Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Caminhada em torno dos Annapurnas

Amigos queridos,

Continuo aqui tentando dar a volta ao mundo sem deixar que o mundo de a volta em mim. Falando em mundo, como esta o mundo? Fiquei quase 3 semanas sem saber de nada, quem ganhou, quem perdeu, quem esta com quem, os ultimos escandalos no governo e o que aconteceu nas novelas. Mandem emails se perdi alguma coisa importante. E falando em volta, esse blog e' pra falar do meu ultimo passeio, a caminhada em volta dos Annapurnas.

Antes, algumas explicacoes... Os Annapurnas sao uma de cadeia de montanhas na parte oeste do Nepal. Na verdade ha varias cadeias nessa regiao, Dhaulagiri, Nilgiri etc. No mundo ha 14 montanhas acima de 8000 metros e 8 delas estao no Nepal. Nesse passeio e' possivel ver o Annapurna I, Dhaulagiri e Manaslu, todas acima de 8000 metros.

A caminhada consiste em dar a volta nessas montanhas, passando de um lado para o outro atraves da passagem de Thorung La a 5400 metros. "La" em tibetano quer dizer passagem, por isso falar "passagem de Thorung La" para os tibetanos e' como se um americano nos falasse "Maluf the robber". Ha varios "las" nos himalaias, sao como vales nas cordilheiras por onde e' possivel cruza-las.

O Himalaia foi formado ha muito tempo atras, muito antes dos nossos avos nascerem, quando o continente indiano colidiu com a Asia. Pra provar este fato, estou levando pro Brasil um fossil de um molusco, esses fosseis sao muito comuns pelo Himalaia. O Himalaia ja foi mar, da no coracao o medo que algum dia o mar tambem vire Himalaia.

Ha varias caminhadas conhecidas no Nepal, a "Everest Base Camp" onde se vai ate' o pe' do Everest (cerca de 5200 metros), a "Annapurna Base Camp", etc. O circuito do Annapurna (o nome conhecido por aqui e' "AC- Annapurna Circuit") e' uma caminhada dificil por causa da duracao de quase 20 dias e pela passagem de Thorung La a 5416 metros, mas tambem pela diversidade de paisagens e culturas e' a mais interessante na minha opiniao .

E' isso ai, o que eu sei eu explico e o que eu nao sei eu invento. Vamos ao passeio, dia por dia.

Primeiros 3 dias

No comeco tudo era quente, verde e dava pra tomar banho. Nao havia problemas com a altitude, comecei a 820 metros e ia parando nas vilas pelo caminho. Comecava a caminhar as 8 da manha e parava pelas 3 da tarde. Por causa das montanhas, o sol comecava a se esconder e ia ficando escuro e frio cedo.

Inicio








Vila de Dharapani


Vila de Tal

Quarto e quinto dias

Comecava a esfriar. Parei nas vilas de Chame (2600 m) e Pisang (3100 m). A partir dai, as vilas tem um estilo tibetano e sao todas budistas. Ainda era possivel tomar banho.

Quarto dia - Caminho para Chame


Vila de Chame




Vista do Annapurna


Quinto dia - Caminho para Pisang






Pisang


Gompa em Pisang


Cozinheira em Pisang

Sexto e setimo dias - Manang

Manang e' onde o bicho comeca a pegar. A vila fica a 3500 metros e ja da pra sentir problemas com a altitude. La Paz, onde a selecao brasileira sempre perde fica a 3510 metros. Pra se adaptar a altitude, os "trekkers" (se alguem achar um traducao pra trekkers me ajudem, achei que caminhantes ou andarilhos nao soa muito bem) ficam pelo menos 2 dias. Eles vao se agrupando e a caminhada vai ficando muito legal. Adorei as pessoas que conheci, ficavamos jogando xadrez, gamao e tomando cha. Representei o Brasil no xadrez muito bem e sai invicto. Ao contrario da selecao, a altitude nao me atrapalhou nem um pouco.

Sexto dia - Caminho para Manang




Caminho para Manang - Vila de Ngawal




Vila de Braga


Vila de Ghyaru


Chegada a Manag

Nao parece, mas a vila de Manag tem uma estrutura muito boa, da pra assistir dvds e comer bolo de chocolate. Pra entar no clima, assisti "sete anos no Tibet" e um filme chamado "into thin air" sobre a tragedia de 1999 no Everest onde morreram 6 pessoas em uma expedicao. Tem tambem um posto medico formado por voluntarios canadenses que dao palestras sobre a altitude e socorrem as pessoas com problemas. Tem pista de pouso para helicoptero e vi um resgate sendo feito. Ah sim, um resgate de helicoptero custa US 700. Se voce fizer tudo como manda o figurino, as chances de AMS (altitude mountain sickness) sao poucas, quem tem problema em geral e' porque tenta forcar e ir alem do que e' possivel. Quando ha algum sintoma, o melhor e' dormir na mesma altitude ate' se sentir melhor. No meu caso, toda cidade que eu chegava acima de 3500 metros eu sentia dor de cabeca mas ela desaparecia em algumas horas. Na primeira noite em Manang eu tive medo, acordei porque nao estava respirando. Na verdade o corpo ajusta a frequencia respiratoria por que ha menos oxigenio. Durante o sono esse processo e' meio maluco, voce respira rapido por alguns segundos, dai a pouco a respiracao da uma parada e volta depois. Pode ser normal, mas nao consegui dormir nas duas primeiras noites.

