Ronaldo Entler | 12.jun.2018
Sob o título “Cuidado com o Daguerreotypo”, o jornal português O Recreio trouxe, em 1841, o relato de um evento ocorrido supostamente na França em que um assaltante foi identificado de forma um tanto inusitada, graças à fotografia. O texto é representativo de uma percepção muito rapidamente disseminada no século XIX: primeiro, de que a fotografia é uma imagem que não depende da intervenção humana; segundo, de que, por isso mesmo, ela constitui um testemunho irrefutável. Mas esse texto, que ilustra em tom irônico o compromisso da fotografia com a verdade,
Leia Mais Mauricio Lissovsky | 13.jul.2016
Isso foi no “tempo do Raj” – no tempo do vice-rei que representava o domínio imperial britânico sobre a Índia. Esperava-se que os príncipes da Índia o visitassem, periodicamente. Nessas ocasiões, nada de importante realmente se decidia, perdoavam-se impostos e anistiavam-se presos, no máximo. Na realidade, tais reuniões não passavam de uma confirmação cerimoniosa da soberania da Coroa Britânica sobre a Índia. O maior desses príncipes inidanos era Mahbub Ali Kahn, o sexto Nizam de Haiderabade. Numa manhã de segunda-feira, na década de 1880, o Nizam chegou a Delhi, em
Leia Mais Ronaldo Entler | 11.dez.2013
Há algumas semanas, foi divulgado um retrato feito no século XIX de um certo Sr. Arnauldet, e que deixa aparecer ao fundo um intruso que foi identificado como sendo Baudelaire. Foi Serge Plantureux, marchand de fotografias de Paris, quem adquiriu essa imagem e, a partir de alguns dados levantados na Biblioteca Nacional da França, convenceu-se de que eram grandes as chances de se tratar mesmo daquele poeta. O modo hesitante como espia a performance do fotógrafo e do fotografado denuncia sua consciência de estar onde não deveria. Resta um corpo
Leia Mais Rubens Fernandes Junior | 23.out.2012
Os tios mais velhos reclamam porque nunca poderão ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crianças se deliciam com o imediatismo das múltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de mão em mão. Enfim, o clássico conflito de gerações entre os mais velhos e os mais jovens, só que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum domínio técnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferença perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritual
Leia Mais Rubens Fernandes Junior | 3.set.2012
Não somente a fotografia atiça meu interesse e minha curiosidade. Gosto também de recolher, estudar e refletir sobre o processo de descarte das imagens, sejam elas antigas ou não. Já registrei em alguns textos anteriores publicados aqui no Icônica meu trabalho de tentar resignificar essas fotografias ao colocá-las novamente no circuito da visibilidade. Chamei-as de fotografias rasgadas, descartadas, deserdadas, entre outras denominações para essas imagens que foram encontradas aleatoriamente em minhas andanças por várias cidades brasileiras. Tenho um profundo respeito por essas fotografias desconhecidas que sobreviveram à violência daqueles que
Leia Mais Mauricio Lissovsky | 19.mar.2012
É bem conhecida a história contada por Nadar que Balzac não gostava de posar com medo de ser “descamado” pela câmera. Mas esta não era a única fantasia que atormentava os modelos durante a lenta transmigração da aparência que caracterizava o ato fotográfico naqueles tempos. Havia também quem receasse ser sugado pela objetiva. Existem relatos, particularmente de mulheres, que declararam sentir seus olhos sendo atraídos para dentro da lente da câmera enquanto eram fotografadas. Acredito que boa parte do escândalo em torno de Fading Away (1858), de Henry Peach Robinson
Leia Mais Ronaldo Entler | 5.mar.2012
Nossa formação de esquerda ensina que as crises são inerentes ao capitalismo e não permite lamentar quando uma grande corporação vai à bancarrota. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que seus extintos produtos ganham contornos afetivos em nossa memória. Nessas horas, o conceito comercial de “marca” assume um sentido menos abstrato, quase sob a forma de uma cicatriz. Foi mais ou menos o que senti quando reencontrei uma caixinha de TRI-X perdida na geladeira, algumas semanas depois de ler as notícias sobre a falência da Kodak. Na década de 90, fui
Leia Mais Rubens Fernandes Junior | 31.out.2011
Já compartilhei experiências fotográficas com pelo menos três gerações. Pensando bem, até mais. Convivo com o presente imagético e, posso afirmar, tive vivências intensas com o passado a fim de me aproximar, conhecer e difundir as iniciativas estéticas destas diferentes gerações. Além disso, foi necessário pesquisar a história da linguagem, diacrônica e sincronicamente, para entender em que medida essa produção gera ressonância e contribui nos processos de criação da nossa fotografia. Entendo a fotografia como um intenso instante da imaginação humana mas, seja ela de qualquer tempo e de qualquer
Leia Mais Mauricio Lissovsky | 17.out.2011
Proust escreveu que a “imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas”. Vejam esta fotografia de Baudelaire, feita por seu amigo Nadar. Parece estática para nós, hoje em dia, mas há todo um movimento ali. Um movimento que o poeta procurou expressar em um soneto dedicado ao fotógrafo. Depois de comparar a experiência de posar no estúdio fotográfico a morrer de uma “dor saborosa”, “misto de êxtase e
Leia Mais Mauricio Lissovsky | 13.set.2011
