Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Camboja

Ola minha gente, estou Phnom Phen, no Camboja. Meu cabelo cresce a cada dia e a viagem continua maravilhosa. Aqui vai mais um blog bem corrido.

Phnom Phen

E' uma tipica cidade grande de terceiro mundo. Muita pobreza, sujeira e motocicletas por todo lado, nas ruas, calcadas, uma loucura. Atravessar as ruas e' uma aventura, seria mais seguro se nao houvesse sinais de transito, pelo menos assim voce nao confiaria em nada. As pessoas em Phnom Phen adoram apostar, vi gente apostando ate' em briga de peixes. Eles colocam um pote de vidro pequeno com dois peixinhos que ficam dando cabecadas um no outro. Nao esperei pra ver como a briga acaba. A cidade tambem chama a atencao pelo de numero de pessoas mutilidas que se veem nos lugares turisticos. Sao as vitimas das minas terrestres, depois falo sobre isso. Nao ha muitas atracoes na cidade. Ha o museu nacional, o palacio real mas o que mais gostei, como sempre, foi o mercado central, um dos mercados mais legais que ja vi. E' cheio de cores e cheio de vida. De tudo que e' vida, galinhas, peixes e outros bichos vivos. Fotografar o mercado foi bem dificil, os corredores sao estreitos e cheios de gente. Demorava pra achar aquele melhor angulo com pessoas, verduras e frutas, mas fiz o que deu.

Mercado

Phnom Phen - Museu

Phen - Palacio Real

Phnom Phen - Killing Fields

E' preciso ir visitar os campos de exterminio do Khmer Rouge, mas tudo que se ve sao covas e placas dizendo "aqui foram encontrados 213 corpos" e alguns textos com relatos de vitimas. Ha tambem uma construcao de 7 andares repletos de ossos das vitimas que foram encontradas.

Phnom Phen - Tuon Sleng

A prisao de Tuon Sleng era uma escola de segundo grau que foi transformada em prisao e onde eram feitas torturas que deixariam os nazistas com inveja. Fiquei decepcionado com os dois lugares. Ate' os lugares terem virado atracao turistica tudo bem, o problema e' que eles nao falam nada da historia do Camboja e do Khmer Vermelho, como o Pol Pot chegou ao poder e cometeu as atrocidades que cometeu. Em Tuon Sleng tambem passam um video, muito ruim. Sao entrevistas de vitimas e um cara narrando em tom de Cid Moreira, nao acrescenta nada 'a visita. Voce ja esta la, ja esta vendo os lugares e lendo como as torturas eram feitas. Podiam falar um pouco da historia pelo menos. Em Auschwitz ha uma exposicao de fotos imensa e muitos textos. Eu sai de Auschwitz com a sensaco de que havia uma mensagem, algo do tipo "que isso nao se repita". Quem vai aos Killing Fields sai de la sem saber de nada.

Prisão

Phaly Nuon

Agora tenho a honra de apresentar pra voces uma mulher que ja foi indicada ao premio Nobel da Paz, Phaly Nuon. Peguem suas caixas de lencos porque agora vou comecar a contar a historia dessa mulher iluminada. Em 1975, Phaly e sua familia foram presos pelo Khmer Vermelho. Seu marido foi para um campo de concentracao e ela ficou sem a menor ideia de onde ele estava. Ela foi enviada com os 3 filhos para um campo de trabalhos forcados. Durante uma transferencia de um campo para outro, ela foi amarrada a uma arvore e obrigada a assistir sua filha de 12 anos ser estuprada e morta por um grupo de soldados. Alguns dias mais tarde amarraram Phaly e seu bebe de 3 meses a um bambu e a colocaram em frente a um lamacal. Ela foi posta em uma posicao inclinada de modo que uma hora suas pernas se cansariam, ela cairia no lamacal e se afogaria juntamente com o bebe. Pra evitar que tudo isso acontecesse, ela mentiu, disse que havia sido amante de um oficial do Khmer Vermelho e que ele nao gostaria nada de saber que ela morreria. Nao se sabe se acreditaram na historia ou nao, mas um capitao do exercito mandou que a desamarrassem e que ela fugisse. Ela ficou escondida com seu bebe no mato por 3 anos, 4 meses e 18 dias. Sobreviveram como puderam, comendo raizes, folhas o que dava. Ate' que seus seios secaram e o bebe morreu em seus bracos. Eu falei, peguem a caixa de lencos. Um dia a guerra acabou e ela reencotrou o marido. Tudo isso que contei eu ja sabia antes de encontra-la. Marquei um encontro por telefone com a Phaly e obviamente nao fiz nenhuma pergunta sobre essa historia. O que me interessava conversar era sobre o que ela fez depois.

