Um tempo querendo escrever algo para um post, mas venho sendo atrapalhado pela pulsão de fotografar. É curioso, a intensidade de fotografar dispersa-me da capacidade de escrever. Tem estratégias nessas duas atividades que não se combinam, não se permitem. A fotografia é mundana, ágil, externa. Deixa trancada o que é a necessária introspecção. Tem parte com ver de perto, sem muito ritmo para aquele espaço de diálogo da escrita, aquele consigo; da linguagem com o pensamento; o de conceber na medida que escolhem-se as palavras. Tenho feito fotografia no campo de histórias sociais. Pé no chão. Lembro de Mia Couto que fala, “quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz”. Fotografia que faço e que é agora. E, confesso, quando sou fotógrafo, gosto da inflexão, de um quase não pensar. Gosto de atirar, da catarse de operar o tempo, comprimi-lo em frações, detalhá-lo pelos poros das ações que se desenrolam no mundo à frente, nos lugares aos quais me jogo como fotógrafo: performance de corpo sem muito pensar. Perdi meu equipamento numa visita inesperada, nada bem-vinda, à minha casa em São Paulo. Fui roubado. Paguei o imposto por morar em uma zona privilegiada dessa cidade cercada por áreas sem direito a privilégios. Única vez que armas entraram em minha casa. Inédita vez em que lá se bateu em alguém. Mas a professora Lívia Aquino, amiga, me emprestou uma câmera e a vida voltou à uma produção intensa, diária. Esses dias fiz parte de um projeto bacana estruturado pela Magnum e pelo Instituto Moreira Salles, com apoio do Save the Dream e da ESPN, o Offside Brazil. Foram dias a fio fotografando. Na rua. O equipamento de Lívia já não é o mesmo pois se comprometeu com a rotina de fotografar. Sem mais palavras, posto então fotos feitas. Fotografias que me tiraram as ideias. Pelo menos as que conseguiria sob, escrever.
O Offside Brazil foi dividido e realizado por cinco fotógrafos da Magnum, Alex Majoli, David Alan Harvey, Susan Meiselas, Jonas Bendiksen, em companhia dos brasileiros André Vieira, Bárbara Wagner (de quem estou cada vez mais fã!), Breno Rotatori, Garapa, Mídia Ninja.
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