{"id":9207,"date":"2016-02-20T13:47:48","date_gmt":"2016-02-20T13:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=9207"},"modified":"2016-05-28T14:52:07","modified_gmt":"2016-05-28T14:52:07","slug":"umberto-eco-a-internet-e-o-ornitorrinco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/umberto-eco-a-internet-e-o-ornitorrinco\/","title":{"rendered":"Umberto Eco, a internet e o ornitorrinco"},"content":{"rendered":"<p>Neste artigo de 1996, Umberto Eco relata a experi\u00eancia de procurar a palavra <em>platypus<\/em>\u00a0(ornitorrinco) numa ferramenta de\u00a0busca na internet. Som humor, ele toma esse animal estranho como uma met\u00e1fora do\u00a0corpo de pensamentos fragmentados\u00a0que as redes j\u00e1 constru\u00edam.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-9209\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/5471320580_775c3bb1ae_b-1-674x492.jpg\" alt=\"5471320580_775c3bb1ae_b\" width=\"674\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/5471320580_775c3bb1ae_b-1-674x492.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/5471320580_775c3bb1ae_b-1-360x263.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/5471320580_775c3bb1ae_b-1-768x561.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/5471320580_775c3bb1ae_b-1.jpg 805w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p><strong>Chamem-no Platypus ou Ornitorrinco, o fato \u00e9 que ele \u00e9 muito popular<\/strong><\/p>\n<p>por Umberto Eco\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Sou um sincero admirador do ornitorrinco (ou platypus), talvez porque tive a oportunidade de v\u00ea-lo ao vivo na Austr\u00e1lia, mas tamb\u00e9m porque ele parece ter sido criado por Deus ou pela Natureza para p\u00f4r em quest\u00e3o nosso aparato categorial. O ornitorrinco tem bico de pato, patas espalmadas, p\u00f5e ovos, mas n\u00e3o \u00e9 um p\u00e1ssaro; passa boa parte do dia debaixo d\u00b4\u00e1gua mas n\u00e3o \u00e9 anf\u00edbio, \u00e9 coberto de pelo, tem o rabo de castor, mama quando pequeno, mas n\u00e3o tem mamilos. E quebramos a cabe\u00e7a para entender de onde os beb\u00eas sugam o leite.<\/p>\n<p>Quando, ao final dos anos 700, um exemplar foi trazido \u00e0 Inglaterra, os naturalistas acreditaram tratar-se de uma piada feita por algum taxidermista. Finalmente (mas o debate durou d\u00e9cadas), decidiram classific\u00e1-lo entre os mam\u00edferos, na ordem dos monotremados, mas se observarmos uma \u00e1rvore taxion\u00f4mica, ele ser\u00e1 encontrado num ap\u00eandice, deslocado, apenas para poup\u00e1-lo de ser visto como um sem-p\u00e1tria.<\/p>\n<p>\u00c9 aparentemente um animal anti-Kantiano, a tal ponto que (s\u00f3 para testar a teoria do conhecimento de Kant) eu me propus a escrever um ensaio sobre Kant e o ornitorrinco\u00a0<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Como as enciclop\u00e9dias que tenho em casa n\u00e3o me dessem refer\u00eancias hist\u00f3ricas, veio-me a id\u00e9ia fazer uma pesquisa na Internet. Como pude constatar, teria encontrado alguma coisa mesmo tomando seu nome cient\u00edfico (ornithorhynchus anatinus), pr\u00f3ximo daqueles que o denomina em italiano, franc\u00eas, alem\u00e3o etc. Mas como quase toda a Internet fala ingl\u00eas, comecei com &#8220;platypus&#8221;.<\/p>\n<p>Surpresa. Seguindo as ferramentas de busca, encontrei entre dois e tr\u00eas mil sites que falavam do ornitorrinco\u00a0<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a>. Desconsiderei alguns que diziam respeito, por exemplo, a uma livraria, uma empresa de aluguel de computadores, um clube que adotava seu nome, um tal <em>Ornitorrinco in Eden<\/em> (com dois <em>erres\u00a0<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, grafado como no portugu\u00eas, sabe-se l\u00e1 porque, j\u00e1 que foi feito na Calif\u00f3rnia) que relata a cria\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de arte tele-rob\u00f3tica; e a homepage de uma menina que se apelida de Platypus e que exibe uma s\u00e9rie de fotos sobre cada ano em seu Col\u00e9gio&#8230; Mas estes s\u00e3o tamb\u00e9m sintomas interessantes, porque \u00e9 evidente que a Internet parece marcada por uma <em>Platypus-mania<\/em> (nome de um site, enquanto um outro \u00e9 chamado <em>Platypus Loved in USA<\/em>).