{"id":9458,"date":"2016-04-26T11:46:28","date_gmt":"2016-04-26T11:46:28","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=9458"},"modified":"2017-03-01T12:34:38","modified_gmt":"2017-03-01T12:34:38","slug":"caio-prado-jr-fotografo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/caio-prado-jr-fotografo\/","title":{"rendered":"Caio Prado Jr. fot\u00f3grafo"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente tive acesso ao livro <em>Caio Prado Jr \u2013 o legado de um saber-fazer hist\u00f3rico<\/em>, editado em 2013 pela Hucitec e organizado por Antonio Gilberto R. Nogueira e Adelaide Gon\u00e7alves, ambos professores do Departamento de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Cear\u00e1. A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de 7 ensaios e uma preciosa cronologia. O ensaio que chamou minha aten\u00e7\u00e3o \u00e9 assinado pelo Antonio Gilberto R. Nogueira, denominado \u201cO Nordeste em diapositivo: o viajante, o fot\u00f3grafo e a escrita da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_9461\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9461\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-9461\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0003-674x693.jpg\" alt=\"Scan0003\" width=\"500\" height=\"514\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0003-674x693.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0003-360x370.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0003.jpg 747w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-9461\" class=\"wp-caption-text\">Caio Prado Jr., &#8220;Viagem ao Nordeste&#8221;, 1955<\/p><\/div>\n<p>Antonio Gilberto torna p\u00fablico, pela primeira vez, uma s\u00e9rie de 78 fotografias selecionadas a partir de um conjunto composto por 150 diapositivos ordenados numa caixa de metal nomeado de viagem ao Nordeste, 1955. Os slides est\u00e3o cuidadosamente montados em um frame de alum\u00ednio protegido por uma pequena l\u00e2mina de vidro e adquiriram um tom azulado esmaecido ap\u00f3s mais de 60 anos. A caixa de metal traz tamb\u00e9m uma ficha, com cada diapositivo numerado evidenciando o percurso percorrido e o roteiro sugerido por Caio Prado Jr. para que tenhamos a exata no\u00e7\u00e3o do seu itiner\u00e1rio, atrav\u00e9s das paisagens rurais, urbanas e dos retratos das pessoas que habitam a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante lembrar que na primeira metade do s\u00e9culo XX, com a compacta\u00e7\u00e3o e barateamento das c\u00e2meras e a consequente democratiza\u00e7\u00e3o do fazer fotogr\u00e1fico, in\u00fameros profissionais liberais e alguns intelectuais se aventuraram a produzir fotografias. Particularmente em S\u00e3o Paulo, parte dos profissionais liberais se agrupou em torno do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), inaugurado em 1939. Outra parte expressiva se desenvolveu na fotografia amadora, respons\u00e1vel por uma enorme quantidade de imagens realizadas em suas viagens e nos encontros familiares. E, finalmente, um pequeno grupo de professores e intelectuais que produziu fotografias que foram em parte utilizadas em suas pesquisas e outras respons\u00e1veis pelos seus experimentos pessoais.<\/p>\n<p>Vemos que a fotografia cumpriu um papel fundamental ao estimular indistintamente, pessoas de origens diversas que deixaram registros vari\u00e1veis sobre os seus diferentes cotidianos. Ao nos depararmos com um conjunto de fotografias antigas imediatamente operamos por associa\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de que estamos diante de documentos, seja pela quantidade de informa\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias de \u00e9poca, seja pela possibilidade veross\u00edmil que elas adquiriram com o tempo passado.<\/p>\n<p>Conhecer agora as fotografias das viagens de estudos de Caio Prado Jr. (1907 \u2013 1990) \u00e9 constatar que as imagens trazem uma narrativa que revela n\u00e3o apenas o olhar do pesquisador mas, acima de tudo, o quanto a fotografia foi determinante para registrar alguns aspectos de nossa cultura e de nossa identidade. E tamb\u00e9m verificamos que ele n\u00e3o estava sozinho nessa jornada, pois j\u00e1 \u00e9 do conhecimento p\u00fablico os trabalhos fotogr\u00e1ficos dos escritores Mario de Andrade e Monteiro Lobato, do antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, do engenheiro Manoel Rodrigues Ferreira (um dos primeiros a fotografar a \u201cFerrovia do Diabo\u201d e tornar p\u00fablico o trabalho do fot\u00f3grafo norte-americano Dana Merrill, por d\u00e9cadas totalmente esquecido), do arquiteto Gregory Warchavchik, entre outros.