Fotografias radiantes II

[06.dez.2011]

A produção fotográfica atual é quantitativamente alucinante e sua circulação é garantida pelas novas plataformas tecnológicas, mas fica evidente que é quase impossível destacar as singularidades visuais. Será que a fotografia passa por uma crise de aceitação e até mesmo de criação? Haveria uma nova maneira de entender a fotografia como a representação maquínica do nosso tempo?  Diante desse impasse e da dificuldade de redefinir seus parâmetros, é inevitável que apareçam alguns pressupostos que nos convidam a repensar a fotografia.

O importante é que a fotografia continua provocando discussão e produzindo incertezas. E é exatamente essa imaginação inquieta que a caracteriza como uma manifestação visual contemporânea. Antes imaginava que a história da fotografia era um imenso iceberg do qual conhecíamos quase nada diante da existência de uma produção que estava submersa nas profundezas dos arquivos inacessíveis e nos esquecimentos aterrorizantes. Hoje, sinto que cada fotografia é esse iceberg, pois a imagem é apenas uma forma visual do desejo atávico do seu criador.

Algumas fotografias causam estupefação; outras nada provocam. E, diante desse hiato, buscamos alguns parâmetros para compreender o fenômeno desta produção fotográfica no panorama das artes visuais. Uma imagem pode dizer tantas coisas assim como pode não dizer nada. O sujeito que simplesmente se submete a uma leitura de circunstância limita-se a tentar compreender a fotografia em sua aparência. O que devemos ativar é um processo que elabora a subjetividade de modo relacional, ou seja, que busca perceber na imagem uma atmosfera que ressalta o desequilíbrio entre a visão imediata e o conhecimento exigido para a recepção plena.

Esta questão tem desencadeado reflexões interessantes que merecem ser mencionadas. A revista francesa Réponses Photo, Hors Serie Nº 13, outono/inverno de 2011, publica um interessante fórum de discussão sobre o tema. Claudine Doury, fotógrafa e membro da Agência Vu, defende que “uma fotografia deve ser portadora de alguma coisa misteriosa, indecifrável, e que tal qual a Mona Lisa, não cessa de nos interrogar”. Os variados depoimentos tornam claro que, quanto mais inexplicável a imagem, maior é a chance de decifrar enigmas, de aflorar emoções, de engendrar possibilidades.

Foam Internacional Photography Magazine

Já a revista holandesa Foam Magazine, Nº 29, inverno 2011/2012, que mantém um excelente espaço físico em Amsterdam para discussão e exibição de fotografias, traz como tema a pergunta “What’s next?”, assumindo em seu editorial que o momento seguinte, apesar de parecer sempre mais fascinante, nunca poderia ser anunciado com precisão pois não temos bola de cristal para conjecturas. Por isso mesmo, a edição faz um esforço para idealizar qual seria o futuro da fotografia, dos fotógrafos e de um museu da fotografia, através de depoimentos, entrevistas e textos de curadores, pesquisadores, fotógrafos e diretores de diferentes museus e galerias internacionais.

Essas iniciativas que surgem de tempos em tempos reacendem o debate em torno da fotografia. Mas, independentemente disso, nos interessa mesmo é indagar sobre a imagem contemporânea. É possível apontar algumas tendências. Dentre elas podemos destacar uma produção ruidosa, ou seja, aquela que busca de alguma forma trair o referente, e para isso, se concentra em buscar alternativas nos procedimentos de criação e produção da fotografia, aproximando-se de outras linguagens, em particular o vídeo e a instalação. Também há aquelas que se distanciam da tradição apresentando-se como simples imagens que, pela sua obviedade, incendeiam nossos corações. São simples manifestações na aparência, mas fortes o suficiente para desencadearem uma obra aberta, que sugere, evoca, insinua e não oferece evidências.

A militância e a persistência desses fotógrafos – artistas que querem sensibilizar o sujeito com imagens centradas na diversidade – são determinantes na arte contemporânea, pois centram seus trabalhos numa zona do desconforto, ousam nas experimentações e incentivam a combinação das mais diversas conexões interpretativas. Os rearranjos estruturais provocam ambivalência e intensificam a importância das fotografias, que são como icebergs porque desencadeiam narrativas, estimulam o raciocínio, aprimoram a capacidade de produzir estratégias que buscam compreender dialeticamente o momento contemporâneo – influenciando-o e sendo por ele influenciado.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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