Arqueologia de um filme de Godard

[16.dez.2010]

O Dobras Visuais lançou uma pergunta a uma série de convidados: qual imagem chacoalhou você na 29a Bienal? Vale a pena conferir as respostas.

Escolhi Je vous salue, Sarajevo, de Jean-Luc Godard, filme de pouco mais de dois minutos em que Godard disseca uma fotografia feita durante a guerra nos Balcãs, na antiga Iugoslávia.  Mandei para o Dobras um breve comentário. Aqui, deixo um relato sobre a aventura que foi mergulhar nesse pequeno filme.

Pensar qualquer obra de um artista erudito implica fazer uma espécie de arqueologia. Você encontra coisas surpreendentes em lugares inesperados, e algumas peças sempre ficam faltando. Para começar, decidi fazer minha própria tradução do filme, pelo exercício de mergulhar nas palavras. Procurando o texto, descobri que ele já é uma colagem de outros textos.

O filme começa com uma fala sobre o medo, extraída da peça Dialogue des Carmelites,  adaptada em 1949 por Georges Bernanos, escritor que viveu no Brasil durante a Segunda Guerra: “Num certo sentido, paúra é filha de Deus (…) Ela vela cada agonia, ela intercede pelos homens”. Na peça de Bernanos, uma religiosa enclausurada reivindica a idéia de que o medo, como fraqueza, não é ofensiva a Deus, ao contrário, o medo a tornaria “irmã de Cristo em sua agonia”.

Ao final, a bela estrofe extraída de um poema de Luis Aragos (do livro Le Crève-Cœur, de 1941), que traz um pensamento sobre a morte: “Quando for preciso fechar o livro, farei isso sem nada lamentar. Vi tanta gente viver tão mal, e tanta gente morrer tão bem”.

Essas duas falas, inserem o filme numa perspectiva trágica: o medo faz parte da vida, e a morte pode terminar como uma aliada.

O filme destaca fragmentos de uma única fotografia, que apenas ao final é mostrada integralmente. Nessa imagem, vemos três soldados sérvios, um deles prestes a chutar a cabeça de uma mulher caída no chão. Diz Godard: “a cultura é a regra, a arte é a exceção”. A “Europa da cultura” impõem a sua regra, e mata a “arte de viver”. Não há o que celebrar nesse projeto de civilização que se desenvolve ao preço da intolerância, como a imagem não cessa de mostrar.

Isso me remeteu ao livro de Susan Sontag, Diante da dor dos outros. Lá reencontrei uma descrição da mesma imagem que está no filme (o que permitiu também identificar o autor). Diz Sontag sobre essa imagem:

Foto de Ron Haviv, da série "Blood and Honey" (Bijeljina, Bósnia, 1992).

Foto de Ron Haviv, da série "Blood and Honey" (Bijeljina, Bósnia, 1992).

“Narrativas podem nos levar a compreender. Fotos fazem outra coisa: nos perseguem. (…) vemos um miliciano sérvio uniformizado, um jovem com óculos escuros no alto da cabeça, um cigarro entre os dedos médio e anelar da mão esquerda levantada, um rifle que pende da mão direita,  a perna direita em posição de chutar o rosto da mulher deitada, de cara para baixo, sobre a calçada, entre dois corpos. (…) Na verdade, a foto nos revela muito pouco – exceto que a guerra é um inferno e que rapazes bonitos armados são capazes de chutar a cabeça de mulheres velhas e gordas que jazem indefesas, ou já mortas” (Sontag, Diante da dor dos outros, 2003).

A descrição de Sontag não vem acompanhada da imagem, mas quase parece comentar a sequância de fragmentos que vemos no filme. Por sua vez, Godard, que disseca a fotografia, opta por um texto descolado da imagem. Sua estratégia é a montagem num sentido primordial, que aproxima detalhes da foto, textos e um trecho da música Silouans Song (1991), de Arvo Pärt.

Imagem final de "Je vous salue, Sarajevo"

Imagem final de "Je vous salue, Sarajevo"

Em todo precurso arqueológico restam lacunas. Há uma segunda imagem que encerra o filme, sobre a qual não encontrei nenhuma referência*: uma pessoa que se curva sobre um objeto que também não conseguimos identificar, uma espécie de bloco que segura com certa tensão sobre o colo. Pouco se pode dizer sobre essa imagem. Fica apenas certa sensação de angústia, de clausura, o recolhimento de alguém que renuncia à vida. Essa imagem desaparece como um olho que se fecha.

As descobertas sobre o filme vão se encaixando. Mesmo assim, aquela cena de violência jamais fará sentido. Ela sugere que a história da cultura nos conduz a um beco sem saída. Restam a arte e a morte.

* Nos comentários a esse post, Paulo Miyada nos dá informações detalhadas sobre esta última imagem (23/05/11)

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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