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico de Caio Prado Jr. tomamos conhecimento de que ele utilizava a fotografia como um instrumento indispens\u00e1vel para elaborar seu m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o e sistematiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es recolhidas, incluindo, claro, os valorosos relatos orais anotados durante a viagem ao Nordeste, em 1955. Neste conjunto de 150 slides, rigorosamente identificados, h\u00e1 uma narrativa descritiva que n\u00e3o apenas evidencia as especificidades regionais, como tamb\u00e9m traz o percurso da sua viagem de estudos \u2013 Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Para\u00edba, Cear\u00e1 e Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>O pesquisador Antonio Gilberto selecionou 78 imagens in\u00e9ditas para tornar p\u00fablica a imers\u00e3o de Caio Prado Jr. no universo da fotografia. Essa necessidade de registrar visualmente suas pesquisas, segundo o autor do ensaio, foram estimuladas a partir da segunda metade dos anos 1930, ocasi\u00e3o em que as excurs\u00f5es de campo \u201cabriram as perspectivas para a constru\u00e7\u00e3o de um conhecimento em que as viagens e as fotografias tornaram-se importantes ferramentas na apreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o meio geogr\u00e1fico e modos de vida\u201d.<\/p>\n<p>Caio Prado Jr. construiu uma obra consistente ao longo da vida. Seus estudos tiveram in\u00edcio na Faculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco entre 1924 e 1928, numa d\u00e9cada em que S\u00e3o Paulo passou pela <em>Semana de Arte Moderna<\/em> (1922) e pela <em>Revolta Paulista de 1924<\/em>, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes. Tamb\u00e9m cursou Geografia e Hist\u00f3ria e fundou a Associa\u00e7\u00e3o dos Ge\u00f3grafos Brasileiros. Em 1942 publicou o cl\u00e1ssico livro <em>Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo<\/em>, que ao lado de <em>Casa-Grande e Senzala<\/em>, de Gilberto Freire, e <em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda, comp\u00f5e a tr\u00edade anal\u00edtica de leitura obrigat\u00f3ria para conhecer o funcionamento das estruturas sociais do Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_9463\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9463\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-9463\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0004-674x621.jpg\" alt=\"Scan0004\" width=\"500\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0004-674x621.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0004-360x332.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0004-768x708.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0004.jpg 833w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-9463\" class=\"wp-caption-text\">Caio Prado Jr., &#8220;Viagem ao Nordeste&#8221;, 1955<\/p><\/div>\n<p>O que \u00e9 interessante em suas imagens \u00e9 verificar o quanto elas representam e legitimam as inten\u00e7\u00f5es do pesquisador e o quanto elas s\u00e3o evid\u00eancias testemunhais de um processo investigativo que busca, atrav\u00e9s das fotografias, apoiar e enfatizar suas preocupa\u00e7\u00f5es com o patrim\u00f4nio cultural brasileiro. Nesta viagem teve a companhia de sua segunda mulher, Helena Maria Nioac (Nena) e de seu fusquinha azul, carinhosamente apelidado de \u201cperereca\u201d. A viagem, notadamente privada, \u00e9 para Antonio Gilberto \u201cmais um vest\u00edgio de como o privado e o p\u00fablico se fundem em sua obsessiva busca por apreender a experi\u00eancia hist\u00f3rica nacional\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_9468\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9468\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-9468\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0002-1-674x662.jpg\" alt=\"Scan0002\" width=\"500\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0002-1-674x662.