{"id":8654,"date":"2015-08-18T12:47:55","date_gmt":"2015-08-18T12:47:55","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=8654"},"modified":"2016-05-05T17:25:43","modified_gmt":"2016-05-05T17:25:43","slug":"a-ilusao-especular-tres-decadas-de-uma-teoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-ilusao-especular-tres-decadas-de-uma-teoria\/","title":{"rendered":"A ilus\u00e3o especular: tr\u00eas d\u00e9cadas de uma teoria"},"content":{"rendered":"<p>O sucesso de um livro \u00e9 normalmente medido pelo n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es que alcan\u00e7a. Mas esse racioc\u00ednio n\u00e3o vale para <i>A ilus\u00e3o especular<\/i>, de Arlindo Machado, publicado em 1984 numa parceria entre a editora Brasiliense e o Instituto Nacional de Fotografia da Funarte. Esgotado h\u00e1 d\u00e9cadas, sabemos que as universidades brasileiras nunca deixaram de incluir esse t\u00edtulo na bibliografia de seus cursos de comunica\u00e7\u00e3o e artes, e o texto permanece citado de modo recorrente nas disserta\u00e7\u00f5es e teses dedicadas \u00e0 fotografia. Somente agora, tr\u00eas d\u00e9cadas depois de seu lan\u00e7amento, <i>A ilus\u00e3o especular<\/i>ganha uma segunda edi\u00e7\u00e3o pela Gustavo Gili Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_8658\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-8658\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8658\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ilus\u00e3o-especular.jpg\" alt=\"Edi\u00e7\u00e3o de 1984, pela Brasiliense, e a nova edi\u00e7\u00e3o da Gustavo Gili, de 2015\" width=\"600\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ilus\u00e3o-especular.jpg 600w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ilus\u00e3o-especular-360x285.jpg 360w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-8658\" class=\"wp-caption-text\">Edi\u00e7\u00e3o de 1984, pela Brasiliense, e a nova edi\u00e7\u00e3o da Gustavo Gili, de 2015<\/p><\/div>\n<p>Diversas vezes <a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/25-anos-de-a-ilusao-especular\/\" target=\"_blank\">o autor foi publicamente provocado a pensar a republica\u00e7\u00e3o do livro<\/a>. De um lado, a fal\u00eancia da Brasiliense deixou no limbo um vasto cat\u00e1logo de publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. De outro, podemos imaginar que, para algu\u00e9mque seguiu investindo em outras tantas pesquisas, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil retomar um trabalho \u2013 originalmente sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u2013 conclu\u00eddo h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n<p>Na breve nota que acrescenta a esta segunda edi\u00e7\u00e3o, Arlindo Machado destaca que o texto continua essencialmente o mesmo. Com humildade, ele adverte: \u201cos livros t\u00eam seu tempo: eles correspondem a um determinado est\u00e1gio de nosso pensamento, em rela\u00e7\u00e3o ao qual evolu\u00edmos ou retrocedemos \u2013 cabe ao leitor opinar\u201d. Ainda assim, as poucas altera\u00e7\u00f5es que ele aponta s\u00e3o suficientes para pensar a trajet\u00f3ria cumprida por seu livro.