Autor: Ronaldo Entler

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

Quando é preciso o desvio

Ronaldo Entler | 23.ago.2017

[Prefácio escrito para o livro Exercícios Críticos: gestos e procedimentos de invenção, de Galciani Neves – Edusp, 2016] Nossa civilização soube imaginar em suas mitologias uma palavra capaz de tocar com precisão o cerne de cada coisa. Esse teria sido, segundo certa interpretação do Gênesis, um dom que Deus ofereceu àquele que criou à sua imagem e semelhança. Mas essa criatura logo se revelou humana e quis jogar com a linguagem. Expulsa do paraíso, foi condenada à errância e ao desentendimento: desde então, ao dizer uma coisa, diz várias. CabeLeia Mais
Os artistas foram muitas vezes movidos pela "obrigação de se libertar". Mais seguros de suas conquistas, eles se dão agora a "liberdade de ser livre", o que pressupõe a liberdade de manter-se dentro de alguma tradição, quando assim se queira.Leia Mais
É suficiente às vezes pensar a arte como expressão de um contexto histórico ou, pelo menos, de um modelo de pensamento, uma ideologia, a visão de mundo de um sujeito. Isso projeta sobre as obras uma legibilidade apaziguadora. As coisas se complicam quando a imagem é tomada como um instrumento de exploração que se contamina da matéria que investiga. Ela assume uma existência impura, impregnada das alteridades que encontra pelo caminho. Aqui, não será suficiente pensar em arte-tecnologia, arte conceitual ou arte transcendental. Não se nomeará tão facilmente os engajamentosLeia Mais
Deslumbrado com as promessas trazidas pela ideia de progresso, o ilustrador francês Albert Robida tentou imaginar, no final do século XIX, as conquistas que viriam com o século que se iniciava. Numa sequência de três livros – O século XX (1883), A guerra no século XX (1887), O século XX: a vida elétrica (1890) – Robida intuiu bem certas necessidades que já se esboçavam em seu tempo, mas parece ter errado feio nas respostas que seriam dada a cada uma delas. Seu limite é claro: ele só pode imaginar oLeia Mais

Pichação como cicatriz

Ronaldo Entler | 6.mar.2017

Não sou apreciador da pichação. Simplesmente não gosto, como também não gosto de boa parte dos edifícios e viadutos que compõem a paisagem de São Paulo. Mas pichação, prédios e viadutos são fenômenos inerentes ao crescimento urbano. Gostando ou não, o melhor que posso fazer é usufruir deles: optei por morar num prédio porque acho mais seguro, passo por viadutos quase todos os dias e me esforço para entender o sentido da pichação. Tento não cair em algumas falácias de quem não gosta: tem que proibir prédios, tem que derrubarLeia Mais
No lugar mesmo: uma antologia de Ana Maria Tavares é uma das exposições imperdíveis que estão agora em cartaz em São Paulo. Ela permite enxergar a extensão de uma pesquisa muito coesa e ainda em curso, que desdobra problemas colocados inicialmente pela escultura numa diversidade de linguagens. O resultado é imponente: a artista é meticulosa com a apresentação de cada trabalho, as formas e os materiais têm forte apelo sensorial, e as instalações de grande porte e a intervenção nas paredes da Pinacoteca ocupam efetivamente o generoso espaço que foiLeia Mais

Westworld: o bordel das narrativas

Ronaldo Entler | 16.dez.2016

Westworld é uma série da HBO que aborda o velho tema da inteligência artificial por meio de uma combinação improvável, mas bem sucedida: ficção científica e western. A série joga com os chavões de cada gênero, mas traz também referências de seus melhores exemplares, como Blade Runner e Os Imperdoáveis. É baseado no filme homônimo, de 1973. Evitarei spoilers! Westworld é um parque temático onde turistas fazem uma imersão muito realista pelo Velho Oeste norte-americano, interagindo com androides – chamados de anfitriões – que são programados para cumprir personagens próprios doLeia Mais
Encerra-se neste fim de semana a exposição Cinema Lascado, de Giselle Beiguelman (curadoria de Eder Chiodetto), na Caixa Cultural-SP. No mesmo local, o público pode ver também A Valise Mexicana, com fotografias da Guerra Civil Espanhola feitas por Robert Capa, Gerda Taro e David “Chim” Seymour (curadoria de Cynthia Young). Em comum, essas exposições testemunham os descaminhos a que as imagens estão sujeitas. Mas elas se complementam justamente por mostrar duas posturas distintas que convocam do olhar: Cinema Lascado assume a “perda” – palavra destacada pela própria artista – como elementoLeia Mais

:-) Rostos

Ronaldo Entler | 18.jul.2016

Precisamos de muito pouco para ver um rosto. Rapidamente, dois pontos num espaço vazio tornam-se olhos. Quantas vezes, rabiscando à toa num pedaço de papel, essa forma nos apareceu quase que por conta própria?Leia Mais
Wim Wenders tem uma relação intensa com a fotografia: ele produziu um corpo de trabalhos importante, usa fotos como ferramenta de pesquisa na produção de seus filmes, incorpora com frequência imagens e personagens fotógrafos às suas histórias e, vez ou outra, aventura-se a teorizar sobre essa linguagem. As trasnformações tecnológicas da fotografia são para ele um tema sensível. Houve um tempo em que Wenders depositava boa dose de confiança na capacidade dessa imagem de produzir uma relação intensa entre o olhar e o mundo. É pela fotografia que Phil, o jornalista em crise deLeia Mais

