Fragmento do texto de apresentação do livro Bonito – Confins do Novo Mundo, fotografias de Valdir Cruz. A exposição com 25 fotografias encontra-se na Galeria Lourdina Jean Rabieh, Avenida Gabriel Monteiro da Silva, 147, telefone 3062-7173.
“O que é real é a mudança contínua da forma:
a forma é apenas uma visão instantânea da transição”
Henri Bergson
A fotografia é a primeira manifestação tecnológica na história das artes visuais e também é a linguagem que mais se reinventou nos últimos 170 anos. Um olhar retrospectivo nos possibilita entender que desde o princípio, os suportes e as tecnologias foram sucessivamente se modificando a fim de propiciar um resultado imagético cada vez mais convincente, verdadeiro e renovador. E a cada novo paradigma, temos a oportunidade de perceber o quanto o homem se esmerou em criar um registro técnico que também provocasse nossa imaginação.
É o caso das fotografias de Valdir Cruz publicadas nesta exposição (e no livro), que documentam a região de Bonito, Mato Grosso do Sul, conhecida como uma das mais belas do país. Um trabalho exaustivo, que exigiu muitas viagens e um mergulho na história e nas peculiaridades daquelas belezas naturais. Também impôs a necessidade de elaborar uma leitura própria das diferentes luzes tropicais do centro-oeste brasileiro, para conceber um ensaio que pudesse dar conta de algumas das singularidades visuais de Bonito com as características técnicas que definem o seu trabalho fotográfico.
Valdir Cruz tem uma trajetória bastante específica na fotografia brasileira. Iniciou sua formação técnica e estética nos Estados Unidos, sob orientação do mestre George Tice[1], que lhe deu uma sólida base para a compreensão de todo o processo fotográfico e possibilitou sua aproximação das matrizes de E. Steichen e, mais tarde, de Horst P. Horst, Mappelthorpe, entre outros. Para Valdir, é difícil pensar sua produção fotográfica sem a câmera de grande formato, sem a longa exposição que garante profundidade de campo e informações distintas nas diversas zonas de luz e sombra, sem uma revelação e impressão que lhe ofereçam quase todos os detalhes pré-visualizados. Dificilmente ele admite algum imprevisto ao longo da sua operação sequencial e clássica da fotografia.
Fotografar para Valdir Cruz é um ato que exige disciplina e rigor, é uma operação técnica sofisticada que requer concentração e conhecimento profundo das variáveis que envolvem o processo. Ele sabe que só assim é possível registrar uma imagem que tenha alguma essência transformadora, que traga alguma centelha que seja capaz de revesti-la com magia. Essa disciplina aprendida é que permitiu este ensaio desenvolvido com mais naturalidade e despojamento. Um conjunto de fotografias em que prevalece uma leveza e uma liberdade incomum, que se diferencia bastante dos seus trabalhos anteriores.
Em Bonito – Confins do Novo Mundo podemos conferir sua maturidade como artista, pois mesmo mantendo uma forte relação com a tradição da fotografia paisagista em preto e branco, ele soube incorporar à sua fotografia uma atmosfera poética que parece guiar com clareza as idéias que desenvolveu para este ensaio. Idéias que refletem uma consciência aguda do seu processo criativo.
Ele assumiu o encanto e o frescor das sensações fugazes. Sua composição é elegante e imaginativa. Nada escapa ao seu olhar atento que elabora um universo visual a partir de um mapa de procedimentos que revela formas puras e abstrações impertinentes, com estranhas e pulsantes luzes. Sua matriz de grande formato registra uma natureza exuberante, quase intocável. É possível perceber também que Valdir esperou pacientemente o momento em que toda a improvável ordem natural do cotidiano entra em revolução e explode na beleza da sua fotografia. Ele descobre certas estruturas visíveis e cria uma conexão entre elas; concentra na imagem uma força desconcertante que excita nossos sentidos.
Claro que o caráter documental que permeia sua obra não se constitui aqui um obstáculo à expressão de sentimentos e emoções, mas o deslocamento provocado pelo ambiente in natura de Bonito parece que exigiu uma preocupação estética e plástica diferenciada dos seus trabalhos anteriores. Estas fotografias de Valdir Cruz tem o poder de nos conduzir a um novo patamar de percepção, distribuído em diferentes camadas, a partir de uma superfície, a água, que reflete e refrata a luz.
Diante de algumas fotografias, como por exemplo, a surpreendente Encontro de Exus, temos uma sucessão de eventos amalgamados em simultaneidade. A primeira impressão é de estranhamento, pois é uma imagem ruidosa e com ricos detalhes. O resultado fotográfico exige concentração para entender a imprecisão dos contornos, os diferentes tempos reunidos no mesmo espaço, ou as diferentes paisagens que integram a mesma fotografia.
Valdir Cruz não esqueceu o legado dos grandes mestres da fotografia, e realizou um ensaio que sintetiza uma experiência imersiva puramente visual. Um perfeito equilíbrio entre intuição e intelecto. Bonito – Confins do Novo Mundo é um ensaio inovador, resultado de décadas de trabalho lapidado e testado em diferentes temáticas. Se “a técnica é o exercício da sinceridade” como defendeu o poeta Ezra Pound, Valdir Cruz trouxe para este trabalho toda sua experiência. Potencializou com sua competência técnica e seu olhar sensível, a força invisível que organiza e alinha os diferentes objetos – pedras, folhas, seixos, galhos, peixes, entre outros – que ao serem fotografados parecem conduzir ao devaneio nosso olhar de espectador.
Forma, tempo e movimento. Estas são algumas das variáveis que Valdir Cruz combina com maestria neste ensaio e é isso que torna sua fotografia diferente e estranhamente harmoniosa. A verdade é que ele conseguiu com seu inesgotável repertório de formas, enquadradas num tempo alongado, instaurar uma relação privilegiada com o sagrado. Uma espécie de exatidão e beleza. Uma trama delicada e, ao mesmo tempo, densa e leve, desorganizada e equilibrada. Por exemplo, essa água que se torna espelho – Rio da Prata –, que reflete o céu e as nuvens, a floresta e a mata, também viabiliza ver suas profundezas através da transparência. Quantas culturas estão impregnadas nestas fotografias? Que espécie de palimpsesto ele conseguiu inscrever nestas fotografias?
A natureza é extremamente complexa e a de Bonito registrada neste ensaio em particular, torna-se imagem à qual nós podemos entender melhor o seu sentido e sua força espiritual. Esse movimento natural que a cada instante transforma o mundo visível é que interessa ser registrado. Na verdade, o lapso entre momentos singulares que por um acaso qualquer, faz tudo movimentar e gerar uma imagem que desperta o interesse do artista.
De modo geral, o ensaio produz um efeito paralisante que nos deixa atônitos porque as fotografias parecem enigmas imobilizados diante dos nossos olhos. Daí, nossa admiração confessa, pois a esfera onírica é evocada. Marcel Proust escreveu que “a verdadeira viagem de descoberta consiste não em procurar novas paisagens, mas em possuir novos olhos”. E foi exatamente isso que moveu Valdir Cruz neste trabalho pois ao mesmo tempo que evitou a imagem apressada e vulgarizada do mundo contemporâneo, buscou registros que impressionam pela densidade temporal, pela desintegração das formas, pela provocação do espanto e do fantástico quase inesperado naquela paisagem ancestral.
[1] George Tice (1938, Newark, New Jersey), fotógrafo norte-americano, professor da Maine Photographic Workshops, desde 1977.
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