{"id":8691,"date":"2015-09-28T13:12:37","date_gmt":"2015-09-28T13:12:37","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=8691"},"modified":"2025-05-07T13:54:25","modified_gmt":"2025-05-07T13:54:25","slug":"falar-de-imagens-sem-compreende-las-apichatpong-weerasethakul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/falar-de-imagens-sem-compreende-las-apichatpong-weerasethakul\/","title":{"rendered":"Falar de imagens sem compreend\u00ea-las: Apichatpong Weerasethakul"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cemite\u0301rio do Esplendor - Trailer Legendado\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5L6RuAS34uI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Escrever tem a ver com o esfor\u00e7o de compreender aquelas imagens que persistem quando o olhar j\u00e1 seguiu adiante. Ou, antes disso, a escrita \u00e9 parte desse exerc\u00edcio de perman\u00eancia das\u00a0imagens. A compreens\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um pretexto. Quantas vezes eu fiquei parado diante de uma p\u00e1gina em branco sem saber por onde come\u00e7ar&#8230; N\u00e3o havia nada a ser dito, o que havia era apenas a pr\u00f3pria imagem que persistia.<\/p>\n<p>Depois de um tempo, a linguagem pode chegar a desenhar a topografia\u00a0desse lugar de perman\u00eancia. Assim eu vejo a\u00a0cr\u00edtica: o\u00a0desenho\u00a0mais ou menos arbitr\u00e1rio de um espa\u00e7o que se deseja compartilhar, portanto, uma imagem que se sobrep\u00f5e a outra imagem. Mas, \u00e0s vezes, a p\u00e1gina em branco resiste e \u00e9 preciso admitir que nem isso a escrita consegue fazer.<\/p>\n<p>Tudo isso porque queria dizer alguma coisa sobre um filme,\u00a0<em>Cemit\u00e9rio do Esplendor<\/em> (2015), do diretor tailand\u00eas &#8211; de nome impronunci\u00e1vel\u00a0&#8211; Apichatpong Weerasethakul. J\u00e1 havia havia escrito sobre\u00a0seu <em><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/as-formas-primitivas-de-apichatpong-weerasethakul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tio Boonmee, que pode relembrar suas vidas passadas<\/a><\/em> (2010). Desta vez, n\u00e3o achei uma forma. Fiz ent\u00e3o o que faria qualquer curioso: busquei refer\u00eancias.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia lido a sinopse, que reproduzo aqui para me livrar da dif\u00edcil tarefa de decidir o que dizer e o que n\u00e3o dizer de uma hist\u00f3ria que permanece cheia de lacunas:<\/p>\n<blockquote><p><em>Soldados com uma misteriosa doen\u00e7a do sono s\u00e3o transferidos para um hospital provis\u00f3rio instalado em uma antiga escola abandonada. Jenjira torna-se volunt\u00e1ria para tratar de Itt, um belo soldado que ningu\u00e9m vem visitar. No hospital, ela faz amizade com a jovem m\u00e9dium Keng que utiliza os seus poderes para ajudar os parentes a se comunicarem com os homens adormecidos. Um dia, Jenjira encontra o di\u00e1rio de Itt preenchido de palavras e desenhos estranhos. Talvez haja uma conex\u00e3o entre a s\u00edndrome enigm\u00e1tica dos soldados e o m\u00edtico local em que o hospital se encontra. A magia, a cura, o romance e os sonhos misturam-se no fr\u00e1gil caminho de Jenjira em dire\u00e7\u00e3o ao conhecimento profundo de si pr\u00f3pria e do mundo \u00e0 sua volta.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 uma s\u00edntese bem constru\u00edda mas que, se for lida a partir do nosso cinema de fantasia, promete uma solu\u00e7\u00e3o que nunca chegar\u00e1 da maneira como esperamos. No filme, os elementos m\u00e1gicos simplesmente habitam aquela realidade.