, seu trabalho fotográfico e alguns filmes anteriores, como Alice nas cidades (1974) Movimento em falso (1975) e No decurso do tempo (1976). Essas eram as imagens que eu queriaLeia Mais
A imagem vencedora da edição de 2011 do Word Press Photo, de Samuel Aranda, tem uma qualidade rara no fotojornalismo: mostra pouco, mas produz forte reverberação. Mesmo que mal lembremos que existe no mapa um país chamado Iêmen, reconhecemos ali o sofrimento dessas pessoas. A foto não explica a razão ou a extensão do problema, apenas mostra a dor como qualidade e intensidade. Ainda que a Primavera Árabe nos afete pouco, ou mesmo quando seus eventos já não renderem mais notícias, essa imagem poderá dizer alguma coisa sobre “a dor dosLeia Mais

Saudades da Kodak

Ronaldo Entler | 5.mar.2012

Nossa formação de esquerda ensina que as crises são inerentes ao capitalismo e não permite lamentar quando uma grande corporação vai à bancarrota. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que seus extintos produtos ganham contornos afetivos em nossa memória. Nessas horas, o conceito comercial de “marca” assume um sentido menos abstrato, quase sob a forma de uma cicatriz. Foi mais ou menos o que senti quando reencontrei uma caixinha de TRI-X perdida na geladeira, algumas semanas depois de ler as notícias sobre a falência da Kodak. Na década de 90, fuiLeia Mais

O luto de Barthes

Ronaldo Entler | 30.jan.2012

Nestas férias, li Diário de Luto, de Roland Barthes, editado recentemente em português, com tradução de Leyla Perrone-Moisés. É um conjunto de pequenas anotações iniciadas em outubro de 1977, um dia após o falecimento de sua mãe, e que se estendem até setembro de 1979, seis meses antes de sua própria morte. No meio disso, entre 15 de abril e 3 de junho de 1979, ele escreveu A câmara clara. Etienne Samain já havia observado que esse livro, que tem 48 capítulos, foi escrito em exatos 48 dias, possivelmente, também sobLeia Mais

Interrupções e continuidades

Ronaldo Entler | 27.dez.2011

Nunca houve o compromisso de qualquer alinhamento entre os integrantes deste blog, nem mesmo a pretensão de coerência entre os posts de cada autor. Mas é curioso que, vez ou outra, alguém pergunta “o que o Icônica pensa de tal coisa” ou “quando haverá um workshop do Icônica”. Talvez um pensamento possa ser construído dessa forma, por meio de encontros, de sobreposições, de montagens. É algo que ainda precisamos descobrir, talvez ampliando um exercício que já fizemos algumas vezes: o de abrir mais espaço quando um post pede uma continuidade, ou deLeia Mais

Jogo dos sete erros

Ronaldo Entler | 12.dez.2011

Eu procurava na internet informações sobre alguns textos, quando encontrei um blog – sem atualizações e provavelmente não oficial – de divulgação do livro de Arlindo Machado, “O sujeito na tela” (2007). Estranhei o retrato publicado ao lado de sua biografia. Mas a idade faz essas coisas: de um lado, enfraquece nossas lembranças e, de outro, muda a aparência das pessoas. Quase assimilei sua nova fisionomia. Depois, descobri que se tratava do crítico e cineasta alemão Alexander Kluge, que Machado conhece bem e sobre quem já escreveu. Além de algumaLeia Mais
Tancredo Neves (Foto: Gervasio Batista)
A memória representa uma sobrevivência simbólica que joga um papel bastante efetivo no destino do mundo. Mas o poder é pragmático e, às vezes, prefere não aguardar a atuação da memória: antes de descansar em paz, o corpo já inanimado do líder pode ser convocado a demonstrar suas possibilidades de sobrevivência. A fotografia cumpre o papel de uma taxidermia que permite a esse corpo resistir ao apodrecimento para permanecer na batalha.Leia Mais

Cadáveres em disputa I

Ronaldo Entler | 7.nov.2011

Entre os gregos antigos, o herói precisava ter seus feitos cantados pelos poetas para merecer essa denominação. Isso quase sempre lhe custava a vida ainda jovem: a condição de seu heroísmo era a própria imagem idealizada de sua morte, tal e qual viria a ser desenhada pelo mito. A “bela morte” (kalòs thánatos) é, como sugere o historiador Jean-Pierre Vernant, um dos temas centrais da Ilíada de Homero (Vernant, “A bela morte e o cadáver ultrajado”).Leia Mais
Três eventos recentes e importantes – o SP-Arte/Foto, o Paraty em Foco e o VídeoBrasil – me fizeram pensar sobre a presença tensa do fotógrafo em alguns ambientes dedicados às artes. Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cadê o pessoal da fotografia? Certamente, o vídeo se expandiu na última década tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem artística. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. Basta relembrar que, em 2009, tivemos emLeia Mais