Phaly Nuon e eu

Ela criou um centro para tratamento de depressao para mulheres que haviam sido vitimas do Khmer Vermelho. Essas mulheres sofreram estupros, perderam suas familias e passaram por todo tipo de sofrimento. Fiquei uma manha inteira conversando com ela, ela foi extremamente doce e amavel e me contou toda a historia do seu trabalho. Tudo comecou em sua propria casa, por iniciativa dela. Ela nao tinha muito conhecimento sobre depressao mas com o tempo criou um metodo de tratamento. Esse metodo foi tendo tanto sucesso que ela abriu uma clinica. O metodo e' fantastico. Ele tem 3 fases:

Esquecimento - Atraves to tratamento com ervas e medicina tradicional do Camboja, ela acalmava as mulheres e as ensinava a meditar. No caso, ela ensinava meditacao usada no budismo. Basicamente consiste em se sentar e concentrar-se na respiracao, tentando nao se apegar a nenhum tipo de pensamento. Voce fica como um observador dos proprios pensamentos e os deixa irem embora.

Amor - Quando ela fala de amor, ela fala de amor como conhecemos no ocidente. Ela ajudava as mulheres a recuperarem a auto-estima atraves de tratamentos de beleza. Na clinica as mulheres faziam as unhas, o cabelo, aprendiam a se vestir e se cuidar, enfim, a sentirem-se bonitas. Ate' banho de vapor elas faziam.

Trabalho - A ultima etapa era ensinar algum trabalho as mulheres, qualquer que fosse. Colher arroz, costurar, cozinhar, artesanato, nao importava, o importante era que a mulher trabalhasse.

Nao e' fascinante? O mais incrivel e' que mulheres que foram tratadas por medicos ocidentais e nao tiveram resultado passaram pela Phaly e hoje estao bem. Perguntei se ela nunca teve ajuda de algum medico ocidental ou usou anti-depressivos comuns. Ela disse que conheceu por acaso um medico de Harvard que a ajudou com isso, mas que o tratamento sempre comecava com ervas. Isso tudo foi entre 1987 e 1993. Tambem perguntei porque a clinica acabou. Foi por falta de dinheiro e seguranca. A clinica foi ficando tao famosa que as mulheres comecaram a procura-la por outros problemas, como depressao pos-parto e violencia dos maridos. Ai elas iam pra clinica, os maridos iam atras e iam na base da porrada. Ate' que a clinica fechou. Hoje ela tem um orfanato, algumas das mulheres que trabalham la sao mulheres que passaram pela sua clinica. Ela me levou pra conhecer seu orfanato e me pediu pra passar um tempo falando ingles com as criancas, foi muito divertido. Uma hora ficamos brincando de adivinhar a minha idade. Me deram entre 25 e 60 anos. Tudo bem, estavam aprendendo os numeros.

Orfanato

Aula de ingles

Angkor

Tinha lido que os templos de Angkor eram templos perdidos numa selva. Fui pra la com uma bussola, lanterna, mapas e o meu chapeu do Indiana Jones que comprei na Disney. Nada disso era preciso, o lugar mais parece um parque tematico. Milhares de turistas e barracas vendendo coisas, chega a ser dificil andar por la. Ainda peguei um dia que era ano novo chines e havia bilhoes de chineses em ferias, fazer fotos foi muito complicado. Mas o lugar e' espetacular, vale a pena qualquer esforco. Ha o templo principal de Angkor Wat e dezenas de outros espalhados em uma area enorme, passei tres dias andando de moto por Angkor. Esses templos foram construidos entre os seculos 9 e 15, os mais legais sao o de Angkor Wat, Angkor Thom e Ta Prohm, esse ultimo tambem e' chamado de templo da selva.

Angkor Thom

Angkor Wat

Angkor Wat - Portao

Angkor wat -Templo

Angkor wat - Monges

Angkor wat -Musicos

Templo da Selva

As mulheres carecas de Angkor

Nunca vi nada mais misterioso do que essas mulheres carecas em Angkor. Eu as via todo dia andando em grupos, nao sabia de onde vinham ou para onde iam. De vez em quando eu encontrava uma delas dentro de uma sala em um templo acendendo incensos. Um dia decidi segui-las. Como ainda estou meio careca, achei que nao iria chamar muita atencao. Elas andavam em fila indiana segurando aqueles pauzinhos e de vez em quando paravam pra descansar. Ficavam em silencio absoluto, olhando pro horizonte. Eu ficava la, observando sem entender nada. Eu as segui por umas duas horas e desisti. Nao consegui saber o misterio das mulheres carecas de Angkor.


Siem Reap

Siem Reap e' a cidade onde ficam os templos de Angkor. Nao ha nada pra fazer. O mais legal foi sair de la de barco e passar pelo mercado flutuante, e' outro mercado sensacional. E' o congestionamento de Sao Paulo so' que num rio. O barco que faz o trajeto entre Siem Reap e Phnom Phen sempre quebra. Quebrou na ida e na volta, ficamos parados no rio por umas 3 horas em cada viagem. Nao falei com uma pessoa que tivesse feito essa viagem que nao tenha passado por isso, acho que fazem de proposito, nao e' possivel.

