O habitat como marca distintiva da espécie [ou Os fotógrafos nos eventos de arte]

[10.out.2011]

Edward Steichen, Auto-retrato, 1903

Três eventos recentes e importantes – o SP-Arte/Foto, o Paraty em Foco e o VídeoBrasil – me fizeram pensar sobre a presença tensa do fotógrafo em alguns ambientes dedicados às artes.

Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cadê o pessoal da fotografia? Certamente, o vídeo se expandiu na última década tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem artística. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. Basta relembrar que, em 2009, tivemos em lugar do tradicional festival uma grande exposição de Sophie Calle. Os militantes da arte do vídeo se ressentiram da mudança, e os militantes da arte da fotografia aproveitaram bem a vinda da artista, e mal se deram conta de que aquele evento tinha por trás uma instituição chamada Videobrasil. Em 2010, eles trouxeram uma exposição de Joseph Beuys e outra de Chelpa Ferro. Agora em 2011, retomaram o modelo de “festival”, mas com um nome diferente: 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. Mesmo que a presença do vídeo no evento ainda seja forte, a abertura está firmada, e temos lá a presença de escultura, pintura, performance, instalação. A fotografia também está lá mas, pela pergunta que Solange Farkas me fez, suponho que esperava uma presença maior de artistas formados nesse campo. Tentando esboçar uma resposta, fiquei imaginando que talvez fosse apenas desatenção: muitos fotógrafos – que pleiteiam regularmente um lugar nos espaços de arte contemporânea – ainda não tinham atinado para as transformações do Videobrasil. Mas é provável que a história do festival e a palavra “vídeo” no nome da instituição ainda crie um ambiente desconfortável para os fotógrafos.

Tivemos em setembro a feira SP-Arte/Foto, que confirma a forte presença da fotografia no mercado da arte. A feira era bastante aberta e eclética: havia um número razoável de obras que atropelavam a especificidade da fotografia, que exploravam as possibilidades trazidas pelas tecnologias digitais, mas havia também uma forte presença de artistas que aderiram a uma linhagem da fotografia conceitual perfeitamente em paz com o documental, com o analógico, com a bidimensionalidade, com a moldura e a parede, ou seja, obras que não recusam as estratégias construídas pela tradição da fotografia. Minha surpresa se deu não tanto na feira, mas nas conversas com artistas, as informais e também aquelas que compuseram a programação de debates promovida pelo evento. Em várias ocasiões, os artistas ali representados sentiam a necessidade de explicar: “não sou fotógrafo, apenas uso a fotografia”.  Ou mais radicalmente: “não sou fotógrafo, passo eventualmente pela fotografia”. Não parece haver maldade nessas afirmações, ao contrário, é talvez uma questão de humildade, o desejo de respeitar e de não invadir um território alheio, mesmo que estivessem ali fazendo fotografia e, mais, discutindo com profundidade a história e os sentidos implicados pelo uso de técnicas fotográficas. Mas não me parece apenas uma questão de garantir a liberdade de criação, um desejo de não se situar em nenhuma das linguagens tradicionais. Uma coisa é permanecer em silêncio, isto é, não precisar mencionar nenhuma filiação. Outra é a necessidade de afirmar um distanciamento com o ambiente dos fotógrafos, esse território estrangeiro pelo qual os artistas estão sempre numa rápida passagem.

Talvez o conflito não seja tanto entre a fotografia e as outras artes, mas entre a figura do artista e a figura do fotógrafo (quem teve essa intuição foi Livia Aquino). De fato, as linguagens têm dialogado muito bem entre si. No VideoBrasil, a fotografia está presente, seja em sua técnica, seja nas questões que lhe são históricas. No mínimo, veremos ali que o vídeo recorre com muita freqüência à desaceleração, à interrupção do movimento ou à busca de sua fração ideal de tempo, de modo que os olhares formados pela fotografia se sentirão absolutamente em casa na exposição. A questão não é, portanto, a ausência da fotografia e de seus problemas, mas dos fotógrafos (que, salvo raras exceções, eu também não vi na abertura do evento). No SP-Arte/Foto a questão é ainda mais evidente: tudo era de algum modo fotografia, mesmo quando era também outra coisa. Mas quase ninguém ali era fotógrafo. Em resumo, por mais que esses eventos dialoguem bem com todas as relativizações promovidas pela arte contemporânea, os fotógrafos não estão lá e, quem está, se afirma não-fotógrafo.