<\/p>\n<p>Arlindo nos adianta que v\u00e1rias fotografias foram suprimidas, sobretudo por limita\u00e7\u00f5es de direitos autorais. E\u00a0percebemos que outras\u00a0foram acrescidas ou substitu\u00eddas. Os leitores podem estranhar que as imagens n\u00e3o tenham merecido agora uma impress\u00e3o de melhor qualidade. Mas al\u00e9m do esfor\u00e7o de redigitar e revisar o texto (n\u00e3o havia computador quando foi escrito), podemos imaginar as dificuldades de lidar com um material iconogr\u00e1fico que inclui originais antigos, reprodu\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00f5es, recortes de jornais etc. A prioridade do autor est\u00e1 clara em sua \u201cnota\u201d: recolocar em circula\u00e7\u00e3o uma reflex\u00e3o te\u00f3rica sem elevar demais os custos para o leitor (*)<\/p>\n<p>O autor\u00a0tamb\u00e9m\u00a0avisa que a palavra \u201csemi\u00f3tica\u201d, cortada do original por ser considerada herm\u00e9tica demais pelo primeiro editor, retorna agora ao texto. Curioso pensar que, uma d\u00e9cada depois do lan\u00e7amento de seu livro, a semi\u00f3tica se tornaria um instrumental quase hegem\u00f4nico, presente em boa parte das pesquisas te\u00f3ricas em fotografia que circularam pelo Brasil. Nomeando ou n\u00e3o essa disciplina, Arlindo Machado sempre soube explorar o potencial de an\u00e1lise oferecido pela semi\u00f3tica, sem precisar militar pela afirma\u00e7\u00e3o de seu vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico. O resultado disso \u00e9 \u2013 e continuou sendo em seus livros posteriores \u2013 uma escrita clara e generosa, que contribuiu para a aproxima\u00e7\u00e3o, rara at\u00e9 certo momento, entre artistas e o ambiente acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Possivelmente foi essa qualidade que levou seu primeiro editor a for\u00e7ar um subt\u00edtulo: <i>A Ilus\u00e3o especular \u2013 Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 fotografia<\/i>. Talvez muitos jovens leitores interessados em aprender a fotografar tenham se sentido enganados pela promessa ali anunciada. Em contrapartida, aqueles que insistiram na leitura podem ter se tornado fot\u00f3grafos mais cr\u00edticos e conscientes do sentido hist\u00f3rico da t\u00e9cnica que escolheram. Fato \u00e9 que, naquele momento, era estranho chamar de \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d uma das obras mais densas de teoria da fotografia dispon\u00edveis em l\u00edngua portuguesa (ao lado dos textos de Susan Sontag, Roland Barthes, Vil\u00e9m Flusser e Boris Kossoy, publicados na mesma d\u00e9cada). A nova edi\u00e7\u00e3o retoma o titulo proposto originalmente pelo autor, de fato, menos arriscado e mais preciso: <i>A ilus\u00e3o especular \u2013 Uma teoria da fotografia<\/i>.<\/p>\n<p>No livro, Arlindo Machado denuncia como uma esp\u00e9cie de \u201cmisticismo\u201d a cren\u00e7a na objetividade da fotografia e em sua fidelidade ao real. Demonstra tamb\u00e9m a dist\u00e2ncia entre o mundo visto pelo olho e aquele interpretado pela c\u00e2mera, mapeia o sentido hist\u00f3rico dos c\u00f3digos operados pela t\u00e9cnica, bem como os artif\u00edcios que a pr\u00f3pria linguagem adota para dissimul\u00e1-los. Ele n\u00e3o inventa sozinho as premissas dessa reflex\u00e3o: pode-se dizer que o que faz \u00e9 desdobrar e aplicar \u00e0 fotografia certas formula\u00e7\u00f5es j\u00e1 propostas pelas teorias semi\u00f3ticas (sobretudo a semi\u00f3tica russa) e por uma hist\u00f3ria social da arte, como a de Pierre Francastel e a de Erwin Panofsky. Vez ou outra, suas teorias pareciam ir na mesma dire\u00e7\u00e3o de autores encontrados em cita\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas, mas que ainda n\u00e3o haviam sido traduzidos, como Alain Bergala, Jean-Louis Baudry e Pierre Bourdieu. Mas o fato \u00e9 que nunca esse pensamento cr\u00edtico sobre a fotografia havia nos chegado de modo t\u00e3o claro e assertivo.<\/p>\n<div id=\"attachment_8657\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-8657\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-8657\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/11792016_945728485488385_1704105652862773119_o-1024x748-674x492.jpg\" alt=\"Henri Bureau, \u201cPrisa\u0303o de um agente da PIDE em Lisboa\u201d, 1974 (p\u00e1gina 120).