O olhar como performance

Ronaldo Entler | 26.set.2011

A atividade do olhar é normalmente entendida como captação discreta e passiva dos movimentos do mundo. Mas o próprio olhar é movimento, como diz Alfredo Bosi, “com propriedades dinâmicas de energia e calor graças a seu enraizamento nos afetos e na vontade” (“Fenomenologia do Olhar”, 1988. p. 77). Alguns artistas buscam reconhecer os momentos em que o olhar revela sua espessura, em que se torna por si mesmo uma performance, gesto que afeta também aquilo que é visto. Quando o olhar se torna visível, seus vetores compõem um enredo: oLeia Mais
O post anterior se encerrou com a seguinte questão: quais as formas de lidar com a nova escala de produção e circulação de fotografias? A “quantidade” de imagens disponível na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova “qualidade” ao problema, mas os sentimentos que temos diante disso não são propriamente novos, o deslumbramento e a desconfiança são coisas inerentes à qualquer mudança. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquantoLeia Mais
Onde a revolução digital não aconteceu Há vinte anos, especulávamos sobre os impactos das câmeras digitais que estavam para chegar ao mercado, tentávamos entender a mudanças no estatuto das imagens que elas produziriam, e prevíamos uma crise em sua credibilidade pelas facilidades de manipulação. Autores como André Rouillé sugerem que estamos diante de uma imagem de natureza tão distinta, que é um equívoco chamá-la ainda de fotografia (A fotografia, p. 16 e 452). Na prática, creio que essa mudança na forma de inscrição da imagem tenha desdobrado em promessas e ameaçasLeia Mais
Como parte do projeto Morar, o coletivo Garapa produziu uma série de daguerreótipos de objetos que fazem referência ao Edifício Mercúrio, recentemente demolido no centro de São Paulo. Para essa empreitada que durou uma semana, contaram com a ajuda do fotógrafo Fernando Schmitt, e o know-how de Chico da Costa, maior especialista em daguerreotipia no Brasil. Eu apareci por lá duas vezes para bisbilhotar. Achei que tinha uma boa idéia de como a coisa funcionava, mas é impossível supor as sutilezas do ritual que os daguerreótipos exigem: além de umLeia Mais

Novidades no Icônica

Ronaldo Entler | 3.ago.2011

Na próxima semana, quem diria, publicaremos nosso centésimo post. Trabalho com o Rubens há quase 20 anos, quase 25, se eu somar os cursos que fiz como aluno dele. Tornaram-se cotidianas as conversas sobre leituras, pesquisas, exposições. Muitas vezes lamentamos não poder ampliar essas discussões, e a idéia de fazer um blog apareceu e desapareceu algumas vezes. Escrever era sempre uma gestação lenta, faltava coragem para soltar os textos sem os rituais acadêmicos. Pensávamos nisso quando conheci pessoalmente alguns autores de blogs que acompanhava, sobretudo Livia Aquino, do Dobras Visuais,Leia Mais
É certo que o sentido de uma fotografia não cabe na fração de segundo de que foi tomada. Por isso, ficamos sempre tentados a devolver-lhe certa fluidez por meio da palavra. Associar a imagem a uma narrativa é, segundo Mauricio Lissovsky, uma prática antiga que a retórica clássica chamava de  “ekphrasis” (Lissovsky, Máquina de Esperar). Como ele sugere, na dificuldade de reconhecer uma temporalidade própria a essa imagem, tendemos a associá-la com algo que pareça se desenvolver mais claramenteno tempo, como é o caso da linguagem verbal. Descrever uma imagemLeia Mais

O olhar que desconfia serenamente

Ronaldo Entler | 11.jul.2011

Na ansiedade de afirmar seu caráter híbrido e ficcional, a fotografia contemporânea que buscávamos nos anos 90 correu dois riscos: primeiro, de explorar suas possibilidades de experimentação com extravagância e certo didatismo, pois não bastava ter conquistado tal liberdade, era preciso anunciá-la; segundo, de enfatizar exageradamente, numa outra fotografia a que se opunha, um purismo e uma veracidade que nunca existiram. Esse tempo passou, espero. O que restou de todo esse esforço? Por um lado, aquela liberdade experimental pôde ser exercida de modo mais discreto, sem precisar anunciar-se sempre comoLeia Mais
Esta é a primeira parte da apresentação que fiz na mesa “A Cena Cultural e a Fotografia Contemporânea”, ao lado de Geórgia Quintas e Pio Figueiroa, na programação do Seminário Nafoto, dia 18/06/11, na Caixa Cultural Sé, em S. Paulo. Ser e sentir-se contemporâneo Ernest Gombrich disse uma vez que a arte moderna demorou 50 anos para se tornar contemporânea. Isto significa que os olhares em torno dela precisaram desse tempo para reconhecê-la como uma arte do seu tempo presente. Com a fotografia contemporânea ocorreu algo semelhante, exatamente ao longoLeia Mais
Na semana passada, João Gilberto completou oitenta anos de idade, mais de cinquenta deles como um dos mais importantes intérpretes da Bossa Nova. Ouvindo suas músicas, reencontrei uma gravação que ele fez de Fotografia, composição de Tom Jobim. Há várias canções com o mesmo título (de Victor & Leo a Ana Carolina) mas, enquanto outros compositores apenas olham com nostalgia para uma foto, Tom Jobim é o único que fotografa: em sua Fotografia, ele efetivamente capta uma cena, talvez duas, uma no fim da tarde, outra na madrugada. Também eleLeia Mais

Blanche, o monstro libidinoso

Ronaldo Entler | 5.jun.2011

Antes que existisse uma biologia capaz de pensar a “vida” como função abstrata, lembra Foucault, havia apenas uma história natural interessada nos “seres vivos”, suas formas, suas tipologias. Ele completa: “fazer a história de uma planta ou de um animal era tanto dizer quais são seus elementos ou seus órgãos, quanto as semelhanças que se lhe podem encontrar, as virtudes que se lhe atribuem, as lendas e as histórias com que se misturou” (Foucault, As palavras e as coisas). O conhecimento consolidado buscava os traços e comportamentos médios que definiamLeia Mais