Há este carte de visite do Imperador do Brasil e seu duplo, feito por Carneiro & Gaspar, em 1867. Nele, Dom Pedro II, aficionado e colecionador tenaz de fotografias, apesar da sobriedade da expressão, empresta sua real figura a uma anedota. O grande interesse de Sua Majestade pela técnica fotográfica pode tê-lo motivado a submeter-se a este “experimento” (na mesma ocasião, também foi feita imagem similar da Imperatriz Teresa Cristina), mas é impossível deixar de associar esta imagem à tradição taumatúrgica do caráter duplo do corpo do Rei: um corpo
Leia Mais Rubens Fernandes Junior | 22.ago.2011
Na semana passada participei como convidado dos Encontros de Agosto, realizado em Fortaleza, iniciativa do Fórum da Fotografia – Ceará. A primeira edição do evento teve como tema geral Fotografia Contemporânea – linguagem e pensamento e contou com seminários, palestras, exposições e workshops. Essas atividades buscaram refletir as questões próprias da fotografia, em particular sua inserção no campo das artes. Minha participação se deu através de uma rápida palestra denominada A internacionalização da fotografia brasileira, a partir de uma provocação feita por Tiago Santana. Aliás, essa provocação gestou um novo
Leia Mais Ronaldo Entler | 15.ago.2011
Como parte do projeto Morar, o coletivo Garapa produziu uma série de daguerreótipos de objetos que fazem referência ao Edifício Mercúrio, recentemente demolido no centro de São Paulo. Para essa empreitada que durou uma semana, contaram com a ajuda do fotógrafo Fernando Schmitt, e o know-how de Chico da Costa, maior especialista em daguerreotipia no Brasil. Eu apareci por lá duas vezes para bisbilhotar. Achei que tinha uma boa idéia de como a coisa funcionava, mas é impossível supor as sutilezas do ritual que os daguerreótipos exigem: além de um
Leia Mais Ronaldo Entler | 5.jun.2011
Antes que existisse uma biologia capaz de pensar a “vida” como função abstrata, lembra Foucault, havia apenas uma história natural interessada nos “seres vivos”, suas formas, suas tipologias. Ele completa: “fazer a história de uma planta ou de um animal era tanto dizer quais são seus elementos ou seus órgãos, quanto as semelhanças que se lhe podem encontrar, as virtudes que se lhe atribuem, as lendas e as histórias com que se misturou” (Foucault, As palavras e as coisas). O conhecimento consolidado buscava os traços e comportamentos médios que definiam
Leia Mais Ronaldo Entler | 17.out.2010
Neste fim de semana, assisti ao filme “Creation” (2009), recorte da biografia de Charles Darwin centrado nas dificuldades que enfrentou quando finalizava A origem das espécies (1859). Vemos ali um personagem debilitado por uma doença desconhecida, atormentado pela morte de uma filha, e em conflito com os valores cristãos de sua comunidade e de sua família. Numa das primeiras cenas, sua filha Annie está num estúdio se preparando para ser fotografada. Darwin lhe explica como funciona a técnica. Enquanto o fotógrafo tenta fotografar a menina, ela parece mais interessada nas
Leia Mais Ronaldo Entler | 27.set.2010
Três posts abaixo, eu falava da sobrevivência de um “valor de culto” na fotografia, emprestando de Barthes e Didi-Huberman a comparação com o Sudário de Turim, como forma de expressar um aspecto misterioso e sagrado que existe em algumas fotos. Zapeando a TV dias depois, parei num programa do Discovery Channel que falava extamente sobre o Sudário (na última experiência que tive com esse canal, aprendi muito sobre os possíveis resultados do duelo entre um urso polar e uma morsa). Nesses pseudo-documentários as coisas sempre adquirem um aspecto espetacular, com
Leia Mais Rubens Fernandes Junior | 17.jan.2010
No dia 17 de janeiro de 1840, seis meses após o anúncio oficial do advento da fotografia, uma experiência de daguerreotipia foi realizada no Largo do Paço Imperial na cidade do Rio de Janeiro, pelo abade Louis Compte. Sabemos pelos anúncios dos jornais da época que no navio-escola L’Orientale, viajava o Abade Compte encarregado de propagar o advento da fotografia ao mundo. Suas experiências foram realizadas em Salvador, em dezembro de 1839, no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, mas apenas o daguerreótipo de 17 de janeiro, tomado no
Leia Mais Ronaldo Entler | 16.nov.2009
O artigo, escrito pelo jornalista Hippolyte Gaucheraud, adota uma postura empolgada e quase propagandística, apesar de expor algumas limitações técnicas da nova imagem. Responde provavelmente a uma estratégia de divulgação e afirmação do daguerreótipo articulada por Daguerre e o político e cientista François Arago, que defendeu a descoberta junto ao poder público Francês. É interessante – apesar de óbvio – notar a falta de um vocabulário para descrever a fotografia, e o modo como o autor se esforça com termos ligados à pintura, ao desenho e à gravura para explicar ao público
Leia Mais Ronaldo Entler | 8.nov.2009
Amanhã (09/11) começa o IV SEMINÁRIO ARTE CULTURA E FOTOGRAFIA: MEMÓRIA, OUTROS DEBATES, na ECA-USP. A programação está ótima, com o mérito de abrir espaço para jovens pesquisadores e de aproximar da fotografia críticos e teóricos que não são os nomes mais recorrentes desse campo. Queria indicar uma apresentação, em especial: A fotografia de espíritos no Brasil: uma iconografia do outro mundo, de Mario Ramiro, programada para o dia 10/11. Mario Ramiro é um artista irriquieto que integrou no final dos anos 70 o coletivo 3 nós 3, junto com
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