Setimo dia - Manang




Manang - Lago Gangapurna

A partir de Manang, comecam a aparecer os yaks. Tentei me aproximar, pra sentir como era o pelo deles e fazer um carinho, mas os yaks sao muito ariscos, fogem quando voce chega perto. A noite eu entendi porque, todo mundo estava comendo file' de yak. Os trekkers comem os yaks, somem e nem sequer dao um telefonema. Nao e' a toa que os pobres animaizinhos tem medo.

Olha ai a foto de um restaurante do yak donalds:



Eu mesmo nao resisti e comi um file e hamburger de yak deliciosos. So' que eu pelo menos tive a sensibilidade de telefonar pro yak no dia seguinte.

Eu e os yaks

Oitavo dia - Khangsar

Fui para Khangsar porque queria ir para o lago Chilicho. "Cho" em tibetano quer dizer lago, por isso falar "lago Chilicho" para os tibetanos soa para eles como soaria para nos se um frances falasse "Maluf le voleur". Khangsar fica no meio do nada, fora do circuito do Annapurna e tem todo o conforto que se pode encontrar em uma vila que esta no meio do nada. Foi o primeiro dia sem tomar banho, estava frio demais e a noite ficava na cozinha porque era o unico lugar quente que havia.

Ainda levaria mais dois dias para chegar no lago Chilicho, no dia seguinte nevou e nao possivel continuar. A trilha e' muito estreita, cheia de pedras e numa montanha muito alta e inclinada. Sem neve ja seria perigoso, com a neve fui desaconselhado por todos os nepaleses a nao ir. Com a neve, as pedras ficam cobertas e se acontecer de escorregar dali o melhor que pode acontecer e' ser achado como um fossil depois de 2000 anos e ser colocado num museu. Desisti da ideia e felizmente existia uma trilha para Yak Kharka, de volta ao circuito do Annapurna.

Caminho para Khangsar


Khangsar




Khangsar - Eu na cozinha esfumacada


Nono dia - Yak Kharka

Yak Kharka fica a 4100 m. So' que em quase nenhum dia de caminhada e' possivel fazer so' subidas, isso seria facil. As trilhas sobem montanhas so' pra descer do outro lado e ter que subir tudo de novo depois, e' muito cansativo.

Khangsar depois da neve


Caminho para Yak Kharka






Yak Kharka


Decimo dia - Thorung Phedi

Phedi quer dizer pe', e e' exatamente isso, o "pe' de Thorung La". E' a ultima parada antes da passagem e alem do efeito da altitude, eu senti tambem o efeito da ansiedade, sem saber se o que sentia era por uma razao ou por outra. Nesse dia nem tirei a roupa pra dormir. Sempre dormia com uma garrafa d'agua do lado e quando acordei havia pedacos de gelo dentro dela. Era como se dormisse num freezer.

Caminho para Thorung Phedi




Thorung Phedi




Thorung Phedi - O inicio da subida para Thorung La


Decimo primeiro dia - O GRANDE DIA!!!

Eram 4h30m da manha em Thorung Phedi, 21h no Brasil. Fiquei pensando no que vcs estariam fazendo. Enquanto vcs iam ao cinema, comiam pizza ou assitiam a novela, eu saia da cama para tomar cafe' da manha e comecar a travessia. Comecei as 5h15m, ainda escuro. A razao de comecar tao cedo e' porque depois das 10h comeca a ventar e fica dificil caminhar, alem de perigoso por causa do frio. A temperatura era de -12 graus sem vento, imaginem isso com o vento. Sai com 3 litros d'agua e duas barras de chocolate, deveria ficar cerca de 8 horas sem comer nada e ficar todo esse tempo exposto aquele frio. O chocolate nem adiantou levar, nao dava pra comer, estava uma pedra. As garrafas d'agua congelando e a sensacao era do ar acabando. A 5000m, o nivel de oxigenio e' cerca de 50% do nivel do mar, a cada 5 passos parecia que tinha corrido a maratona. Mas como me disseram, vai colocando um pe' depois do outro que voce chega. E cheguei na passagem em 3 horas, o tempo estimado e' de 4 a 5 horas, de novo representei o Brasil muito bem. Vou mencionar esse fato no meu curriculum quando for procurar emprego. E' preciso determinacao, forca de vontade, masoquismo, enfim, qualidades que as empresas procuram nos seu funcionarios.