<\/p>\n<p>H\u00e1 faculdades de ci\u00eancias naturais e centros de pesquisa (muitos deles australianos, obviamente) que nos descrevem o ornitorrinco, exibem fotografias, indicam sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, sua hist\u00f3ria, e no caso do Cat\u00e1logo Gen\u00e9tico da Universidade de Illinois pode-se achar tudo o que \u00e9 preciso saber para obter, num exame, dez com louvor. H\u00e1 pessoas que se dedicam a um culto ao ornitorrinco, entre elas um italiano, Pastrano, que se pergunta como poder\u00edamos permanecer indiferentes a tanta beleza, enquanto desenvolve a hip\u00f3tese de que o ornitorrinco pode ser meta final da cria\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um outro f\u00e3, Gary S. Rosin, cujo site <em>The amorous platypus<\/em> foi visitado por 1.693 pessoas nestes \u00faltimos seis meses, e que dedica um link ao problema do plural de &#8220;platypus&#8221; (platypuses? platypi? platypus?). Rosin adapta ao platypus a c\u00e9lebre anedota de um sujeito que queria encomendar cinco destes animais, mas n\u00e3o sabia como denomin\u00e1-lo no plural. Ent\u00e3o escreve: \u201cmandem-me um platypus. N\u00e3o, mandem cinco&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 poesias, livros infantis para colorir, uma tal <em>Gelatinous Platypus Page<\/em> que dedica ao animal um monte de not\u00edcias curiosas. H\u00e1 uma bibliografia completa, um filme sobre amamenta\u00e7\u00e3o (55 d\u00f3lares, 25 minutos), um estudo para a moeda australiana estampada com a imagem do ornitorrinco, que reproduz, na \u00edntegra, um artigo publicado na <em>Creation Magazine<\/em> (junho\/1986), de tend\u00eancia fundamentalista, onde se afirma que, criado h\u00e1 110 milh\u00f5es de anos, o ornitorrinco n\u00e3o teria evolu\u00eddo, o que significa que ainda est\u00e1 como Deus o criou, entre o quinto e o sexto dia (entre os animais aqu\u00e1ticos e terrestres). Explica-se seu lugar na Arca (pois n\u00e3o sendo um peixe, n\u00e3o poderia ter resistido debaixo de \u00e1gua durante o dil\u00favio) e se discute como o ornitorrinco teria conseguido ir do Monte de Ararat at\u00e9 a Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>Como sou esperto e sei que a Internet abriga um n\u00famero infind\u00e1vel de sites sobre o gato, decidi procurar outros animais ex\u00f3ticos, e devo dizer que est\u00e3o muito bem representados, mais que ornitorrinco: localizei 7.000 sites dedicados ao coala e ao tatu, 10.000 ao panda, mas estes s\u00e3o animais mais conhecidos que, h\u00e1 muito tempo, d\u00e3o nomes a produtos, como o Fiat Panda.<\/p>\n<p>Permane\u00e7o convicto de que a moda do ornitorrinco \u00e9 um fen\u00f4meno incomum. Talvez porque ele seja um animal bastante p\u00f3s-moderno, uma colagem, uma cita\u00e7\u00e3o de outros animais; talvez porque pare\u00e7a inven\u00e7\u00e3o de uma mente desequilibrada. Talvez porque seja um s\u00edmbolo ambiental escondido em seu reduto oce\u00e2nico, mas protegido e amado.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei. Deixo esta reflex\u00e3o para algum futuro congresso.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Publicado originalmente no jornal <em>L&#8217;Espresso<\/em>, 8\/8\/1996. Esta \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o que fiz para meus\u00a0alunos em 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> &#8211; <em>Kant e o Ornitorrinco<\/em>, publicado pelo autor em 1997, editado em portugu\u00eas pela Editora Record (Rio de Janeiro), em 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> &#8211; Em\u00a0\u00a02011, o Google apontava cerca de 16 milh\u00f5es de ocorr\u00eancias para o termo \u201cplatypus\u201d. Em fevereiro de 2016, esse n\u00famero diminuiu para 9 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> &#8211; Em italiano, escreve-se <em>ornitorinco<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste artigo de 1996, Umberto Eco relata a experi\u00eancia de procurar a palavra platypus\u00a0(ornitorrinco) numa ferramenta de\u00a0busca na internet. Som humor, ele toma esse animal estranho como uma met\u00e1fora do\u00a0corpo de pensamentos fragmentados\u00a0que as redes j\u00e1 constru\u00edam. Chamem-no Platypus ou Ornitorrinco, o fato \u00e9 que ele \u00e9 muito popular por Umberto Eco\u00a0\u00a0[1] Sou um sincero admirador do ornitorrinco (ou platypus), talvez porque tive a oportunidade de v\u00ea-lo ao vivo na Austr\u00e1lia, mas tamb\u00e9m porque ele parece ter sido criado por Deus ou pela Natureza para p\u00f4r em quest\u00e3o nosso aparato categorial. 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