Siem Reap - Mercado Flutuante

Happiness is a warm gun

Pois e'. Quis dar uma de Michael Moore mas nao fui muito bem, estou ate' mencionando a musica dos Beatles que ele toca em seu documentario. O Camboja e' conhecido por ter lugares onde as pessoas vao e pagam para dar tiros com armas militares. Fui ate' um desses lugares pra ver como era, que tipo de gente vai la. Nao havia muita gente, fiquei ate' sem graca e nao sabia como sair de la sem ter que dar uns tiros. Perguntei de onde era a maioria das pessoas que vao la e me disseram que sao europeus, na maioria ingleses. Fiquei surpreso porque isso e' coisa que americano adora, mas depois pensei e faz sentido. Nos EUA voce encontra esse tipo de lugar, na Europa nao. Ha um menu de armas pra escolher, como se fosse um restaurante. Na media elas custam US$1 por bala e tem tudo que e' tipo de arma. As mais caras sao umas metralhadoras pra derrubar helicopteros, custam US$10 por bala. Ter ido la so' serviu pra confirmar que quem vive com isso so' pode ser maluco. Voces nao fazem ideia do barulho que faz uma arma daquelas, nao tem nada a ver com o que gente ouve nos filmes. Parece uma explosao, os ouvidos doem e cada tiro faz tremer o corpo todo, nao tem como ser normal vivendo com um barulho daqueles.

Museu de minas terrestres

O museu de minas terrestres e', no sentido literal, um museu de minas terrestres. E' uma casa no meio do mato onde ha apenas minas, bombas e meia duzia de relatos pessoais de vitimas. O maluco e' que la vivem algumas criancas vitimas de minas. O museu e' uma decepcao, nao fala nada sobre a historia e a situacao das minas no Camboja. Pra que voces saibam:

- Ainda hoje ha entre 100 e 300 vitimas de minas terrestres por mes;

- Uma em cada 200 pessoas no Camboja perdeu uma parte do corpo devido a minas
terrestres;

- Ainda vai levar mais 30 anos para que o Camboja fique livre desta praga.

No museu havia um americano pegando tudo que e' bomba e fazendo fotos de uma por uma. Estava claro que ele foi la por causa disso, pra ver bombas. Devia ter lhe dado umas porradas, considerando-se que o pais dele e' responsavel pelo maior numero de minas terrestres no Camboja. E os EUA tambem nao estam fazendo nada pra limpar. E mais: eles sao o unico pais que vota contra qualquer resolucao da ONU probindo o uso e fabricao de minas terrestres. Era ou nao era pra dar porrada naquele americano que fazia fotos de bombas?


(Antes que eu me esqueca, esta ultima foto das criancas andando em um campo minado nao e' minha.)

Vitimas das minas

E' isso pessoal, amanha desco o rio Mekong ate' o Vietnam, escrevo assimque tiver mais coisas pra contar,

Grande abraco!

6 Comments:

Anonymous said...

Alex depois que li seu blog percebi que apesar das diferenças...somos todos iguais.
Suas experiencias estão sendo tão especiais pq vc esta vendo tudo com os olhos do coração.

4:30 PM  
Anonymous said...

Oi Alex,
Que bacana saber que você está correndo o mundo e vivendo estas experiências todas. Muito legal!
Fiquei sabendo do seu blog através da Rosa e do Noronha, e eu mesmo estou vivendo aqui nos E.U.A., trabalho agora aqui na sede da Microsoft em Redmond (WA).
O lugar aqui é muito bonito, especialmente para quem gosta de natureza, com muitas trilhas e lugares para andar e pedalar (mas eu ainda não entrei na tribo do pedal).
Boa sorte na sua jornada.
Abraço,
Mario Biazzi

1:40 PM  
Rosa M. R. Correia said...

Oi Romero,

Tenho acompanhado de perto esta fantástica viajem, falei com o Noronha e o Saipa que quando você voltar vamos ter marcar vários chopps pra você nos contas essa perigrinação.
Um grande abraço, estamos com saudades !
Rosa Correia

2:35 PM  
Anonymous said...

Caro Alex

Quero uma garrafa daquele scotch local com a cobra. Para quem já tomou a vodka do barril (de plástico), isso deve ser um maná.

Desde já proponho uma reunião, na sua volta, regada por tal poção. Provavelmente, o grande vilão (vc sabe a quem me refiro) deve estar interessado na fórmula. E a ressaca daquilo deve gerar a seguinte frase: "meu Deus, está integrando".

Tenho acompanhado todos seus informes. Parabéns. Faço gosto. (rsss).

Saudade.

Forte abraço

Fábio, seu eterno Presidente

12:42 AM  
Lena said...

Alex, e agora? Quem vai resolver o mistério das mulheres carecas de Angkor???
Bjs
L.

3:01 PM  
Anonymous said...

Olá Alex, estava fazendo uma pesquisa na net sobre o camboja e achei seu blog, estou fazendo minha monografia sobre esse país e talvez você pudesse me ajudar e compartilhar suas experiencias.
Não sei se ainda está viajando, mas de qualquer forma vou deixar meu e-mail e messenger:
isabeladoli2@yahoo.fr/isabeladoli@hotmail.com
Fiquei encantada com as fotos...

2:25 PM  

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