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0002-1-360x354.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0002-1.jpg 761w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-9468\" class=\"wp-caption-text\">Caio Prado Jr., &#8220;Viagem ao Nordeste&#8221;, Olinda Mocambos, 1955<\/p><\/div>\n<p>Raramente encontramos em suas fotografias o apuro est\u00e9tico dos modernistas do FCCB, mas invariavelmente nos deparamos com uma imagem bem enquadrada, quase sempre com algum equil\u00edbrio entre as linhas e os volumes, acentuando seu car\u00e1ter denotativo e uma precis\u00e3o nos dados de ordem antropol\u00f3gica. Na imagem denominada \u201cOlinda mocambos\u201d, percebemos um conjunto de habita\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica daquela regi\u00e3o, inserido numa paisagem tipicamente tropical. Os mocambos enquadrados da esquerda para a direita insinuam diagonal ascendente que obriga nosso olhar percorrer a imagem nessa mesma dire\u00e7\u00e3o imposta pelo fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-9462\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0001-674x738.jpg\" alt=\"Scan0001\" width=\"500\" height=\"548\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0001-674x738.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0001-360x394.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Scan0001.jpg 701w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Em seu autorretrato acima publicado vemos sua op\u00e7\u00e3o pelo pequeno formato, o mesmo dos diapositivos. Para Caio Prado Jr. a fotografia foi um instrumento de registro e documenta\u00e7\u00e3o para ampliar suas pesquisas nas ci\u00eancias humanas. Como escreveu Andr\u00e9 Rouill\u00e9 a respeito de uma expectativa em torno dessas imagens, \u201ca fotografia vai contribuir para modernizar o conhecimento; em particular, o saber cient\u00edfico. Modernizar \u00e9, essencialmente, abolir qualquer subjetividade dos documentos; registrar, sem esquecimento nem interpreta\u00e7\u00e3o, para autenticar, ou para substituir, o pr\u00f3prio objeto.\u201d<\/p>\n<p>O ensaio \u201cO Nordeste em diapositivo: o viajante, o fot\u00f3grafo e a escrita da hist\u00f3ria\u201d prop\u00f5e outros olhares para a fotografia brasileira, ampliando e pluralizando novas formas de pensar a imagem. Caio Prado Jr, intelectual militante, eleito deputado estadual comunista em 1947 pelo PCB, valoriza o ver e o estar l\u00e1. Utilizou a fotografia como media\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para apreender e compreender a realidade brasileira. Suas fotografias se constituem como um rico repert\u00f3rio imag\u00e9tico que sistematiza e generaliza uma realidade local desse per\u00edodo.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, sabemos, \u00e9 um imenso <em>iceberg<\/em> do qual pouco sabemos. Esse conjunto de imagens que agora enriquece a iconografia brasileira surge num momento em que \u00e9 crescente o desejo dos pesquisadores de conhecer os in\u00fameros canais que s\u00e3o a parte submersa desse iceberg e que precisam ser desobstru\u00eddos para acentuar as conex\u00f5es e estabelecer os movimentos de transi\u00e7\u00e3o entre eles. Cada vez mais, devemos entender a fotografia brasileira a partir dessas possibilidades de construir pontes e conex\u00f5es entre as diferentes esferas de sua produ\u00e7\u00e3o e uso. Somente assim, compreenderemos a complexa trama que se imp\u00f5e diante de n\u00f3s pesquisadores a cada nova pesquisa apresentada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente tive acesso ao livro Caio Prado Jr \u2013 o legado de um saber-fazer hist\u00f3rico, editado em 2013 pela Hucitec e organizado por Antonio Gilberto R. Nogueira e Adelaide Gon\u00e7alves, ambos professores do Departamento de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Cear\u00e1. A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de 7 ensaios e uma preciosa cronologia. O ensaio que chamou minha aten\u00e7\u00e3o \u00e9 assinado pelo Antonio Gilberto R. Nogueira, denominado \u201cO Nordeste em diapositivo: o viajante, o fot\u00f3grafo e a escrita da hist\u00f3ria\u201d. 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