{"id":953,"date":"2010-08-02T15:19:49","date_gmt":"2010-08-02T15:19:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=953"},"modified":"2016-05-28T13:50:47","modified_gmt":"2016-05-28T13:50:47","slug":"imagem-memoria-e-coerencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/imagem-memoria-e-coerencia\/","title":{"rendered":"Imagem, mem\u00f3ria e coer\u00eancia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_980\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/dzi-croquettes-121.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-980\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-980\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/dzi-croquettes-12-280x408.jpg\" alt=\"Dzi Croquettes\" width=\"280\" height=\"408\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-980\" class=\"wp-caption-text\">Dzi Croquettes<\/p><\/div>\n<p>Esta semana assisti a dois document\u00e1rios: <em>Dzi Croquettes<\/em> e <em>Uma noite em 67<\/em>. Para mim, uma experi\u00eancia visceral, pois participei ativamente desses dois momentos hist\u00f3ricos. Hist\u00f3ricos? Sim, pensei muito para assumir isto, mas \u00e9 inevit\u00e1vel perceber que o tempo passou. <em>Uma noite em 67<\/em>, centra-se no Festival de M\u00fasica da TV Record de 1967, num momento em que Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Roberto Carlos e Sergio Ricardo disputavam o pr\u00eamio de melhor m\u00fasica do festival. J\u00e1 <em>Dzi Croquettes<\/em> revela como este grupo de 13 homens a partir de 1973 perturbou n\u00e3o s\u00f3 a ditadura, mas incluiu e trouxe a discuss\u00e3o da contracultura para o Brasil ao colocar em cheque as cren\u00e7as consolidadas sobre fam\u00edlia, sexualidade, religiosidade e pol\u00edtica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLF1562C3837619014\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mas, o que basicamente me interessa discutir \u00e9 a import\u00e2ncia das imagens t\u00e9cnicas para a recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e sua for\u00e7a inquestion\u00e1vel enquanto documento hist\u00f3rico. Os document\u00e1rios assistidos ganham em expressividade gra\u00e7as \u00e0s essas imagens gravadas pela fotografia, pelo cinema e pela televis\u00e3o. N\u00e3o fossem esses registros que ficaram arquivados durante d\u00e9cadas, as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam experimentar o frescor libert\u00e1rio desses dois momentos significativos para a hist\u00f3ria recente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em seu famoso <em>On Photography,<\/em> Susan Sontag escreveu que \u201ca fotografia \u00e9 a guinada essencial na hist\u00f3ria da percep\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil imaginar um mundo sem imagens, elas ficaram cada vez mais essenciais\u201d. As \u00faltimas experi\u00eancias do cinema documental, particularmente no Brasil, est\u00e3o centradas em imagens de arquivo, de toda ordem, e tem nos brindado com momentos de \u00eaxtase ao reavivar e resignificar informa\u00e7\u00f5es que ficaram esquecidas durante longos anos. Isso mostra que estamos procurando o passado para entender melhor o presente.<\/p>\n<div id=\"attachment_998\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Dzi-Croquettes-21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-998\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-998\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Dzi-Croquettes-2-280x158.jpg\" alt=\"Dzi Croquettes\" width=\"280\" height=\"158\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-998\" class=\"wp-caption-text\">Dzi Croquettes<\/p><\/div>\n<p>As imagens dos document\u00e1rios acima citados foram resgatadas da televis\u00e3o, do cinema e da fotografia. Para lembrar alguns fot\u00f3grafos podemos citar Madalena Schwartz (<em>Dzi Croquettes<\/em>), David Zingg, Jean Solari, entre outros que registraram os movimentos da MBP do per\u00edodo. \u00c9 incr\u00edvel como estas imagens est\u00e3o indissoluvelmente associadas \u00e0 nossa vida cotidiana, e \u00e9 isso que nos possibilita compreend\u00ea-las como instrumentos de conhecimento e de liberta\u00e7\u00e3o. Quando as vemos hoje, com admira\u00e7\u00e3o e certo fasc\u00ednio, algumas quest\u00f5es merecem reflex\u00e3o. Afinal, o registro e a conserva\u00e7\u00e3o