Tema: Crítica

O silêncio e a passividade de um novo começo

Rubens Fernandes Junior | 23.out.2012

Os tios mais velhos reclamam porque nunca poderão ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crianças se deliciam com o imediatismo das múltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de mão em mão. Enfim, o clássico conflito de gerações entre os mais velhos e os mais jovens, só que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum domínio técnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferença perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritualLeia Mais
Esta 30ª edição da Bienal de São Paulo parece ter feito as pazes com o olhar. O espaço dedicado aos artistas é generoso: de cada um deles, o que encontramos não é apenas uma amostra, mas um percurso. Isso nos dá o tempo mínimo para dialogar com suas produções. As informações estão disponíveis, enriquecem esse diálogo, mas não estão lá para compensar com retórica o fracasso da produção de sentido. Há muito o que debater, mas há também muito o que ver em silêncio. Alguns espaços vão além, e colocam emLeia Mais

Entre Morros – excesso de referência e abstração

Rubens Fernandes Junior | 1.out.2012

A cada novo ensaio fotográfico de Claudia Jaguaribe nos deparamos com reinvenções que buscam sintonizar suas inquietações visuais com os desafios da contemporaneidade. Viver hoje exige, antes de tudo, estar antenado diante da multiplicidade das ações simultâneas que nos cercam e do ritmo acelerado imposto pelas tecnologias que nos empurra para um estado de dúvida e indeterminação. Afinal, como sobreviver e como se inserir criativamente nessa situação de permanente incerteza? É com essa perspectiva que podemos avaliar seu livro mais recente, Entre Morros, editado pela Cosac Naify que traz aindaLeia Mais

Quatro lições de Chris Marker

Ronaldo Entler | 24.set.2012

Viagens no tempo aparecem de forma recorrente na obra do fotógrafo e cineasta Chris Marker, a exemplo do que vemos em seus trabalhos mais conhecidos, o “foto-romance” La Jetée (1962) e, mais sutilmente, em Sans Soleil (1983).   Viajar no tempo é algo que ele mesmo faz na relação que estabelece com seus arquivos. Desde seus primeiros trabalhos, ele assume transitar por um terreno instável: os sentidos das imagens. E faz delas o palco em que a história contracena com o presente. Dessas experiências, podemos tirar algumas lições: 1. as imagensLeia Mais
Na tarde do último domingo de junho de 1994, ao chegar em Nova York, eu me dirigi rapidamente ao Whitney Museum para aproveitar os últimos momentos da exposição  Evidence 1944 – 1994, de Richard Avedon, que encerrava sua temporada. Foi ali que me deparei com o nome da Bea Feitler (1938–1982) associado à fotografia, em particular, com o projeto do livro Diary of a Century, diário fotográfico de Jacques-Henri Lartigue, organizado por Avedon e publicado em 1970. Já conhecia a obra mas, até então, não sabia que esse era oLeia Mais
Bram Stoker não inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que já vagava pelas lendas europeias. Humanizado e romântico, seu Drácula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman. Com seu sangue impuro, o vampiro é um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da má fama, é um ser tolerante: está sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam comLeia Mais
Não vem ao caso discutir aqui se publicidade é ou não uma forma de arte. Precisaríamos de mais fôlego e espaço, e a história da fotografia nos mostra bem o quanto esse debate nos empurra para posições dogmáticas. De todo modo, vale focar alguns pontos de aproximação e distanciamento. Penso, por exemplo, que os publicitários, com o caráter impuro e utilitário de sua atividade, sabem inserir suas criações na vida cotidiana das pessoas mais do que a média dos artistas. Para o bem e para o mal, a publicidade ocupaLeia Mais
As casa antigas sempre me intrigaram. Morei dez anos num sobrado cujas portas e janelas, de madeira, não fechavam direito de tão antigas. O teto, também de madeira, ‘ecoava’ tudo que acontecia no andar de cima. De anos em anos, as paredes sujas – as marcas dos pés debaixo da escrivaninha, a disposição dos quadros, o arranhado das costas das cadeiras, o decalque da bola atirada contra a parede, o queimado do sol à direita de meu quarto – eram vestígios substituídos pela pintura branca. A cada sucessiva pintura refaziam-seLeia Mais
Em junho, estive no Cannes Lions, o mais importante evento do mercado publicitário. O festival conta com uma programação intensa de workshops e debates, mas a ansiedade do público se concentra nas Shortlists, mostra de trabalhos pré-selecionados que disputam os “Leões”. Esses são os prêmios que definem o prestígio internacional das agências. O festival em si já é notícia velha, mas algumas questões exigem algum tempo de digestão. Olhando as Shortlists, sobretudo as categorias mais tradicionais como Press e Outdoor, foi inevitável que eu me perguntasse: e a fotografia, aLeia Mais

Viagens, aparências e aparições

Rubens Fernandes Junior | 7.ago.2012

Nestas últimas décadas, valorizou-se uma fotografia que se destaca tanto pela precariedade técnica quanto pela imagem difusa e irremediavelmente ruidosa. Nada contra essas decisões estéticas. Em contrapartida, alguns artistas fortaleceram a autonomia figurativa da fotografia, assumindo-a por inteiro. Essa segunda variante, que também é uma atitude conceitual da cena contemporânea, além de ampliar o campo de investigação artística, vê a imagem técnica como livre expressão, realista e fecunda, resultado direto da própria natureza do dispositivo. E isso é que vemos na exposição de João Luiz Musa na Galeria Luciana Brito,Leia Mais

