A primeira notícia sobre a fotografia

[16.nov.2009]

O artigo, escrito pelo jornalista Hippolyte Gaucheraud, adota uma postura empolgada e quase propagandística, apesar de expor algumas limitações técnicas da nova imagem. Responde provavelmente a uma estratégia de divulgação e afirmação do daguerreótipo articulada por Daguerre e o político e cientista François Arago, que defendeu a descoberta junto ao poder público Francês.

É interessante – apesar de óbvio – notar a falta de um vocabulário para descrever a fotografia, e o modo como o autor se esforça com termos ligados à pintura, ao desenho e à gravura para explicar ao público o que eram as imagens que tinha visto em primeira mão.

A tradução é a mais literal possível. No meio do texto, alguns parênteses meus. E, ao final, algumas breves referências históricas do que aconteceu depois.

BELAS ARTES

Nova descoberta

Por  H. Gaucheraud

 

Anunciamos uma importante descoberta de nosso célebre pintor de diorama Sr. Daguerre. É uma descoberta prodigiosa. Ela desconcerta todas as teorias da ciência sobre a luz e sobre a ótica, e fará uma revolução na arte do desenho.

O Sr. Daguerre encontrou um meio de fixar imagens que vêm se pintar sobre o fundo de uma câmera escura; de tal modo que as imagens não são mais o reflexo passageiro dos objetos, mas sua impressão fixa e duradoura, podendo se transportar para longe da presença dos objetos como um quadro ou uma estampa.

Imagine-se a fidelidade da imagem da natureza reproduzida pela câmera escura e some-se a isso o trabalho dos raios solares que fixam essa imagem, com todas as suas nuances de luzes, de sombra, de meios-tons, e teremos uma idéia dos belos desenhos que Sr. Daguerre expôs a nossa curiosidade. Não é sobre o papel que Sr. Daguerre pode operar, são-lhes necessárias placas de metal polido. É sobre o cobre que vimos diferentes vistas de boulevares, a Ponte Marie e seus entornos, e tantos outros lugares mostrados com uma veracidade que só a natureza pode dar às suas obras. O Sr. Daguerre lhe mostra a peça de cobre nua, ele a coloca na sua frente dentro de seu equipamento e, ao final de três minutos, se temos um sol de verão, ou alguns [minutos] mais, se o outono ou inverno enfraquecem a força dos raios solares,  ele retira o metal e o mostra coberto de um desenho arrebatador que representa o objeto na direção do qual apontou o equipamento. Trata-se apenas de uma curta operação de banhos, creio eu, e eis que a vista construída em tão curto instante torna-se invariavelmente fixado, e de modo que o sol mais ardente não a poderá mais destruir.

Os Srs. Arago, Biot e Humboldt constataram a autenticidade dessa descoberta, que despertou neles admiração, e o Sr. Arago a fará conhecer na Academia das Ciências dentro de poucos dias.

Deseja outros detalhes? Aí estão alguns mais.

A natureza em movimento não pode ser reproduzida, ou não poderia a não ser com grande dificuldade pelo processo em questão. Em uma das vistas da qual falei do Boulevard, ocorreu que todos os que caminhavam ou se movimentavam não tiveram lugar no desenho, dos dois cavalos atrelados na estação, infelizmente, um deles balançou a cabeça durante a curta operação, e o animal está sem cabeça no desenho. As árvores se mostram muito bem, mas sua cor, ao que parece, impõe obstáculos quando os raios solares a reproduzem com a mesma rapidez com que faz com as casas e outros objetos de cores diferentes. É uma dificuldade para a paisagem, porque há uma regulagem fixa para a perfeição das árvores e da cor verde, e outra para aquilo que tem outras cores, que não a verde. Resulta, de fato, que enquanto as casas são alcançadas, as árvores não; e quando se alcança as árvores, é demasiado para as casas.

A natureza morta, a arquitetura, aí está o triunfo do equipamento ao qual o Sr. Daguerre quer batizar, a partir de seu nome, de Daguerótipo [no original, Daguerotype, em vez de Daguerreotype]. Uma aranha morta, vista no microscópio solar [supostamente, Daguerre chegou a fazer fotografias microscópicas e telescópicas, destruídas num incêndio em seu laboratório, em 8/3/1839], é de uma tal riqueza de detalhes no desenho, que com ele poderíamos estudar sua anatomia, e sem lupa, como fazemos com a natureza mesma. Não há nem um fio, nem um vaso, por tênue que seja, que não se possa seguir e examinar. Viajantes, vocês logo poderão, talvez, com algumas centenas de Francos, adquirir o equipamento inventado pelo Sr. Daguerre, e poderão trazer para a França os mais belos monumentos, os mais belos lugares do mundo inteiro. Vocês verão o quanto seus lápis e seus pincéis estão longe da veracidade do Daguerótipo. No entanto, que os desenhistas e pintores não se desesperem, os resultados do Sr. Daguerre são algo diferente de seus trabalhos e, por melhor que seja, não pode substituí-los.

Se eu quisesse fazer uma comparação dos efeitos trazidos pelo novo procedimento, diria que são como a gravura a buril ou a gravura em negro [mezzo-tinto], mais para esta última. Quanto à veracidade, estão acima de tudo.

Falei apenas da descoberta sob o ponto de vista da arte nesta curta exposição. Se o que me chegou é exato, os resultados do Sr. Daguerre devem conduzir a não menos que uma nova teoria sobre um ramo importante da ciência. O Sr. Daguerre avisa generosamente que a primeira idéia de seu procedimento lhe foi fornecida, há quinze anos, pelo Sr. Nieps [o nome de Niépce aparece grafado exatamente assim], de Chalons-sur-Saone, mas dentro de um tal estado de imperfeição que foi preciso um longo e obstinado trabalho para alcançar o resultado que ele esperava!


E depois…

Em 7 de janeiro, um dia após a publicação desse texto, Arago exibe a descoberta para a Academia Francesa de Ciências e propõe que o governo francês compre a patente para torná-la um patrimônio público do país.

Após alguns meses de articulação política, a proposta de Arago é aceita e, no dia 19 de agosto de 1839 (que se oficializou como dia da fotografia), ocorreu numa sessão especial conjunta da Academia de Ciências e da Academia de Belas Artes a solenidade em que Arago descreve detalhadamente o processo do daguerreótipo, e em que o governo francês formaliza a pensão de 6 mil francos anuais para Daguerre, e de 4 mil francos anuais para o filho de Niépce.

Reproduzido alguns dias depois no Journal of the Belles Lettres, Arts, Science, de Londres, esse texto provocou algumas reações imediatas. O pintor e botânico inglês Francis Bauer, que tinha consigo algumas das heliografias de Nièpce (incluindo a famosa vista da janela), se esforçou para que fossem reconhecidas as experiências pioneiras feitas pelo amigo. Fox-Talbot e John Herschel também se manifestaram. Conforme lembra Kossoy, o historiador Pierre G. Harmant chegou a computar um total de 24 pessoas que reivindicaram para si a invenção da fotografia, Hercules Florence dentre elas.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

5 Respostas

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  2. Obrigado pela divulgação desse material e pelas explicações sobre esse momento histórico. Foram informações importantes para um texto que acabo de escrever sobre um daguerreótipo de 1837: http://incinerrante.com/natureza-morta-com-baixo-relevo-partir-de-jean-goujon-1837-de-louis-jacques-mande-daguerre/

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