Tema: Arte

O post que inaugurou este blog, Fotógrafos não são normais, foi motivado pelo personagem de Joaquin Phoenix no filme Amantes (2008). Em O mestre (2012), o personagem interpretado por esse mesmo ator volta a temperar sua insanidade com um pouco de fotografia. A insanidade é agora bem mais evidente. Já a fotografia, apesar de ser um elemento totalmente secundário, constitui uma boa metáfora da questão central proposta pelo diretor Paul Thomas Anderson. O Mestre tem sido apresentado pela imprensa como uma história baseada na tal “Cientologia”, seita que tem TomLeia Mais

O silêncio e a passividade de um novo começo

Rubens Fernandes Junior | 23.out.2012

Os tios mais velhos reclamam porque nunca poderão ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crianças se deliciam com o imediatismo das múltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de mão em mão. Enfim, o clássico conflito de gerações entre os mais velhos e os mais jovens, só que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum domínio técnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferença perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritualLeia Mais
Acabo de voltar de Nova York, haverá o que contar aqui em breve. Mas a viagem começou um tanto antes, sobretudo com dois documentários que vi recentemente, News From Home (1977), de Chantal Akerman e Lost Book Found (1986), de Jem Cohen. De algum modo, foi a partir deles que surgiu o desejo de fazer essa viagem. São olhares muito distintos. Akerman, recém chegada da Bélgica, mostra em toda sua extensão as dinâmicas que descobre nessa cidade. Parada ou em movimento, permanece sempre receptiva aos acontecimentos, mesmo quando eles demoramLeia Mais

Quatro lições de Chris Marker

Ronaldo Entler | 24.set.2012

Viagens no tempo aparecem de forma recorrente na obra do fotógrafo e cineasta Chris Marker, a exemplo do que vemos em seus trabalhos mais conhecidos, o “foto-romance” La Jetée (1962) e, mais sutilmente, em Sans Soleil (1983).   Viajar no tempo é algo que ele mesmo faz na relação que estabelece com seus arquivos. Desde seus primeiros trabalhos, ele assume transitar por um terreno instável: os sentidos das imagens. E faz delas o palco em que a história contracena com o presente. Dessas experiências, podemos tirar algumas lições: 1. as imagensLeia Mais
Na tarde do último domingo de junho de 1994, ao chegar em Nova York, eu me dirigi rapidamente ao Whitney Museum para aproveitar os últimos momentos da exposição  Evidence 1944 – 1994, de Richard Avedon, que encerrava sua temporada. Foi ali que me deparei com o nome da Bea Feitler (1938–1982) associado à fotografia, em particular, com o projeto do livro Diary of a Century, diário fotográfico de Jacques-Henri Lartigue, organizado por Avedon e publicado em 1970. Já conhecia a obra mas, até então, não sabia que esse era oLeia Mais
Bram Stoker não inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que já vagava pelas lendas europeias. Humanizado e romântico, seu Drácula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman. Com seu sangue impuro, o vampiro é um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da má fama, é um ser tolerante: está sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam comLeia Mais
O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2010, com o filme Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. É uma narrativa repleta de fantasia sobre um homem que, com a proximidade da morte, reencontra pessoas as que ama, e também lugares, memórias e imagens ligadas a seu passado e a suas outras vidas. Neste ano, Apichatpong retorna ao festival apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o documentário Mekong Hotel e o curta Ashes, ambos de 2012. Este último é oLeia Mais

Fischli & Weiss: a comédia dos objetos

Ronaldo Entler | 7.maio.2012

Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista suíço David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli.  A dupla Fischli & Weiss se consagrou com várias séries fotográficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos críticos de fotografia. Entendidas como registros de esculturas e instalações, suas fotos pareciam manter certa subserviência diante de técnicas mais consagradas. Não demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fotógrafos. Não raramente, a história da fotografia se pauta por essa mágoa e,Leia Mais

Pina 3D: as profundidades do cinema

Ronaldo Entler | 9.abr.2012

Fiquei apreensivo quando soube que Wim Wenders embarcaria na onda do cinema 3D em seu documentário sobre Pina Bausch. Com Paris Texas (1984) e Asas do Desejo (1987), ele já parecia ter demonstrado a profundidade que se pode arrancar dessa tela. Acompanhei mais ou menos o que veio em seguida, mas fiquei preso a algumas poucas coisas mais que descobri tardiamente, seu trabalho fotográfico e alguns filmes anteriores, como Alice nas cidades (1974) Movimento em falso (1975) e No decurso do tempo (1976). Essas eram as imagens que eu queriaLeia Mais

A fotografia e a Semana de 22 – Parte II

Rubens Fernandes Junior | 26.mar.2012

A Semana de Arte Moderna comemora seus noventa anos e acredito que ninguém pode negar sua importância como evento que rompeu alguns paradigmas que imperavam na literatura e nas artes em geral daquele momento. Entendo a Semana como uma pequena insurreição que deve sim ser celebrada, mas hoje, com o distanciamento histórico, podemos também apontar alguns vazios que não foram ocupados pelos precursores do movimento. Como entender, por exemplo, a ausência da fotografia e do cinema, duas linguagens em plena ebulição nas primeiras décadas do século passado? Nesse mesmo período,Leia Mais