\" width=\"674\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/11792016_945728485488385_1704105652862773119_o-1024x748-674x492.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/11792016_945728485488385_1704105652862773119_o-1024x748-360x263.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/11792016_945728485488385_1704105652862773119_o-1024x748-768x561.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/11792016_945728485488385_1704105652862773119_o-1024x748.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><p id=\"caption-attachment-8657\" class=\"wp-caption-text\">Henri Bureau, \u201cPrisa\u0303o de um agente da PIDE em Lisboa\u201d, 1974 (p\u00e1gina 120).<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1 uma resposta un\u00e2nime sobre a atualidade da teoria que Arlindo Machado desenvolve em seu livro. Ali\u00e1s, nunca houve qualquer unanimidade sobre as teorias da fotografia.<\/p>\n<p>Tivemos muitas idas e vindas entre pensamentos antag\u00f4nicos. Para ficar apenas num exemplo pr\u00f3ximo e emblem\u00e1tico: as teses de Barthes sobre os v\u00ednculos entre fotografia e realidade, contestadas por Machado, ganharam novos adeptos e foram relidas de modo mais ponderado por autores como Philippe Dubois (<i>O ato fotogr\u00e1fico<\/i>, Papirus, 1994) ou Jean-Marie Schaeffer (<i>A imagem prec\u00e1ria<\/i>, Papirus, 1996). Mais adiante, voltaram a ser duramente criticadas por Andr\u00e9 Rouill\u00e9 (<i>A fotografia \u2013 Entre documento e arte contempor\u00e2nea<\/i>, Senac, 2009). Independentemente das filia\u00e7\u00f5es que escolhemos, esses debates s\u00e3o saud\u00e1veis. Barthes foi se tornando um pensador cada vez mais importante em minhas pesquisas, mas devo admitir que foi a partir das cr\u00edticas que recebeu\u00a0que passei a l\u00ea-lo com mais profundidade (*).<\/p>\n<p>As teorias chamadas essencialistas (ou ontol\u00f3gicas), tamb\u00e9m suportadas pelo vocabul\u00e1rio semi\u00f3tico, apontaram para lugares divergentes ao se perguntar sobre a especificidade da fotografia diante das outras imagens: seria a fotografia a imagem mais fiel \u00e0 apar\u00eancia das coisas? Havendo ou n\u00e3o essa fidelidade, teria a fotografia um valor de testemunho por derivar de um contato f\u00edsico com o real? Ou nem a fidelidade, nem o testemunho: o que mais conta para a credibilidade e para a legibilidade da fotografia n\u00e3o seria apenas o modo como ela respeita certos c\u00e2nones afirmados pela tradi\u00e7\u00e3o? Se quisermos situar Arlindo Machado dentro deste debate, \u00e9 com esta \u00faltima vertente que o identificamos.<\/p>\n<p>Nunca houve uma resposta conciliadora para essas diverg\u00eancias. Houve, sim, certa exaust\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es essencialistas. E assume-se hoje que o impasse resultou menos do fracasso dessas teorias do que da pr\u00f3pria complexidade da fotografia como fen\u00f4meno cultural. \u00c9 algo que Arlindo Machado n\u00e3o deixa de observar na nota que acompanha a nova edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cientes disso, as teorias produzidas na virada do s\u00e9culo passaram a investir n\u00e3o tanto na busca de uma qualidade exclusiva da fotografia, mas, ao contr\u00e1rio, no modo como as linguagens podem dialogar entre si, como se abrem \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o rec\u00edproca e \u00e0s muitas formas de hibridiza\u00e7\u00e3o. Sem precisar contradizer as an\u00e1lises que trouxe em <i>A ilus\u00e3o especular<\/i>, essa mesma perspectiva \u00e9 reivindicada pelas pesquisas posteriores de Arlindo Machado sobre a fotografia, e tamb\u00e9m sobre o cinema, o v\u00eddeo, o livro, a televis\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es entre arte e novas tecnologias.