Sol nascendo a caminho de Thorung La


Caminho para Thorung La


Enfin, Thorung La!


Thorung La


Depois da gloriosa passagem, comecei a interminavel descida pra Muktinath. Foram 3,5 horas de frio, vento e dor no joelho, alem de ter que descer uma parte de bunda na neve. Vinha seguindo a trilha ate' que chegou uma parte estreita e cheia de gelo. Fui seguindo os carregadores nepaleses que achei que sabiam o que estavam fazendo, ate' que um deles quase escorrega e cai. Ele ainda teve reflexo de se livrar da carga e joga-la la pra baixo. Nao era alto a ponto de morrer se caisse, mas ia dar pra machucar bastante. O jeito pra nao cair foi me sentar e escorregar pela neve.

Descida para Muktinath


Vale de Muktinath


Chegada em Muktinath

Decimo segundo dia - Kagbeni

Kagbeni e' uma vila muito interessante que fica na entrada do reino proibido de Mustang. Mustang e' uma parte restrita do Nepal que tem um rei proprio, pra ir pra la e' preciso permissao do governo e custa US 100 por dia. Dizem que isso e' pra proteger a cultura tibetana e budista da regiao.

Caminho para Kagbeni






Kagbeni






Monasterio em Kagbeni


Entrada para o reino proibido de Mustang


Reino proibido de Mustang


Vila de Jharkot


Ultimos dias

Os ultimos dias foram so' descida, exceto o penultimo onde acordei as 5 da manha e subi a 3200 m para ver o sol nascer de Poon Hill. Um dia antes fui assaltado por dois guerrilheiros maoistas. Vinha pela trilha, com dois amigos americanos logo a frente, Kyle e seu irmao. Quando vejo os dois estao parados com dois baixinhos de metralhadora na mao, um deles ainda com uma granada pendurada no corpo. Pensei, vou entrar rasgando e acabar com esses maoistas, eles nao tinham mais que 1m60 cada um. Nao fossem as metralhadoras, ia dar tanta porrada nos caras ate' que eles pedissem um Big Mac do McDonals, nao do Yak Donalds. Mas nao teve jeito, nao dava pra voltar e cada um de nos teve que dar US 15. Ainda nos deram um recibo pra provar que cointribuimos com os maoistas. Vou mostra-lo pra vcs no Brasil. O recibo serve para que vc nao seja assaltado de novo caso um maoista o pare. Serve tambem para que vc seja preso nos EUA caso vc seja revistado no aeroporto e encontrem um recibo de pagamento para uma organizacao terrorista. E nao e' que no dia seguinte ao descer de Poon Hill o baixinho estava la pra me assaltar de novo? Mostrei o recibo e funcionou, ja pensaram nessa ideia em Sao Paulo?!

Decimo terceiro dia - Caminho para Marpha


Marpha





Decimo quarto dia - Caminho para Ghasa




Vila de Tukuche


Decimo quinto dia - Tatopani


Decimo setimo dia - Sol nascendo em Poon Hill - Dhalaugir


Sol nascendo em Poon Hill 2 - Annapurna Sul


Decimo oitavo dia - Caminho para Nyapur






Nas fotos dos amigos estao Matt e Ian, da Inglaterra. Ian e' um grande colecionador e conhecedor de musica, me pediu um cd dos mutantes, imaginem so'.



Na outra foto estao Karen, a lovely girl from South Africa and Kyle, a nice guy and professional trekker from Colorado USA. Eles sao muito legais e ja viram este nosso site.



Depois desses dias de privacoes e sofrimento, so' penso em cometer atos de completa luxuria em Sao Paulo como ficar deitado no sofa ouvindo musica, assistir dvd comendo pipoca ou pedir uma pizza pelo telefone. Mas ainda ha um longo caminho para isso e se o mundo for redondo mesmo, uma hora eu chego ai do outro lado.


3 Comments:

Claudia & Larry said...

So um email rapidinho pra dizer um oi e contar como eu estou curtindo ler o seu blog e saber das suas aventuras. Nao vejo a hora de voce chegar nesta parte da viagem. O bebe esta crescendo super rapido e mais dois meses e meio ou tres ele esta aqui. Em tempo pra conhecer o tio Alex!!!
Grande beijo e muitas saudades,

Claudia

8:48 PM  
Lena said...

Quando vc falou em luxúria, eu pensei em luxúria. Essa viagem está mudando a sua cabeça... ;-)
Bjs

1:18 PM  
Cris said...

Oi, Alex

Nossa vida anda muito parecida com a sua. Dezembro traz consigo aquele monte de carros em São Paulo e a falta de ar é parecida. Pra entrar no shopping também temos de dar voltas e mais voltas, subindo e descendo no estacionamento. A miséria eu nem preciso lembrar . Acho que vc saiu lucrando pela paisagem. Beijocas.

12:48 PM  

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