A fotografia e a Semana de 22 – Parte I

Rubens Fernandes Junior | 26.fev.2012

Na celebração dos noventa anos da Semana de Arte Moderna, há várias homenagens e publicações que tentam dar conta da extensão e da importância que o evento teve nas artes em geral. Mas poucos discutem as lacunas e as ausências cada vez mais evidentes à medida que nos distanciamos no tempo. No dia 15 fevereiro de 1922, duas semanas antes do Carnaval, teve início a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Em tese, este acontecimento cultural com preocupações nacionalistas poderia ter ampliado sua ressonância caso seLeia Mais

A fotografia e seus duplos – Parte IV

Mauricio Lissovsky | 6.fev.2012

A história é bem conhecida. Em 1867, Dostoiévski visitava o museu da Basiléia, na Suiça, em companhia de sua mais recente esposa, Anna Snitkina, estenógrafa que havia colaborado com ele em “O Jogador”. Diante de uma pintura de Holbein, o Jovem, ele congelou, sem conseguir desviar os olhos. No rosto do escritor, a mesma expressão, mistura de êxtase e pânico, que costumava ter na iminência de um ataque epilético. No quadro do museu, Cristo, em tamanho natural, deitado em sua tumba.Leia Mais

O luto de Barthes

Ronaldo Entler | 30.jan.2012

Nestas férias, li Diário de Luto, de Roland Barthes, editado recentemente em português, com tradução de Leyla Perrone-Moisés. É um conjunto de pequenas anotações iniciadas em outubro de 1977, um dia após o falecimento de sua mãe, e que se estendem até setembro de 1979, seis meses antes de sua própria morte. No meio disso, entre 15 de abril e 3 de junho de 1979, ele escreveu A câmara clara. Etienne Samain já havia observado que esse livro, que tem 48 capítulos, foi escrito em exatos 48 dias, possivelmente, também sobLeia Mais

Fotografias Radiantes I

Rubens Fernandes Junior | 31.out.2011

Já compartilhei experiências fotográficas com pelo menos três gerações. Pensando bem, até mais. Convivo com o presente imagético e, posso afirmar, tive vivências intensas com o passado a fim de me aproximar, conhecer e difundir as iniciativas estéticas destas diferentes gerações. Além disso, foi necessário pesquisar a história da linguagem, diacrônica e sincronicamente, para entender em que medida essa produção gera ressonância e contribui nos processos de criação da nossa fotografia. Entendo a fotografia como um intenso instante da imaginação humana mas, seja ela de qualquer tempo e de qualquerLeia Mais

La Ciotat: de volta para o futuro*

Mauricio Lissovsky | 17.out.2011

Proust escreveu que a “imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas”. Vejam esta fotografia de Baudelaire, feita por seu amigo Nadar. Parece estática para nós, hoje em dia, mas há todo um movimento ali. Um movimento que o poeta procurou expressar em um soneto dedicado ao fotógrafo. Depois de comparar a experiência de posar no estúdio fotográfico a morrer de uma “dor saborosa”, “misto de êxtase eLeia Mais
Três eventos recentes e importantes – o SP-Arte/Foto, o Paraty em Foco e o VídeoBrasil – me fizeram pensar sobre a presença tensa do fotógrafo em alguns ambientes dedicados às artes. Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cadê o pessoal da fotografia? Certamente, o vídeo se expandiu na última década tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem artística. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. Basta relembrar que, em 2009, tivemos emLeia Mais
O post anterior se encerrou com a seguinte questão: quais as formas de lidar com a nova escala de produção e circulação de fotografias? A “quantidade” de imagens disponível na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova “qualidade” ao problema, mas os sentimentos que temos diante disso não são propriamente novos, o deslumbramento e a desconfiança são coisas inerentes à qualquer mudança. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquantoLeia Mais
É certo que o sentido de uma fotografia não cabe na fração de segundo de que foi tomada. Por isso, ficamos sempre tentados a devolver-lhe certa fluidez por meio da palavra. Associar a imagem a uma narrativa é, segundo Mauricio Lissovsky, uma prática antiga que a retórica clássica chamava de  “ekphrasis” (Lissovsky, Máquina de Esperar). Como ele sugere, na dificuldade de reconhecer uma temporalidade própria a essa imagem, tendemos a associá-la com algo que pareça se desenvolver mais claramenteno tempo, como é o caso da linguagem verbal. Descrever uma imagemLeia Mais

Inhotim: espaço e experiência

Ronaldo Entler | 21.mar.2011

Neste carnaval, fui conhecer Inhotim. Eu sabia que encontraria obras importantes de grandes artistas, algumas delas já vistas em outras montagens. A surpresa não é a qualidade das obras, mas a experiência. Ali circulam artistas, críticos, estudantes, turistas, gente perdida, de tudo um pouco. Vez ou outra, uns estranham os comportamentos dos outros, mas o espaço é capaz de satisfazer igualmente a todos. Inhotim: GoogleMaps Assimilamos a ideia de que a arte é uma atividade dotada de autonomia, que se justifica por si mesma. Mas a defesa dessa especificidade temLeia Mais
Zapear a TV a cabo é como a rotina de andar no meio da multidão. Depois de um longo percurso, nenhuma marca, nenhuma história pra contar. Até que um dia, quando a gente menos espera,  a gente dobra uma esquina e vê um rosto, uma expressão, um gesto, algo que nos surpreende e que é capaz de produzir uma experiência.  A TV e, claro, também a internet são as metrópoles dos flaneurs preguiçosos. ### Num desses dias de sorte, pulando de canal em canal, dei de cara com um filmeLeia Mais