{"id":8773,"date":"2016-02-08T12:39:26","date_gmt":"2016-02-08T12:39:26","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=8773"},"modified":"2016-05-05T17:24:52","modified_gmt":"2016-05-05T17:24:52","slug":"sobre-pequenas-pregnancias-coracao-de-cachorro-de-laurie-anderson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sobre-pequenas-pregnancias-coracao-de-cachorro-de-laurie-anderson\/","title":{"rendered":"Sobre pequenas pregn\u00e2ncias: Cora\u00e7\u00e3o de Cachorro, de Laurie Anderson"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/147757873\" width=\"1150\" height=\"647\"frameborder=\"0\" title=\"CORA&Ccedil;&Atilde;O DE C&Atilde;O, um filme de LAURIE ANDERSON\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Dif\u00edcil saber do que trata o filme \u201cCora\u00e7\u00e3o de Cachorro\u201d, de Laurie Anderson. Ela parte de coisas banais, dessas que vemos exaustivamente nas redes sociais: relatos intimistas e imagens de c\u00e3ezinhos. Deve haver um amor sincero por tr\u00e1s de cada pet publicado no Facebook. E cada fato banal pode ser a fra\u00e7\u00e3o de uma urg\u00eancia verdadeira que se gostaria de expressar.<\/p>\n<p>O problema das redes n\u00e3o \u00e9 a irrelev\u00e2ncia dos temas: um bom cronista sabe arrancar o universal de fatos corriqueiros. N\u00e3o \u00e9 a falta de v\u00ednculo com aquele que fala: somos capazes de dedicar uma boa dose de fantasia a um postal encontrado num antiqu\u00e1rio ou a um peda\u00e7o de conversa ouvido no metr\u00f4. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 seu car\u00e1ter fragment\u00e1rio: a montagem \u00e9 o idioma mesmo em que a modernidade nos alfabetizou. O problema est\u00e1 nas condi\u00e7\u00f5es de narra\u00e7\u00e3o e de escuta dessas pequenas hist\u00f3rias: as telas que lhe servem de suporte quase nunca duram o suficiente para convocar o fragmento anterior e para ecoar no que vem adiante. A\u00ed, uma grande diferen\u00e7a: Laurie Anderson sabe dar pregn\u00e2ncia \u00e0s suas imagens.<\/p>\n<p>Em certo momento, ela questiona o imenso aparato montado nos Estados Unidos, no meio de um deserto, para acumular informa\u00e7\u00f5es sobre cada cidad\u00e3o. Ali n\u00e3o h\u00e1 mais sujeitos e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 mais hist\u00f3rias. N\u00e3o \u00e9 import\u00e2ncia dos fatos que garante uma narrativa. \u00c9 a capacidade de dar-lhe um lugar pr\u00f3prio e de relacion\u00e1-los. \u00c9 isso que vemos no filme.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8777\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370-674x347.jpg\" alt=\"heart-of-a-dog-e1446022887370\" width=\"674\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370-674x347.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370-360x185.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370-768x395.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370-679x350.jpg 679w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-e1446022887370.jpg 1235w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Seus relatos permanecem fragment\u00e1rios. Personagens e temas aparecem e desaparecem, como associa\u00e7\u00f5es livres que ficam dispon\u00edveis para talvez fazer sentido em algum lugar mais adiante. Vez ou outra, as coisas se encontram e se amarram como imagem. Por exemplo: a <em>rat<\/em><em> terrier<\/em> \u00e9 uma ra\u00e7a com forte instinto vigilante. Mas o olhar de sua cadela n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo quando descobre pela primeira vez numa viagem os falc\u00f5es que mergulham do c\u00e9u para atac\u00e1-la. Nesse olhar, Laurie Anderson entender\u00e1 o sentimento deixado pelo 11 de Setembro: agora, o perigo chega tamb\u00e9m do c\u00e9u e o medo passa a ter um novo espectro.<\/p>\n<p>Para falar de grandes quest\u00f5es da realidade, ela prefere sempre partir de seus pequenos sintomas. Por isso, talvez, sua predile\u00e7\u00e3o por essa filosofia das a\u00e7\u00f5es cotidianas que \u00e9 o budismo. Quando preciso, recorre \u00e0 grande erudi\u00e7\u00e3o ocidental, mas sempre desconstru\u00edda por certa dose de irrever\u00eancia. \u00c9 assim que ela relaciona os avisos colocados em lugares p\u00fablicos para prevenir o terrorismo (<em>se vir algo, diga algo!<\/em>) com o pensamento de Wittgenstein (<em>s\u00f3 existe para o conhecimento aquilo que se pode representar pela linguagem<\/em>), para entender a parcela do terror que pr\u00f3prio aviso ajudava a inventar.<\/p>\n<p>Mesmo que haja uma primeira pessoa forte e um tom intimista, o filme n\u00e3o \u00e9 sobre Laurie Anderson. A maioria de n\u00f3s chega ao cinema sabendo duas ou tr\u00eas coisas sobre a mulher de Lou Reed. E sa\u00edmos conhecendo epis\u00f3dios e pensamentos esparsos que poderiam ser de qualquer pessoa. Quase nada sobre sua obra, a n\u00e3o ser a obra que o pr\u00f3prio filme constitui, que inclui desenhos, fotos, remontagens de suas mem\u00f3rias, algumas m\u00fasicas e um texto carregado de imagens, que pensa atrav\u00e9s de imagens.