{"id":855,"date":"2010-07-05T05:58:46","date_gmt":"2010-07-05T05:58:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=855"},"modified":"2016-05-28T14:31:09","modified_gmt":"2016-05-28T14:31:09","slug":"sofrimento-em-slow-motion-a-plasticidade-da-faltas-no-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sofrimento-em-slow-motion-a-plasticidade-da-faltas-no-futebol\/","title":{"rendered":"Sofrimento em slow motion: a plasticidade das faltas no futebol"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_856\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/dor_futebol1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-856\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-856\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/dor_futebol-280x178.jpg\" alt=\"Daniel Alves, foto de GABRIEL BOUYS, AFP\/Getty Images\" width=\"280\" height=\"178\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-856\" class=\"wp-caption-text\">Daniel Alves, Brasil x Costa do Marfim. Foto de Gabriel Bouys. AFP\/Getty Images.<\/p><\/div>\n<p>Nesta copa, me chamou a aten\u00e7\u00e3o a performance dos jogadores que sofrem falta. S\u00e3o incr\u00edveis as quedas: com a pot\u00eancia de uma corrida, um pequeno toque do advers\u00e1rio pode gerar um salto acrob\u00e1tico, uma cambalhota no ar, ou um v\u00f4o com bra\u00e7os e pernas projetados, terminando com uma sequ\u00eancia incr\u00edvel de rolamentos no ch\u00e3o. Claro, tamb\u00e9m o grito e a express\u00e3o de dor no rosto e, por algum tempo, a contor\u00e7\u00e3o ou a agita\u00e7\u00e3o desesperada. Talvez tenha sido sempre assim no futebol, a diferen\u00e7a est\u00e1 na nas tecnologias dispon\u00edveis, nas nossas TVs maiores, na qualidade da transmiss\u00e3o, na quantidade e na posi\u00e7\u00e3o das c\u00e2meras, no <em>super<\/em> <em>slow motion<\/em>, e nas c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas com <em>super fast burst<\/em>, que registram num \u00fanico segundo, e em alta resolu\u00e7\u00e3o, mais imagens que uma c\u00e2mera de v\u00eddeo, de modo que o detalhe decisivo sempre est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Imagino que essas performances envolvam duas coisas complementares, o sofrimento em si e a comunica\u00e7\u00e3o do sofrimento. N\u00e3o se trata da quest\u00e3o do fingimento, da simula\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00f5es que as c\u00e2meras tamb\u00e9m flagram, e que se tornam particularmente c\u00f4micas (<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ioyt2zzm530\" target=\"_blank\">o Youtube tem v\u00eddeos muito divertidos sobre isso<\/a>). Vamos nos deter sobre os casos em que a falta existiu, em que o movimento \u00e9 ao mesmo tempo verdadeiro e pl\u00e1stico, de modo que o atleta se torna um poeta: \u201cchega a fingir que \u00e9 dor a dor que deveras sente\u201d.<\/p>\n<p>O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o para essa performance da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 alguma coisa bastante expl\u00edcita: a maneira como as regras ainda s\u00e3o lembradas em meio \u00e0 irracionalidade da dor, quando o jogador se contorce e grita, ao mesmo tempo em que acena freneticamente com a m\u00e3o estendida, num gesto que pede claramente a aten\u00e7\u00e3o, seja do juiz, dos colegas, talvez das c\u00e2meras. Ele n\u00e3o esquece que seu sofrimento tem uma fun\u00e7\u00e3o no jogo, pode explicar o gol perdido, e render uma nova chance de gol, pode garantir a puni\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio, serve para gastar o tempo e segurar um resultado. Como h\u00e1 tempos as c\u00e2meras fazem parte do jogo, elas est\u00e3o ali para garantir a ades\u00e3o das massas a essas pequenas causas.<\/p>\n<p>Na vida, deve existir todo tipo de sofrimento, talvez seja um tra\u00e7o de personalidade, h\u00e1 os que sofrem de modo mais contido, os que xingam (mesmo os seres inanimados, como a quina do m\u00f3vel), h\u00e1 os que sofrem escandalosamente. Raramente vemos no futebol o sofrimento silencioso, retra\u00eddo, aquele que, por uma resposta instintiva \u00e0 dor, contrai e imobiliza todos os m\u00fasculos, cessa toda a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Susan Sontag, que perguntava sobre como nos portamos \u201cdiante da dor dos outros\u201d (ensaio de 2003), percebeu tamb\u00e9m que a presen\u00e7a das c\u00e2meras nas situa\u00e7\u00f5es de conflito e sofrimento agem sobre o fato. A quest\u00e3o se inverte: &#8220;como a dor dos outros se manifesta diante do nosso olhar?&#8221;, pergunta v\u00e1lida n\u00e3o apenas para as guerras, para o sofrimento coletivo que se desdobra em causa pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m para situa\u00e7\u00f5es mais ef\u00eameras. \u00c9 n\u00edtido o fato de que nossos rituais \u00edntimos de sofrimento tamb\u00e9m assimilam as estruturas de comunica\u00e7\u00e3o e a constante presen\u00e7a das c\u00e2meras.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3e sofre honestamente a perda de seu filho. Ela chora como tem que ser. Precisa ser amparada para se manter em p\u00e9. Uma c\u00e2mera de TV chega para mostrar de perto um sentimento universal que j\u00e1 compreend\u00edamos de longe. O rep\u00f3rter pergunta com voz solene aquilo que j\u00e1 sabemos: como voc\u00ea se sente? O sofrimento irracional n\u00e3o impede a mulher de lembrar o que \u00e9 a TV, ela sabe que tem um papel a cumprir, sabe que n\u00e3o basta sentir a dor, deve comunicar a dor. Ali ela encontra energia para um choro mais vigoroso, um grito angustiado, um pedido desesperado de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Essas situa\u00e7\u00f5es inevitavelmente levam \u00e0 pergunta: o sofrimento \u00e9 real? Ou \u00e9 uma encena\u00e7\u00e3o (um espet\u00e1culo, um simulacro)? Creio que as duas coisas ao mesmo tempo. \u00c9 fundamental discutir os limites dessa &#8220;exist\u00eancia como imagem&#8221;, mas a polariza\u00e7\u00e3o entre realidade e representa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre limitante. Somos seres simb\u00f3licos, pertencer a uma sociedade \u00e9 representar pap\u00e9is. Se n\u00e3o sabemos viver de outro modo, se isso \u00e9 da \u201cnatureza humana\u201d, somos verdadeiramente os pap\u00e9is que cumprimos. Sabemos que faz parte disso um conjunto de rituais consolidados que chamamos de cultura: a maneira como nos vestimos, como nos portamos, com quem andamos, como nos organizamos em coletividade, os lugares que frequentamos etc.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o agora \u00e9 pensar o quanto as tecnologias da imagem passam a ser assimiladas pelas estrat\u00e9gias inconscientes dessa auto-representa\u00e7\u00e3o. Incorporamos aquilo que elas s\u00e3o capazes de mostrar, nossos pap\u00e9is passam a ser constitu\u00eddos de detalhes, essa verdade da representa\u00e7\u00e3o se torna mais pl\u00e1stica, j\u00e1 considerando a possibilidade de ser vista de v\u00e1rios \u00e2ngulos, ampliadas,\u00a0dissecadas, congeladas, ou em <em>slow motion<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta copa, me chamou a aten\u00e7\u00e3o a performance dos jogadores que sofrem falta. 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