A imagem como teoria

Ronaldo Entler | 21.maio.2012

Neste último sábado, estive no I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia, no MIS, conversando sobre a experiência do Icônica com os amigos Fernando de Tacca, da Revista Studium, e Mane Adaro, do blog Chilenización de la Fotografia. A proposta era pensar a internet como espaço de difusão do pensamento sobre a fotografia. O Icônica nasceu da vontade de compartilhar de um modo mais informal nossas pesquisas e intuições, e da constatação de que a internet é um grande espaço para fazer circular o pensamento. O blog é, de fato,Leia Mais

MIS – centro irradiador de fotografia

Rubens Fernandes Junior | 14.maio.2012

O MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo retoma agora seu trabalho com a fotografia. A programação a partir deste mês de maio tenta recuperar o brilho e o prestígio do museu nessa área, um tanto esmaecido nos últimos anos. Essa retomada é muito importante num momento em que a fotografia ganha expressão e proximidade com a arte contemporânea e espaço nos museus, galerias e instituições culturais. Nunca a fotografia alcançou tanto destaque como agora. Portanto, nada mais justo o MIS se reposicionar em relação àLeia Mais

Wolfgang Tillmans: engenharia do acaso

Ronaldo Entler | 16.abr.2012

As imagens de Wolfgang Tillmans são simples mas, como conjunto, seu trabalho é de difícil apreensão. Não é desses autores que a gente entende buscando referências em livros ou na internet. Quando fazemos isso, fica sempre a impressão de que as imagens não se conectam. Uma exposição panorâmica como a que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo não muda essa leitura, mas permite constatar o modo como suas imagens efetivamente não se conectam: reconhecemos que o aleatório se constrói ali como uma arquitetura. Não é suficienteLeia Mais
Na chamada da propaganda da Canon, quando Sofia é interrogada pelo locutor sobre qual o significado de ter refeito a fotografia, ela afirma ter sido a chance de recuperar o que deveria “ter dado certo na primeira vez e não deu”. Em seu depoimento, Sofia ‘reflete’: “Os grandes momentos escapam, e não temos oportunidade de reconhecê-los pelo que eles são. Quando se tem a oportunidade de observá-los, aí podemos olhar para trás e perceber que se tratava de um grande momento que não se tinha reconhecido”. As histórias apresentadas noLeia Mais
A imagem vencedora da edição de 2011 do Word Press Photo, de Samuel Aranda, tem uma qualidade rara no fotojornalismo: mostra pouco, mas produz forte reverberação. Mesmo que mal lembremos que existe no mapa um país chamado Iêmen, reconhecemos ali o sofrimento dessas pessoas. A foto não explica a razão ou a extensão do problema, apenas mostra a dor como qualidade e intensidade. Ainda que a Primavera Árabe nos afete pouco, ou mesmo quando seus eventos já não renderem mais notícias, essa imagem poderá dizer alguma coisa sobre “a dor dosLeia Mais
As fotografias nascem quando se tornam legíveis – e essa legibilidade diz respeito ao que se pode ver, pensar e acreditar em determinado ponto crítico de uma época. Como já mencionado, todo presente é determinado pelas imagens que lhe são sincrônicas. Cada agora é o agora de uma capacidade de perceber, tornar legível não o passado em si, mas a constelação entre a materialidade do agora atual e do agora virtual. A visibilidade de uma imagem – aquilo que se atualiza numa fotografia de modo imanente e singular – dependeLeia Mais

Revista Joia vê o Brasil

Rubens Fernandes Junior | 12.fev.2012

O ano de 2012 começou para mim com várias frentes de pesquisa e novos projetos. Um deles é tentar organizar informações a fim de elaborar uma cronologia e uma reflexão sobre a fotografia, os fotógrafos e a moda no Brasil, prevista para o segundo semestre de 2013. Claro que, se olharmos para os últimos quinze anos, vamos nos deparar com algumas tentativas de sistematizar uma história da moda, uma vez que o país é hoje referência e alcança até mesmo algumas iniciativas de excelência na área. Mas, na maioria dasLeia Mais

Interrupções e continuidades

Ronaldo Entler | 27.dez.2011

Nunca houve o compromisso de qualquer alinhamento entre os integrantes deste blog, nem mesmo a pretensão de coerência entre os posts de cada autor. Mas é curioso que, vez ou outra, alguém pergunta “o que o Icônica pensa de tal coisa” ou “quando haverá um workshop do Icônica”. Talvez um pensamento possa ser construído dessa forma, por meio de encontros, de sobreposições, de montagens. É algo que ainda precisamos descobrir, talvez ampliando um exercício que já fizemos algumas vezes: o de abrir mais espaço quando um post pede uma continuidade, ou deLeia Mais

Jogo dos sete erros

Ronaldo Entler | 12.dez.2011

Eu procurava na internet informações sobre alguns textos, quando encontrei um blog – sem atualizações e provavelmente não oficial – de divulgação do livro de Arlindo Machado, “O sujeito na tela” (2007). Estranhei o retrato publicado ao lado de sua biografia. Mas a idade faz essas coisas: de um lado, enfraquece nossas lembranças e, de outro, muda a aparência das pessoas. Quase assimilei sua nova fisionomia. Depois, descobri que se tratava do crítico e cineasta alemão Alexander Kluge, que Machado conhece bem e sobre quem já escreveu. Além de algumaLeia Mais

Fotografias radiantes II

Rubens Fernandes Junior | 6.dez.2011

A produção fotográfica atual é quantitativamente alucinante e sua circulação é garantida pelas novas plataformas tecnológicas, mas fica evidente que é quase impossível destacar as singularidades visuais. Será que a fotografia passa por uma crise de aceitação e até mesmo de criação? Haveria uma nova maneira de entender a fotografia como a representação maquínica do nosso tempo?  Diante desse impasse e da dificuldade de redefinir seus parâmetros, é inevitável que apareçam alguns pressupostos que nos convidam a repensar a fotografia. O importante é que a fotografia continua provocando discussão eLeia Mais