Por fim, estive pela primeira vez no Paraty em Foco, aí sim, um evento de fotógrafos: fotógrafos amadores, fotógrafos profissionais, fotógrafos clássicos, fotógrafos contemporâneos, fotógrafos que trabalham também com outras linguagens e, claro, pesquisadores, críticos e curadores de fotografia. Não vi ali qualquer tipo de conservadorismo ou dogmatismo com relação ao que se entende por fotografia. Mas é fato que ali, por vezes, algumas rodas de conversa podiam assumir um ar de clube, de entidade de classe. Ali os fotógrafos se sentem à vontade porque estão entre os seus.

Considerando esses três eventos, percebi uma espécie de triângulo anti-amoroso: numa ponta, a existência de “eventos de fotógrafos”, ou seja, de lugares que lhe são próprios; noutra, a existência de eventos em que fotógrafos não frequentam porque se sentem alheios; por fim, a existência de um evento dedicado ao diálogo da fotografia com o mercado da arte contemporânea em que os participantes se reconhecem como artistas não-fotógrafos. Complexo!

A fotografia parece viver, com certo agravamento, uma ambiguidade típica de toda arte aplicada. Fotógrafos – assim como arquitetos, estilistas etc. – são artistas, mas que constituem seus próprios mercados, entidades de classe, eventos, também sua própria história, suas metodologias críticas e suas teorias estéticas. Eles têm uma presença evidente no universo da arte contemporânea mas, com mais frequência, sentem também a necessidade de demarcar a especificidade de sua arte. Em contrapartida, os artistas podem fazer fotografia, construir espaços, objetos, peças gráficas, vestuários mas não são profissionais desses campos, porque também são pouco convidados a aturar em seus espaços específicos.

O problema não está nessa ambiguidade, mas nesse suposto agravamento: de um lado, a fotografia se tornou quase onipresente no mercado e nas exposições de arte contemporânea; de outro, ela me parece um pouco mais descaradamente denegada do que essas outras artes utilitárias. Talvez porque esteja óbvio que um artista não se torna estilista ou arquiteto, mesmo quando dialoga com essas atividades. Enquanto que, caso não avise, ele pode perfeitamente ser confundido com um fotógrafo, profissional que não depende de muitas credenciais para ser visto como tal.

Há outro paradoxo: a fotografia é uma arte fácil, “mediana”, nas palavras de Bourdieu. Sua presença na arte contemporânea está profundamente ligada a isso, na esteira das experiências “pop” que almejam destruir a idéia do artista como gênio para aproximá-lo das massas e de sua vida cotidiana. Mas poucos estão dispostos a atravessar de vez a fronteira. Talvez seja diferente com o cinema: tenho visto vários artistas formados no ambiente das galerias que sentem certo orgulho de serem chamados de cineastas. Em contrapartida, eles celebram essa aproximação com o universo pop da fotografia; até fazem alguns freelas se for o caso, mas mantêm sempre um dos pés dentro de um círculo sagrado da arte para nos lembrar de onde vêm.

Mesmo com todas as aberturas promovidas pela arte contemporânea, não penso que as distinções constituídas historicamente entre as linguagens deveriam ser definitivamente ignoradas. Ou seja, não acho que deveríamos substituir de vez a ideia de fotografia por outra mais abrangente de “arte contemporânea”. Até mesmo porque “arte” já é um recorte carregado de certa especificidade historica: conforme Hans Belting, a arte é um dentre vários regimes de existência das imagens (O fim da história da arte, 2006). Aliás, segundo ele, um regime que pouco dá conta das imagens que produzimos hoje.

Nada contra falar em fotografia ou de qualquer arte que se pretende outra coisa, mesmo quando atravessa a fotografia. Nada contra falar da fotografia sob o paradigma da arte ou pensá-la fora dele, conforme o contexto exija. Por fim, nada contra um evento definir o lugar a partir de onde deseja pensar a produção das imagens. O problema está na dificuldade que o fotógrafo enfrenta de se pensar e ser pensado fora de seu habitat. Há de fato um isolamento do qual, no entanto, ele não se sente vítima, ao contrário, que ele vivencia com certo orgulho. Rubens Fernandes me disse que ouviu de Rosangela Rennó, no FestFotoPoA, e de Miguel Rio Branco, no Paraty em Foco, a mesma ideia, algo mais ou menos assim: “sempre me perguntam o que sou. Digo que sou fotógrafo(a) quando estou entre artistas, e que sou artista quando estou entre fotógrafos”. Essa talvez seja a melhor resposta política ao problema, o exercício de frequentar todos os territórios mas de sempre se fazer um pouco estrangeiro onde quer que se esteja.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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