Rodtchenko e o estranhamento

[08.nov.2010]

O Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, realiza em parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo a exposição Aleksandr Rodtchenko – revolução na fotografia. Este texto sintetiza minha apresentação no Seminário realizado na última semana, que reuniu pesquisadores, críticos e curadores para discutir a obra de Rodtchenko.

Pioneer with a Horn, 1930

Rodtchenko, 1930

Aleksandr Rodtchenko (1891–1956) foi o grande protagonista do construtivismo, movimento estético fundado por Vladimir Tátlin, em 1913, que tornou cosmopolita a arte russa, que passa a dialogar com a experiência abstrata européia que Kandisnsky iniciara em 1910. Rodtchenko foi o mais vigoroso artista da Rússia: pintor e desenhista, designer e cenógrafo, fotógrafo e cineasta. De espírito experimental e inovador versátil, seu principal interesse era a valorização da pesquisa visual e dimensional que atribuía movimento e lirismo às formas geométricas.

Para a vanguarda russa e para Rodtchenko em particular, a fotografia era evidentemente muito mais do que um simples meio de documentação, por isso mesmo ela deveria ser responsável não só pela ampliação do uso da imagem fotográfica para provocar e ampliar nossas percepções, como também revolucionar o pensamento visual. A nova realidade do mundo industrial das primeiras décadas do século XX impôs um novo ritmo para as cidades e para o homem das metrópoles, e exigiu uma nova tomada de consciência.

A incomparável criatividade de Rodtchenko deu à fotografia uma nova possibilidade de representação, pois trouxe uma nova lógica interna para a invenção formal. Em 1923, influenciado pelos trabalhos de El Lissitzky, sintonizado com László Moholy-Nagy, e impressionado com os dadaístas alemães, que combinavam algumas formas geométricas com a fotografia, ele inicia sua trajetória com a fotomontagem, pois acreditava que a geometria do Construtivismo encontraria sua necessidade espiritual e filosófica numa arte não representacional.

Rotdchenko admitiu em várias ocasiões que a fotomontagem o levou à fotografia, pois precisava fazer certas imagens para continuar a produção de seus trabalhos como artista gráfico. Seus primeiros trabalhos fotográficos marcam um retorno à abstração, mas seu principal foco de interesse foi sempre a composição. Para ele, a chave da transformação da fotografia e da arte depende do senso de composição e, para isso, baseia-se em esquemas geométricos e aponta as possíveis variantes de sua construção: ângulos insólitos, diagonais ascendentes e descendentes, linhas verticais e horizontais, círculos, bem como suas combinações, como vemos nas fotografias da exposição, em sua grande maioria apresentadas em cópias vintage. As fotografias da exposição pertencem a Moscow House of Photography, à família e coleções particulares.

Pro Eto

Rodtchenko, Capa de Pro Eto, de Maiakovski, 1923

PPP

Rodtchenko, ilustração para Pro Eto, de Maiakovski, 1923

Antes de iniciar seu percurso com a fotografia, ele desenvolveu em 1923 uma série de fotomontagens que ilustram o poema mais conhecido de Maiakovski, Pro Eto (About This), incorporando todas as premissas dos movimentos vanguardistas: o uso das formas elípticas para romper com a linguagem tradicional; a inclusão de marcas das novidades tecnológicas que pudessem capturar a velocidade e a simultaneidade dos acontecimentos da vida moderna; a relação conflituosa entre o sóbrio e o espontâneo; enfim, uma série de contrastes que traçam as evidências em oposição de um mundo em plena transformação. No texto O choque do novo, o crítico Robert Hughes afirma que este projeto representa “a mais eficaz fusão entre a arte e vida pública na vanguarda russa e foi feita por Rodtchenko com seu estilo brilhante e contundente”.

Rodtchenko acreditava que a relação homem e máquina poderia ser frutífera dependendo de como a tecnologia seria utilizada para a criatividade. Para ele, a câmera era o veículo ideal, pois era uma máquina para ver, com poder investigativo, a gramática da luz e da forma. Entendia a relação arte e técnica como uma nova unidade trazida pela modernidade e entendia a possibilidade de reprodução fotomecânica como um instrumento de arte-educação, um exemplo de como a tecnologia poderia atender a algumas das necessidades básicas de difusão do conhecimento.  Para ele, a reprodutibilidade ampliava e democratizava a experiência estética.

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Rodtchenko, Moça com uma Leica, 1934

Após os primeiros contatos com a fotografia, seu trabalho ganhou um novo senso de espaço, associado com um novo dinamismo nascido de uma nova sintaxe, caracterizada pelo ritmo do contraste geometrizado de luz e sombra, pelo corte insólito, pelos novos e inusitados ângulos de tomada, e pela força dada à composição diagonalizada. As fotografias de Rodtchenko mantém o frescor e dá relevância à vanguarda. Seu pensamento visual estava contaminado pelo desejo de mudança que movia a construção do mundo socialista. Essa nova possibilidade de expressão fotográfica rompeu com o procedimento tradicional e desarticulou os automatismos de visão, despertando o observador da mesmice visual em que estava submerso há décadas pela imposição convencional da fotografia e das artes visuais.

Rodtchenko descobre na fotografia outra possibilidade entre o realismo e a abstração. Podemos verificar que as diferentes posições assumidas pela câmera é parte integrante do novo programa desenvolvido por Rodtchenko para chocar e estranhar o olho receptivo. A partir da obra de Rodtchenko, interessa-me chamar a atenção para o conceito de estranhamento desenvolvido em 1929 pelo formalista russo Victor Chklovski (que juntamente com Roman Jakobson fundou a Escola Formalista Russa da Teoria Literária), que está presente na obra em questão à medida em que a forma apreende a realidade na sua diferença provocando o espectador que, por sua vez, se vê empenhado em buscar uma organização a partir da desconstrução da imagem fotográfica. Rodtchenko incorporou ao seu trabalho as teorias dos formalistas russos, particularmente Chklovski cujo conceito de estranhamento lhe servia de base para uma virada radical na prática fotográfica habitual.

Chklovski assume que uma das funções da Arte é desautomatizar o modo de ver o mundo, restituindo às coisas o impacto e a singularidade que despertaram quando foram vistas pela primeira vez. Para ele, a Arte deveria trazer os objetos e as situações com uma sintaxe peculiar, provocando o estranhamento. Estranhar para perturbar. Estranhar para causar incômodos; para abalar as nossas certezas; provocar reflexão; despertar novas sensações visuais. A percepção automatizada do cotidiano daria lugar a uma nova visão das formas, onde a natureza da experiência estética pede um olhar mais atento e prolongado. A fotografia se encaixava perfeitamente no programa criativo dos construtivistas russos.

Para Aaron Scharf, a fotografia, produzida pela máquina, praticada universalmente e compreendida por todos estava em sintonia com os objetivos do novo estado soviético por sua proximidade às aparências aceitáveis e sua adequada aplicação à propaganda visual instituída pelo sistema – cartazes, revistas ilustradas, livros, murais, entre outras. De todas as correntes de vanguarda animadas por idéias transformadoras, o Construtivismo desenvolvido na Rússia, foi o único que se inseriu numa realidade revolucionária concreta, e que colocou explicitamente a função social da arte como uma questão política. Como assinalou Rodtchenko: “eu gostaria de fazer fotografias que nunca fiz antes, de modo que tivessem vida e realidade, que fossem ao mesmo tempo simples e complicadas, surpreendentes e espantosas”.

Um belo catálogo acompanha a exposição que chegará a São Paulo em fevereiro de 2011, na Pinacoteca do Estado.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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