<\/p>\n<p>Se relermos <i>A ilus\u00e3o especular<\/i> dentro desta nova chave, veremos que essa abertura j\u00e1 estava anunciada: ele pensa a fotografia a partir daquilo que essa imagem herda da pintura e daquilo que compartilha ainda com o cinema, linguagens mais dispostas a assumir seus artif\u00edcios ret\u00f3ricos e, al\u00e9m disso, mais afeitas \u00e0 ficcionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos buscar nessa obra a s\u00edntese que permitiria situ\u00e1-la num lugar preciso e datado, dentro de uma hist\u00f3ria das teorias fotogr\u00e1ficas. Mas esse \u00e9 um problema daqueles que est\u00e3o mais preocupados com a indexa\u00e7\u00e3o dos livros do que com sua leitura. Quem se dispuser a reler <i>A ilus\u00e3o especular<\/i> encontrar\u00e1 um conjunto de an\u00e1lises bastante sens\u00edvel, que permanece capaz de colocar quest\u00f5es sobre as imagens contempor\u00e2neas. E, se hoje dispomos de uma bibliografia mais farta, \u00e9 ainda por meio desse livro que muitos jovens estudantes conquistam algum n\u00edvel de perplexidade cr\u00edtica em seus olhares.<\/p>\n<p>No esfor\u00e7o de expor os c\u00f3digos com que a fotografia opera, Arlindo Machado percorre de modo amplo a t\u00e9cnica fotogr\u00e1fica para evidenciar um universo de efeitos que ela \u00e9 capaz de produzir: os v\u00e1rios modos de representar o tempo, a rela\u00e7\u00e3o complexa entre o espa\u00e7o representado e o recorte do enquadramento, os efeitos \u00f3ticos que ora renegam, ora emulam a experi\u00eancia do olhar, os v\u00e1rios sujeitos implicados na rela\u00e7\u00e3o do espectador com os retratos. A intimidade que o autor demonstra com as din\u00e2micas de produ\u00e7\u00e3o da fotografia projeta sua reflex\u00e3o para um campo pragm\u00e1tico: n\u00e3o foram poucos os artistas que reconheceram em seu livro o convite para um uso mais cr\u00edtico e menos dogm\u00e1tico da t\u00e9cnica da fotografia.<\/p>\n<p>A resposta sobre a atualidade de <i>A ilus\u00e3o especular<\/i> deve ser buscada dentro e fora de suas p\u00e1ginas. Nesses trinta anos, tivemos demonstra\u00e7\u00f5es suficientes de como essa reflex\u00e3o foi capaz de se renovar na produ\u00e7\u00e3o dos pesquisadores e artistas que ajudou a formar.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>* Resenha publicada originalmente no site da <a href=\"http:\/\/revistazum.com.br\/radar\/a-ilusao-especular\/\" target=\"_blank\">Revista Zum<\/a>. Nesta vers\u00e3o, o texto\u00a0recebeu algumas\u00a0atualiza\u00e7\u00f5es nos par\u00e1grafos indicados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sucesso de um livro \u00e9 normalmente medido pelo n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es que alcan\u00e7a. Mas esse racioc\u00ednio n\u00e3o vale para A ilus\u00e3o especular, de Arlindo Machado, publicado em 1984 numa parceria entre a editora Brasiliense e o Instituto Nacional de Fotografia da Funarte. Esgotado h\u00e1 d\u00e9cadas, sabemos que as universidades brasileiras nunca deixaram de incluir esse t\u00edtulo na bibliografia de seus cursos de comunica\u00e7\u00e3o e artes, e o texto permanece citado de modo recorrente nas disserta\u00e7\u00f5es e teses dedicadas \u00e0 fotografia. Somente agora, tr\u00eas d\u00e9cadas depois de seu lan\u00e7amento, A ilus\u00e3o especularganha uma segunda edi\u00e7\u00e3o pela Gustavo Gili Brasil. 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