Segunda-feira, Outubro 25, 2004

India - Região de Kinnaur

De Shimla fui pra regiao de Kinnaur na parte indiana do Himalaia. Essa e' uma regiao muito bonita, cheia de vilas, templos e culturas diferentes. As religioes sao hinduismo e budismo e ate' mesmo uma mistura das duas, mas deve haver uns 50 dialetos diferentes numa area de uns 200 quilometros quadrados. Ha os kinnauris, que falam kinnaur, os lahaulis que falam lahaul, na cidade de Kullu se fala kulavi, na cidade de mandi se fala Mandiali e por ai vai. Nao tinha ideia que havia tantos idiomas aqui.

Foi uma viagem muito cansativa e perigosa. Um trecho de 130 km eu fazia em 6 horas. Preferi ir de carro a ir de onibus, depois que vi os onibus na India achei melhor nao arriscar. A estrada e' maravilhosa, ou melhor dizendo, a estrada e' horrorosa e a paisagem e' maravilhosa, e' uma viagem pra se fazer uma vez e agradecer a Deus por voltar vivo.

Estrada para Kinnaur


Vilarejo de Kalpa


Imaginem que dias atras caiu um onibus no rio, na cidade de Sangla. A estrada e' um corte nas montanhas onde existe trafego nos dois sentidos. Alem disso, ainda há o risco de uma pedra cair da montanha em cima de voce. Ou voce chegar em uma cidade, acontecer um deslizamento ou nevar e voce ficar dias isolado em uma cidade sem agua quente pra tomar banho, a uma temperatura de -5 graus.

Sangla


A primeira parada foi em Sarahan, la sao Kinnauris e existe um templo chamado Bhima-Khali onde eram feitos sacrificios humanos ate os ingleses pararem com isso. De Sarahan fui para a metropole de Sangla, onde o que vale mais e' a viagem em si. Ali perto tem a vila de Chitkul, outra regiao lindissima.

Sarahan - Templo Bhima-Khali




Chitkul


Se ate' ali estava dificil, depois ficou uma aventura. As proximas paradas seriam em duas vilas budistas perto da fronteira com a China, Nako e Tabo. Infelizmente nao consegui chegar a Tabo por causa da neve, mas chegar e voltar de Nako ja foi um grande feito. Primeiro, parei em Jangi pra mostrar meu passaporte e a permissao do exercito indiano pra seguir viagem. Essa e' uma regiao de disputa com a China e, se depender dos nomes das vilas, acho que os chineses devem ter alguma razão, Jangi, Wang Too, Nako, esses nomes nao parecem indianos, mas nao sei qual e' a historia e razao da briga.

Jangi


Logo a frente, um sadu me parou pra me pintar a testa e desejar que Deus me protegesse pois a estrada seria muito perigosa a frente (o cara falava ingles!). Ele nao quis nenhum tipo de doacao, ele vive ali so' pra fazer isso. Sadu quer dizer "homem santo" e em geral eles sao muito respeitados na India, mas ha sadus que roubam pessoas tambem.

Sadu que me pintou


Os sadus sao ascetas, renunciam ao mundo material e apenas vivem dedicados a divindade que escolhem. Alguns sadus sao iogues e a maioria fuma maconha. Isso e' uma coisa que me surpreendeu aqui. Existe muita maconha na India mas mesmo assim ela e' ilegal, exceto para os sadus. Olha ai, se voce conhece alguem que virou rastafari por causa disso saiba que existe outra religiao em que se pode fumar maconha sem problemas. Sobre a marca na testa, isso tambem e' muito interessante.

Sadus


Caminho para Nako






Nao sei se da pra ver nas fotos em que eu apareco, mas existe um ponto vermelho entre as sombrancelhas. Essa marca e' usada para protecao divina e representa a terceira visao ou o "olho que tudo ve".

A caminho de Nako


Detalhe


A origem disso e' que Shiva tem um terceiro olho que representa o conhecimento espiritual e anula o mal. Tambem aprendi outra coisa sobre o hinduismo aqui. Das 3 divindades principais, Shiva e' o destruidor. Brahma e' o criador e Vishnu o mantenedor. Agora o que nao sabia e' que as pessoas escolhem uma divindade pra seguir. Assim quando um hindu diz que esta rezando pra Deus, ele esta rezando para o Deus que decidiu seguir e Shiva e' de longe o mais popular. Isso porque ele e' o mais poderoso e protege as pessoas do mal e do sofrimento. Na verdade o erro esta em dizer que Shiva e' o destruidor, o papel de Shiva e' dissolver o universo para que ele possa ser recriado e isso acontece em ciclos.

Sei la se foi a terceira visao ou nao mas o fato e' que depois de rezar pra tudo que e' santo cheguei a tal vila budista de Nako. La nao havia eletricidade e nem agua, o que nao fez muita diferenca porque tomar banho num lugar que faz -5 graus sem aquecimento nao ia rolar mesmo.
Nako






E imaginem que vi outra festa de casamento! Era um casamento arranjado entre um homem de uns 50 anos e 2 filhos com uma mulher mais ou menos na mesma situacao. Tentei entender a todo custo porque o casamento era arranjado, mas nao consegui.

Festa de casamento


O que me disseram e' que existe uma certa liberdade sexual na vila e ao mesmo tempo as pessoas sao prometidas a casar com alguem depois de um tempo. Sobre a festa, se voces acham que o que aquelas velhinhas estao levando naquelas garrafinhas e' algum tipo de agua benta, erraram. E' birita mesmo, havia um cheiro bravo de cana que dava pra sentir de longe, bando de budistas manguaceiros. Deixa o Dalai Lama saber disso. E ele vai saber, porque daqui a uns dias vou pra Dharamsala, onde ele vive.

1 Comments:

Lena said...

Alex, tô aprendendo cada coisa com vc! Se alguém for pego fumando maconha pela polícia daqui será que dizer que é sadu vai colar???!!! E essa dos budistas manguaceiros????!!! Cada descoberta sua... Mas a melhor continua sendo a letra do Karnac em hieróglifos.
Bjs cheios de saudades.
Lena

10:34 PM  

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