<\/p>\n<p>No mais, encontrei coment\u00e1rios hesitantes sobre a religiosidade tailandesa e tentativas for\u00e7osas de interpretar algumas simbologias pontuais. Algumas pistas s\u00e3o recorrentes: seus soldados apaziguados pelo sono podem ser uma resposta \u00e0 repress\u00e3o militar que tomou conta de seu pa\u00eds recentemente. Por fim, achei a voz humilde e solid\u00e1ria do cr\u00edtico <a href=\"http:\/\/www.blogdoims.com.br\/ims\/tag\/cemiterio-do-esplendor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" class=\"broken_link\">Jos\u00e9 Carlos Avellar<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p><em>Se aceitarmos\u00a0a hip\u00f3tese de gostar de um filme sem exatamente compreender o que ele nos fala, por falta de conhecimento da cultura que inspirou sua inven\u00e7\u00e3o, chegamos perto da sensa\u00e7\u00e3o provocada por\u00a0Cemit\u00e9rio do esplendor, de Apichatpong Weerasethakul, exibido em Cannes na mostra\u00a0Un certain regard. Nele,\u00a0estamos na fronteira entre os vivos e os mortos, entre o que percebemos nos sonhos e o que vemos quando despertos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Esse pequeno texto\u00a0pode parecer insuficiente como cr\u00edtica, mas \u00e9 de uma honestidade perturbadora. A honestidade sim, \u00e9 um requisito fundamental para a cr\u00edtica. A compreens\u00e3o, um tanto\u00a0menos.<\/p>\n<p>Assumindo isso, posso ao menos tentar fruir os pr\u00f3prios limites que o filme me\u00a0coloca. Assumo que a dist\u00e2ncia entre o meu mundo e o de Weerasethakul \u00e9 o que impede a compreens\u00e3o: n\u00e3o sei nada sobre a hist\u00f3ria, as paisagens, os costumes, a religiosidade tailandesa. E\u00a0posso assumir a experi\u00eancia da dist\u00e2ncia como algo que o filme oferece. N\u00e3o apenas a\u00a0dist\u00e2ncia, mas uma certa dist\u00e2ncia, por si mesma singular e dif\u00edcil de situar.<\/p>\n<p>Lembro de quando o cinema iraniano n\u00e3o me parecia cinema: sentia a for\u00e7a das imagens, mas os di\u00e1logos, a montagem, a narrativa, a dura\u00e7\u00e3o das cenas n\u00e3o faziam sentido. Com o tempo, fomos negociando um lugar no ocidente para essas imagens: de um lado, expandimos nossa concep\u00e7\u00e3o de cinema e, de outro, diretores como Abbas Kiarostami (<em>C\u00f3pia Fiel<\/em>, 2010) ou Asghar Farhadi (<em>A Separa\u00e7\u00e3o<\/em>, 2011) se esfor\u00e7aram para acolher um pouco mais os olhares formados por Hollywood, sem poup\u00e1-los totalmente do estranhamento.<\/p>\n<p>Cemit\u00e9rio do Esplendor nos confronta com uma alteridade forte, mas n\u00e3o exatamente\u00a0imaculada. O diretor mostra um territ\u00f3rio em transforma\u00e7\u00e3o. Mas, assim como um grupo de crian\u00e7as insiste em jogar bola num campo de futebol transformado em canteiro de obras, Janjira ainda \u00e9 capaz de passear pelos c\u00f4modos de um pal\u00e1cio ancestral que j\u00e1 n\u00e3o se enxerga. Nesse lugar, as imagens tamb\u00e9m persistem.<\/p>\n<p>Weerasethakul n\u00e3o \u00e9 um nativo que foi presenteado com uma c\u00e2mera, ele constr\u00f3i habilmente essas\u00a0imagens. Ele teve parte de sua forma\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos e transita com flu\u00eancia pelos festivais internacionais. Todos os comentadores destacam o modo como seu cinema abre espa\u00e7o para elementos tradicionais da cultura de seu pa\u00eds. Mas esse filme est\u00e1 repleto de refer\u00eancias ao ocidente.<\/p>\n<p>Janjira \u00e9 uma figura de uma benevol\u00eancia que s\u00f3 parece poss\u00edvel em algum canto esquecido do planeta. Mas ela fala ingl\u00eas e vive com um soldado americano aposentado que conheceu pela internet. No altar de um\u00a0templo onde\u00a0ela reza com seu marido, duas divindades femininas s\u00e3o representadas por esculturas que lembram manequins de uma loja, reproduzidas tamb\u00e9m por uma fotografia na parede. Quando essas entidades encarnam diante Janjira, antes de revelar quem s\u00e3o, mostram a ela as blusas que acabaram de comprar, como se chegassem de um shopping center. Por fim, uma cena que se repete tantas vezes no filme: para oferecer conforto aos soldados tailandeses mergulhados naquele sono misterioso, o hospital implanta uma tecnologia dizem ter sido testada com sucesso pelos americanos na guerra do Afeganist\u00e3o: lumin\u00e1rias\u00a0que ornamentam aquele ambiente r\u00fastico com uma varia\u00e7\u00e3o de cores fortes, que parecem ter sido desenhadas por um artista pop.