Umberto Eco, a internet e o ornitorrinco

Ronaldo Entler | 20.fev.2016

Neste artigo de 1996, Umberto Eco relata a experiência de procurar a palavra platypus (ornitorrinco) numa ferramenta de busca na internet. Som humor, ele toma esse animal estranho como uma metáfora do corpo de pensamentos fragmentados que as redes já construíam. Chamem-no Platypus ou Ornitorrinco, o fato é que ele é muito popular por Umberto Eco  [1] Sou um sincero admirador do ornitorrinco (ou platypus), talvez porque tive a oportunidade de vê-lo ao vivo na Austrália, mas também porque ele parece ter sido criado por Deus ou pela Natureza para pôr em questão nosso aparatoLeia Mais
A Folha de S. Paulo repercutiu a polêmica envolvendo o jovem artista brasileiro Andrey Zignnatto, que foi acusado pelo crítico Maxence Alcalde de plagiar obras do francês Vincent Mauger (“A espinhosa questão do plágio na arte contemporânea“). A conclusão se baseia numa semelhança desconcertante e numa questão de cronologia: Mauger fez antes, Zignnatto fez depois. O texto não traz nenhum fato que demonstre que um artista conhecia a obra do outro. Não conheço Zignnatto e não posso dizer de onde vêm suas referências. Talvez se trate mesmo de plágio. Mesmo assim,Leia Mais
Difícil saber do que trata o filme “Coração de Cachorro”, de Laurie Anderson. Ela parte de coisas banais, dessas que vemos exaustivamente nas redes sociais: relatos intimistas e imagens de cãezinhos. Deve haver um amor sincero por trás de cada pet publicado no Facebook. E cada fato banal pode ser a fração de uma urgência verdadeira que se gostaria de expressar. O problema das redes não é a irrelevância dos temas: um bom cronista sabe arrancar o universal de fatos corriqueiros. Não é a falta de vínculo com aquele queLeia Mais
Escrever tem a ver com o esforço de compreender aquelas imagens que persistem quando o olhar já seguiu adiante. Ou, antes disso, a escrita é parte desse exercício de permanência das imagens. A compreensão é só um pretexto. Quantas vezes eu fiquei parado diante de uma página em branco sem saber por onde começar… Não havia nada a ser dito, o que havia era apenas a própria imagem que persistia. Depois de um tempo, a linguagem pode chegar a desenhar a topografia desse lugar de permanência. Assim eu vejo a crítica: o desenho mais ouLeia Mais

A fotografia e o desejo de happening

Ronaldo Entler | 15.set.2015

Ao mostrar Jackson Pollock em ação, os registros de Hans Namuth (1950-51) deram um desenho mais nítido àquele corpo em movimento que já era de algum modo visível nas próprias pinturas. O gesto pode ser intuído de qualquer pintura, seja um Rembrandt, seja um Van Gogh mas, no caso de Pollock e de todos os pintores que foram associados à Action Painting, a reconexão de um resultado com esse gesto que lhe deu origem é um dos sentidos almejados pela obra. Na medida em que os artistas se abrem a tantas novas experimentações, acentua-se o desejoLeia Mais
O sucesso de um livro é normalmente medido pelo número de edições que alcança. Mas esse raciocínio não vale para A ilusão especular, de Arlindo Machado, publicado em 1984 numa parceria entre a editora Brasiliense e o Instituto Nacional de Fotografia da Funarte. Esgotado há décadas, sabemos que as universidades brasileiras nunca deixaram de incluir esse título na bibliografia de seus cursos de comunicação e artes, e o texto permanece citado de modo recorrente nas dissertações e teses dedicadas à fotografia. Somente agora, três décadas depois de seu lançamento, ALeia Mais
Gilvan Barreto tem uma relação forte com a palavra, seja pela prosa envolvente que mistura vivências com processos de trabalho, seja pela escrita concisa e poética que apresenta seus livros, seja pela forte ligação que tem com a literatura. Mas, como se vê também, ele tem uma vocação forte para o embate com a matéria. Resultado dessa combinação é que, em sua mão, a palavra não se limita a seu sentido abstrato, ela vira imagem. Assim como a imagem vai além de sua superfície, ela vira coisa, forma manipulável, objeto cheio deLeia Mais
Nunca entendi exatamente porque passamos a chamar os livros de fotografia de fotolivros. Foi na ocasião do I Forum Latinoamericano de Fotografia (Itaucultural, 2007) que ouvi o termo pela primeira vez, quando se esboçava a pesquisa que culminaria na publicação de Fotolivros latino americanos (Organização de Horácio Fernandez. Cosac Naify, 2011). Esse levantamento é por si mesmo uma conquista. Depois disso, a movimentação que se criou no Brasil em torno da ideia do fotolivro foi incrivelmente produtiva. Discutiu-se mais do que nunca a importância da edição na fotografia, surgiram tambémLeia Mais
Há a história que construímos e há a história que se inscreve nas coisas. Suas temporalidades são distintas: a primeira tem a ansiedade de agenciar a memória das próximas gerações, a segunda se produz independentemente de haver quem a interprete. Uma se afirma pela grandiloquência dos monumentos, a outra se faz simplesmente disponível no silêncio das ruínas. Uma é a que gostaríamos de deixar como herança, a outra não se permite possuir, porque trata exatamente de desapropriações. Uma fala de conquistas, a outra fala invariavelmente de perdas. Um tanto daLeia Mais
O Sal da Terra (2014) não é um filme sobre fotografia, é um filme sobre um fotógrafo. É a homenagem a Sebastião Salgado conduzida pelo filho, Juliano Salgado, em parceria com Wim Wenders. O documentário é pontuado por depoimentos de familiares e por comentários de Wenders, mas está essencialmente centrado na prosa bem articulada de Sebastião Salgado. Ele fala das viagens, dos cenários dramáticos que conheceu, da relação com alguns personagens e do contexto social e político dos conflitos a que assistiu. As fotos estão lá, com sua exuberância potencializada pela telaLeia Mais