A estética dos bancos de imagem

[26.abr.2011]

Esse é um recado para meus alunos, mas que vale a pena compartilhar. O trabalho final que peço a eles envolve sempre a produção de uma obra visual com técnica livre a partir um tema que varia a cada semestre. O objetivo é avaliar a capacidade que eles tem de traduzir ou construir uma reflexão por meio de imagens. É sempre uma experiência incrível. Mas, nos últimos anos, os bancos de imagem tem facilitado tanto quanto atrapalhado a nossa vida, aliás, atrapalham exatamente pelo modo como pretendem facilitar as coisas.

Há dez anos, era raro, mas quando um aluno perguntava se poderia partir de imagens prontas,  tinha em mente Duchamp, Andy Warhol, e as possibilidades de ressignificação implicadas no gesto de apropriação. Essa era a opção mais ousada e trabalhosa, significava geralmente um tanto de páginas a mais de reflexão escrita. Hoje, a pergunta se tornou mais frequente, mas parte de um princípio de economia (eufemismo para preguiça). Parte também da sensação de que tudo já está feito e disponibilizado na internet.

Os grandes bancos de imagem poderiam ser importantes fornecedores de matéria-prima para os criadores. Mas o serviço é mais completo, e aqui mora o problema: eles têm a pretensão de oferecer um catálogo de pensamentos prontos já traduzidos em imagens. E é assim que muitos, não só alunos, mas também professores, editores, jornalistas, publicitários tem a oportunidade de resolver qualquer questão com duas ou três palavras-chave nos mecanismos de busca desses serviços.

Apenas pensamentos muito elementares se prestam a esse tipo de redução, e apenas imagens estereotipadas podem garantir a legibilidade prometida. Prato cheio para palestras motivacionais, que traduzem raciocínios óbvios e conselhos moralistas em ilustrações que portam alguma dose de humor ou sentimentalismo. Vou poupar nossos olhares de ilustrações, mas acho que todos reconhecem esse tipo de imagem: são metáforas rasas, tipo “um homem com uma lâmpada na cabeça”, “um estudante numa corrida de obstáculos”, “um executivo com uma luva de boxe”, “um gadget mostrado como um canivete-suiço”, coisas assim. São imagens pobres, repetitivas, com mensagens didáticas que sempre pressupõe a idiotice do público.

Se alguém fizer questão de exemplos, pode dar uma olhada numa compilação de sessenta fotos “completamente inutilizáveis” de bancos de imagem que circulou pela internet. Esses são casos extremos do que ocorre quando se tenta arrancar a força uma forma visível de um conjunto mal articulado de “palavras-chave”. Podemos imaginar que é a descontextualização que transforma em piada imagens desse tipo. Mas a ausência de contexto é o trunfo dessas imagens, elas pretendem ser versáteis, globalizadas e genéricas.

Muitas vezes a arte almeja representar uma experiência universal numa forma particular: um retrato deseja representar um drama humano, uma paisagem deseja representar a força da natureza  Os grandes bancos, em contrapartida, substituem esse poder alegórico pela afirmação de “tipos genéricos”: o pai, a mãe, o filho, o estudante, o executivo, o chefe, a família, a equipe de trabalho, a sociedade, sempre simplificando e limpando a imagem de toda experiência. A representação se torna abrangente não porque convida à identificação com um outro, mas porque impõe um estereótipo que reduz todo mundo a uma coisa só.

A indexação das imagens por meio metadados – chaves de interpretação que podem ser traduzidas em dados quantificáveis – constituem uma ciência peculiar, com um pé na estética e outro na matemática. Sua missão nesse caso é permitir a navegação por um oceano de imagens que tende à entropia (a dissolução de toda diferença e, assim, de toda possibilidade de sentido). Mas a preguiça dá a essa ciência um papel maior do que ela deveria ter: os metadados, que deveriam ser simplificações de interpretações possíveis, passam a ditar os critérios para a produção das imagens. Como ilustrações de “palavras-chave”, essas fotografias já nascem indexadas, já nascem simplificadas. E assim, a imagem que deveria ser estética, se torna anestésica, anula a sensibilidade do olhar.

Não há novidade nesse processo, é a lógica da cultura de massa. A história da cultura moderna está invariavelmente marcada por uma tensão entre “acesso” e “massificação”. O que isso significa? Algo simples: a circulação exige padronização. Isso tem, em princípio, um sentido técnico: a expansão das redes de informação exige a escolha de um protocolo de comunicação (assim como a expansão da malha ferroviária exigia a escolha de um tipo único de bitola para os trilhos). Isso parece uma questão burocrática, que não afeta nossas experiências, nossas viagens. O problema é que a lógica da padrozinação se torna um dado da cultura: age sobre uma dimensão técnica, mas também sobre uma dimensão estética. O que circula e se expande sob esse protocolo deve fazer algum sentido para todos. A maneira corajosa de enfrentar isso é assumir o ganho que, num médio prazo, pode surgir do conflito cultural e do estranhamento. Esse é um belo aprendizado. Não temos encontrado esse tempo. A maneira mais fácil é estabelecer uma média daquilo que circula. Mas a média, infelizmente, nunca está no meio, está abaixo, espécie de mínimo denominador comum.

Este não é um discurso contra a forma de comercialização estabelecida pelos bancos de imagem, mas contra a pretensão de construir um mercado global por meio de uma linguagem visual média. A arma contra isso é justamente o pequeno banco de imagem, as cooperativas, os coletivos, os artistas independentes com seus fotologs, experiências que garantem a diversidade e o estranhamento necessários ao exercício efetivo do olhar.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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