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8692\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/maxresdefault-674x379.jpg\" alt=\"maxresdefault\" width=\"674\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/maxresdefault-674x379.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/maxresdefault-360x203.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/maxresdefault-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/maxresdefault.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8693\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553-674x364.png\" alt=\"Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553\" width=\"674\" height=\"364\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553-674x364.png 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553-360x194.png 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553-768x415.png 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Capture-d\u2019\u00e9cran-2015-09-18-\u00e0-10.50.26-1024x553.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8694\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still-674x380.jpg\" alt=\"Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still\" width=\"674\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still-674x380.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still-360x203.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still-768x433.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Rak_Ti_Khon_Khaen_Cemetery_of_splendour_Still.jpg 1296w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Aqui reside o maior estranhamento. De um lado, os elementos estrangeiros parecem atravessar os h\u00e1bitos mais tradicionais sem perturb\u00e1-los. Os personagens n\u00e3o os repudiam, ao contr\u00e1rio, lidam com eles com a mesma naturalidade que manifestam diante de qualquer outra apari\u00e7\u00e3o. De outro, esses elementos nem se acomodam e nem desaparecem nas cenas. No filme, esses elementos\u00a0contrastantes convivem com uma delicadeza surpreendente.<\/p>\n<p>Se sou incapaz de interpretar os elementos que comp\u00f5e a narrativa do filme, posso ao menos avan\u00e7ar um pouco mais naquilo que dele persiste. Cemit\u00e9rio do Esplendor transborda\u00a0a experi\u00eancia de uma certa dist\u00e2ncia e, com ela, tamb\u00e9m um sentimento\u00a0de toler\u00e2ncia: a beleza de conviver com aquilo que n\u00e3o se pode assimilar nem compreender totalmente. Se os personagens ainda s\u00e3o capazes de enxergar seus sonhos\u00a0por meio\u00a0de dispositivos que lhes\u00a0s\u00e3o alheios, podemos fazer o mesmo por meio\u00a0de um cinema que n\u00e3o \u00e9 o nosso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever tem a ver com o esfor\u00e7o de compreender aquelas imagens que persistem quando o olhar j\u00e1 seguiu adiante. Ou, antes disso, a escrita \u00e9 parte desse exerc\u00edcio de perman\u00eancia das\u00a0imagens. A compreens\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um pretexto. Quantas vezes eu fiquei parado diante de uma p\u00e1gina em branco sem saber por onde come\u00e7ar&#8230; N\u00e3o havia nada a ser dito, o que havia era apenas a pr\u00f3pria imagem que persistia. Depois de um tempo, a linguagem pode chegar a desenhar a topografia\u00a0desse lugar de perman\u00eancia. 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