{"id":887,"date":"2010-07-19T14:02:28","date_gmt":"2010-07-19T14:02:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=887"},"modified":"2016-05-28T14:31:01","modified_gmt":"2016-05-28T14:31:01","slug":"manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-i\/","title":{"rendered":"Manual de primeiros socorros para conceitos mutilados \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_888\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Walter-Reed-Hospital-19181.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-888\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-888\" alt=\"An\u00f4nimo. Walter Reed Hospital, 1918\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Walter-Reed-Hospital-1918-280x185.jpg\" width=\"280\" height=\"185\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-888\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo. Walter Reed Hospital, 1918<\/p><\/div>\n<p>Sabemos que, desde sua inven\u00e7\u00e3o, recaiu sobre a fotografia uma confian\u00e7a exagerada. A ideia de que ali havia uma reprodu\u00e7\u00e3o fiel da realidade garantiu sua imediata aceita\u00e7\u00e3o como instrumento de mem\u00f3ria e documenta\u00e7\u00e3o, no entanto, atrapalhou seu reconhecimento como arte.\u00a0 Nos \u00faltimos 30, talvez 40 anos, muitas teorias se empenharam em desconstruir essa confian\u00e7a, denunciando as bases ing\u00eanuas que legitimavam muitos dos usos da fotografia. Para combater um s\u00e9culo de pensamento enviesado e garantir uma postura mais cr\u00edtica diante do meio, foi preciso afirmar a ideia de que a fotografia \u00e9 artif\u00edcio, \u00e9 codificada, constru\u00edda, subjetiva, ideol\u00f3gica, eventualmente mentirosa. Em contrapartida foi necess\u00e1rio policiar o uso de certas palavras e express\u00f5es emblem\u00e1ticas dessa confian\u00e7a cega e ultrapassada: real, realidade, objetividade, documento, analogia, mimesis, verossimilhan\u00e7a se tornaram heresias, e tal vocabul\u00e1rio s\u00f3 podia ser requisitado para caracterizar o inimigo que se combatia.<\/p>\n<p>Pois bem, uma vez que o corretivo foi bem aplicado, que estamos conscientes dos limites da representa\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, podemos tentar reconhecer nesse inimigo esfacelado alguns valores que merecem ser preservados. Para ser mais claro, vale revisitar esses conceitos renegados, vale entender suas sutilezas e fazer tamb\u00e9m deles instrumento da consci\u00eancia que reivindicamos.<\/p>\n<p>Para aqueles que t\u00eam paci\u00eancia para a teoria, algumas tentativas de resgate:<\/p>\n<p><strong>Realidade<\/strong>: Existe essa coisa? Se estamos falando da natureza f\u00edsica, percebida empiricamente, pode n\u00e3o ser algo un\u00e2nime. Para uma filosofia idealista dogm\u00e1tica, como a do fil\u00f3sofo irland\u00eas George Berkeley, \u00e9 problem\u00e1tico afirmar que existe mesmo um mundo fora do pensamento. Deixado de lado esse radicalismo, vou ent\u00e3o admitir, por exemplo, que voc\u00ea \u00e9 real, que est\u00e1 a\u00ed sentado lendo meu post, e que n\u00e3o existe apenas no meu pensamento. A segunda quest\u00e3o \u00e9 saber se \u00e9 poss\u00edvel a uma consci\u00eancia acessar diretamente essa realidade, ou apenas uma representa\u00e7\u00e3o dela. Isso merece ser discutido, sem a necessidade de radicalismos. Charles Sanders Peirce admite que toda nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo est\u00e1 mediada por signos, mas assume tamb\u00e9m que existe uma realidade fora do signo, que tamb\u00e9m participa do processo de representa\u00e7\u00e3o (semiose). Ou seja, existe seu nome, sua foto, suas poses, seu jeito de se vestir, seus discursos, e eu s\u00f3 posso alcan\u00e7\u00e1-lo por meio de \u00a0signos como esses. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma exist\u00eancia para al\u00e9m dessas representa\u00e7\u00f5es e essa realidade determina em maior ou menor grau os signos que o representam. Por isso, a ideia de representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser pensada como um avesso da realidade. Podemos ir mais longe. Se a \u201cnatureza humana\u201d \u00e9 essencialmente simb\u00f3lica (isto \u00e9, para n\u00f3s as coisas nunca s\u00e3o puras, nunca s\u00e3o apenas elas pr\u00f3prias, sempre representam algo), podemos admitir que aquilo que representamos \u00e9 uma parte constituinte de nossa realidade, uma realidade ps\u00edquica, social, cultural.