desse material, seja pelas empresas ou pelos artistas, representam a necessidade que temos de preservar nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Vil\u00e9m Flusser defende a id\u00e9ia que n\u00f3s humanos, criamos a comunica\u00e7\u00e3o porque somos o \u00fanico animal que tem consci\u00eancia da morte e tamb\u00e9m porque sabendo disso, para evitarmos a solid\u00e3o, criamos artif\u00edcios que ajudam a prolongar nossa exist\u00eancia na vida dos outros. Ou seja, a comunica\u00e7\u00e3o humana \u00e9 um processo artificial e as m\u00e1quinas semi\u00f3ticas (de produ\u00e7\u00e3o s\u00edgnica) s\u00e3o respons\u00e1veis pelas imagens que gravamos cotidianamente para em algum momento, por exemplo para quando quisermos olhar o que fomos. Basta recuperar o que foi registrado. Lembro-me de uma fala intuitiva do grande fot\u00f3grafo Jos\u00e9 Medeiros: \u201co que vemos \u00e9 o que somos; e o que somos \u00e9 aquilo que vemos\u201d.<\/p>\n<p>Mas quando se trata de resgatar um per\u00edodo de intoler\u00e2ncia pol\u00edtica, um momento em que o Brasil vivia uma ditadura militar sem precedentes em nossa hist\u00f3ria, fica mais dif\u00edcil encontrar dispon\u00edvel algum material de relev\u00e2ncia est\u00e9tica e pol\u00edtica para as novas gera\u00e7\u00f5es. O que podemos ver nos document\u00e1rios e nas suas granuladas imagens hist\u00f3ricas projetadas na tela do cinema \u00e9 que aquelas informa\u00e7\u00f5es arquivadas e guardadas estavam dispon\u00edveis na esperan\u00e7a de que algu\u00e9m pudesse, a qualquer momento, reorganiz\u00e1-las numa nova informa\u00e7\u00e3o. Para evitar seu esquecimento, aparecem de tempos em tempos esses novos olhares que trazem novas sintaxes que, ao serem compartilhadas publicamente, recuperam sua import\u00e2ncia e sua pot\u00eancia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na verdade, podemos inferir que a hist\u00f3ria vista por imagens \u00e9 mais amig\u00e1vel para o conhecimento. \u00c9 exatamente essa id\u00e9ia que Flusser defendia h\u00e1 mais de trinta anos quando afirmava que nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 das imagens, denominada por ele como p\u00f3s-hist\u00f3rica. No caso dos document\u00e1rios, os arquivos das imagens resignificados permitem emergir uma consci\u00eancia hist\u00f3rica e cr\u00edtica. Com ela, aqueles acontecimentos tornaram poss\u00edvel reativar a mem\u00f3ria de alguns e informar gera\u00e7\u00f5es que sequer imaginavam a quantidade e a qualidade dos detalhes da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A \u00e9tica da civiliza\u00e7\u00e3o exige a \u00e1rdua tarefa de preservar a mem\u00f3ria, que para alguns sempre pode parecer desconfort\u00e1vel. Uma coisa \u00e9 reverenciar despudoradamente a mem\u00f3ria, outra coisa \u00e9 sua viv\u00eancia e sua politiza\u00e7\u00e3o. Talvez hoje o verdadeiro problema da civiliza\u00e7\u00e3o seja a responsabilidade da preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, que contrariamente quer viver esquecendo, como ordena a m\u00eddia e os apelos da contemporaneidade. Mas, como escreveu Luis Bu\u00f1uel em seu livro <em>Meu \u00daltimo Suspiro<\/em>, \u201cuma vida sem mem\u00f3ria n\u00e3o seria uma vida, assim como uma intelig\u00eancia sem possibilidade de exprimir-se n\u00e3o seria uma intelig\u00eancia. Nossa mem\u00f3ria \u00e9 nossa coer\u00eancia, nossa raz\u00e3o, nossa a\u00e7\u00e3o, nosso sentimento. Sem ela, n\u00e3o somos nada.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos hoje como trataremos os gigantescos arquivos de imagens que estamos selecionando e produzindo. O exerc\u00edcio de voltar para nossas imagens \u00e9 mais ligeiro e menos freq\u00fcente que antes, mas o mais importante \u00e9 olharmos para frente com a certeza de que nosso tempo est\u00e1 gravado e de que nosso futuro estar\u00e1 garantido por aquilo que produzimos.<\/p>\n<p>\u201cUma arte que tem vida n\u00e3o reproduz o passado; ela d\u00e1 continuidade a eles\u201d \u2013 Rodin.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana assisti a dois document\u00e1rios: Dzi Croquettes e Uma noite em 67. Para mim, uma experi\u00eancia visceral, pois participei ativamente desses dois momentos hist\u00f3ricos. Hist\u00f3ricos? 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