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8776\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2-674x379.jpg\" alt=\"804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2\" width=\"674\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2-674x379.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2-360x202.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/804436238-10192015-laurie-anderson-bomb-2.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>A cadela de Laurie Anderson conduz parte das hist\u00f3rias, mas n\u00e3o \u00e9 simples entender seu lugar. O filme n\u00e3o \u00e9 sobre ela. E ela tampouco cumpre um papel apenas simb\u00f3lico: a cadela n\u00e3o \u00e9 um elemento de uma hist\u00f3ria paralela de onde se tira uma moral. A cadela existe na vida da artista e crava nela os sentimentos a partir do qual olhar\u00e1 para tantos outros temas. O papel da cadela \u00e9 emp\u00e1tico: ela produz, por uma esp\u00e9cie de sintonia afetiva, as condi\u00e7\u00f5es para falar da perda, a dor, da pol\u00edtica, da arte e da felicidade.<\/p>\n<p>Recorri ao Google para lembrar do nome da cadela. Arrisquei Lullaby, mas era Lolabelle. Al\u00e9m da semelhan\u00e7a sonora, Lullaby faria todo sentido. O tom de Anderson \u00e9 o de quem nos conta uma hist\u00f3ria com a luz apagada, com voz suave para n\u00e3o espantar o sono, mas com entona\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica o suficiente para ati\u00e7ar os sonhos. O filme \u00e9 de fato uma esp\u00e9cie de compila\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias que foram cantadas para que tantas partidas pudessem ser encaradas com serenidade: sua cadela, sua m\u00e3e, Gordon Mattta-Clark, seu grande amigo, e Lou Reed, o companheiro de toda vida de quem ela fala apenas na dedicat\u00f3ria final. O canto \u00e9 para os partem e os que ficam. Ela conta que, assim que Matta-Clark morreu, dois monges budistas presentes diziam pr\u00f3ximo ao seu ouvido o caminho a seguir. Mas, antes disso, era ele que lia no hospital hist\u00f3rias para os amigos que ficariam.<\/p>\n<p>O filme reencena alguns fatos e acrescenta muitos efeitos \u00e0s imagens. Os artif\u00edcios est\u00e3o tamb\u00e9m nas situa\u00e7\u00f5es vividas: em grava\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, vemos Lolabelle pintando, esculpindo e tocando piano, coisas graciosas que foram ensinadas por uma adestradora de c\u00e3es e que tamb\u00e9m poder\u00edamos encontrar nas redes sociais. Mas tamb\u00e9m essas imagens forjadas t\u00eam suas pregn\u00e2ncias: de um lado, elas ajudam Laurie Anderson a responder com leveza a acontecimentos dram\u00e1ticos, de outro, ela sempre se vincula profundamente a tudo o que inventa. Dizer que a imagem \u00e9 pregnante \u00e9 dizer que est\u00e1 prenhe de algo. No sonho que abre o filme, ela d\u00e1 \u00e0 luz a sua cadela. Ela se comove e diz que vai am\u00e1-la par sempre. Mas sabe que isso s\u00f3 foi poss\u00edvel por causa de uma artimanha: ela pr\u00f3pria teria costurado Lolabelle a seu ventre para poder pari-la. O filme produz seus duplos, suas simula\u00e7\u00f5es e seus espet\u00e1culos, mas n\u00e3o sem antes at\u00e1-los profundamente \u00e0 hist\u00f3ria da artista.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8775\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-Laurie-Anderson--674x379.jpg\" alt=\"heart-of-a-dog-Laurie-Anderson-\" width=\"674\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-Laurie-Anderson--674x379.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-Laurie-Anderson--360x203.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-Laurie-Anderson--768x432.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/heart-of-a-dog-Laurie-Anderson-.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Esse \u00e9 provavelmente um filme classificado como document\u00e1rio. Mas \u00e9 uma f\u00e1bula. Ele\u00a0fala de muitas coisas e n\u00e3o \u00e9 sobre coisa alguma. \u00c9 uma cole\u00e7\u00e3o quase aleat\u00f3ria de mem\u00f3rias muito densas, e \u00e9 uma amostragem muito coesa de um princ\u00edpio de leveza que se pode dar \u00e0 vida. Algumas de suas sequ\u00eancias teriam for\u00e7a para serem projetadas como <em>loop<\/em>, em sil\u00eancio, numa galeria de arte. Mas o filme tamb\u00e9m poderia ser assistido de olhos fechados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dif\u00edcil saber do que trata o filme \u201cCora\u00e7\u00e3o de Cachorro\u201d, de Laurie Anderson. Ela parte de coisas banais, dessas que vemos exaustivamente nas redes sociais: relatos intimistas e imagens de c\u00e3ezinhos. Deve haver um amor sincero por tr\u00e1s de cada pet publicado no Facebook. E cada fato banal pode ser a fra\u00e7\u00e3o de uma urg\u00eancia verdadeira que se gostaria de expressar. 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