<\/p>\n<p><strong>Representa\u00e7\u00e3o da realidade<\/strong>: A fotografia representa a realidade? Estupidez! Heresia!!! Quem ainda afirmaria uma coisa dessas? Bem, j\u00e1 admitimos que existe algo que podemos chamar de realidade. O que \u00e9 representar? \u00c9 apontar para algo, fazer refer\u00eancia, partir de uma rela\u00e7\u00e3o entre duas coisas, tomando uma delas para fazer pensar na outra. Basta qualquer defini\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel de \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d para saber que ela n\u00e3o se confunde com \u201cduplica\u00e7\u00e3o\u201d, \u201creprodu\u00e7\u00e3o fiel\u201d, com \u201cser id\u00eantico\u201d. Afinal, seu nome o representa, o desenho que seu filho de quatro anos fez de voc\u00ea o representa, aquele perfume que voc\u00ea usa sempre o representa, at\u00e9 o numero do seu PIS que voc\u00ea nunca decorou o representa, e nada disso se confunde com a totalidade do que voc\u00ea \u00e9. At\u00e9 mesmo uma imagem distorcida, uma informa\u00e7\u00e3o fragmentada ou uma mentira tamb\u00e9m s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es, pelo simples fato de que fazem refer\u00eancia a um objeto. Ou seja, quando se diz que a fotografia representa a realidade, isso j\u00e1 equivale dizer que ela n\u00e3o \u00e9 a realidade. \u00c9 apenas uma representa\u00e7\u00e3o da realidade: em certas condi\u00e7\u00f5es, para certos fins, e sempre provisoriamente, ela se coloca no lugar de alguns de seus aspectos.<\/p>\n<p><strong>Realismo<\/strong>: a fotografia \u00e9 realista? Ela pode ser, e pode n\u00e3o ser. Realismo e realidade n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. O realismo \u00e9 um modo de se portar diante da realidade. Admitir que existe uma realidade fora do pensamento e atribuir a ela alguma relev\u00e2ncia para o conhecimento j\u00e1 \u00e9 o suficiente para uma filosofia ser caracterizada como realista. Na hist\u00f3ria da arte, encontramos movimentos denominados realistas que se referem ao desejo de produzir uma arte comprometida com a vida social, com as possibilidades de conhec\u00ea-la e de transform\u00e1-la. Esse \u00e9 o caso da pintura realista de Courbet ou da literatura realista de Balzac, no s\u00e9culo XIX. E, no s\u00e9culo XX, \u00e9 o caso do cinema neo-realista italiano de diretores como Vittorio de Sica ou Rosselini. No caso da fotografia, entra em jogo uma quest\u00e3o herdada da pintura renascentista, que diz respeito ao desejo de extrair da pr\u00f3pria natureza os crit\u00e9rios para represent\u00e1-la. A perspectiva, baseada na mesma matem\u00e1tica que explicava t\u00e3o bem o mundo, parecia ent\u00e3o produzir uma imagem realista. Assim como a c\u00e2mera: objeto t\u00e9cnico que supostamente apreende um comportamento natural da luz para produzir tamb\u00e9m uma imagem realista. Aqui sim existe algo de problem\u00e1tico que valeu a pena questionar. Mas hoje est\u00e1 suficientemente claro para todos que o realismo n\u00e3o \u00e9 mais que um conjunto de procedimentos escolhidos dentre outros poss\u00edveis, e devidamente legitimados pela tradi\u00e7\u00e3o. Quando utilizados, produz para a cultura que elegeu tais procedimentos uma comunica\u00e7\u00e3o compreens\u00edvel sobre a realidade. Ser realista \u00e9, portanto, produzir uma imagem segundo um modelo considerado v\u00e1lido. Nesse sentido, podemos bem dizer que a pintura de Salvador Dali \u00e9 realista, porque constr\u00f3i todo tipo de fantasia, mas respeita os artif\u00edcios de convencimento adotados pela tradi\u00e7\u00e3o da pintura ilusionista. \u00c9 certo que a fotografia seguiu nas \u00faltimas d\u00e9cadas uma postura anti-realista, em v\u00e1rios sentidos. De um lado, essa fotografia se mostra pouco interessada pela realidade, priorizando uma discuss\u00e3o sobre o pr\u00f3prio meio, sobre aquilo que a pr\u00f3pria fotografia \u00e9 capaz de forjar.\u00a0 De outro, ela recusa e desconstr\u00f3i deliberadamente esses modelos tradicionais, inclusive \u2013 e sobretudo \u2013 aqueles\u00a0 programados na c\u00e2mera. Esse \u00e9 um movimento leg\u00edtimo da fotografia contempor\u00e2nea. Mas \u00e9 equivocado pensar a imagem realista como o contr\u00e1rio da imagem ficcional. Todas as aplica\u00e7\u00f5es do termo pela arte nos levam a concluir que o realismo \u00e9 um certo modo de se portar da fic\u00e7\u00e3o, da imagem ilusionista. Como eu disse em outra ocasi\u00e3o, cabe \u00e0 fic\u00e7\u00e3o ser realista, n\u00e3o \u00e0 realidade<em>. <\/em>Podemos dizer que uma fotografia \u00e9 realista porque localizamos certas expectativas da imagem perante a realidade. Mas s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pensar a rela\u00e7\u00e3o entre duas coisas quando elas n\u00e3o se confundem. Ou seja, ao dizer que a imagem \u00e9 realista, j\u00e1 fizemos a devida distin\u00e7\u00e3o entre a fotografia e a realidade.<\/p>\n<p>Em posts futuros, podemos tentar resgatar outras v\u00edtimas, conceitos como <em>documento<\/em>, <em>analogia<\/em>, <em>mimesis<\/em>, <em>objetividade<\/em>, <em>verossimilhan\u00e7a<\/em>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabemos que, desde sua inven\u00e7\u00e3o, recaiu sobre a fotografia uma confian\u00e7a exagerada. 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