{"id":825,"date":"2010-06-20T19:30:22","date_gmt":"2010-06-20T19:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=825"},"modified":"2016-05-28T13:51:19","modified_gmt":"2016-05-28T13:51:19","slug":"desorientacoes-momentaneas-ou-estranhas-serenidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/desorientacoes-momentaneas-ou-estranhas-serenidades\/","title":{"rendered":"Desorienta\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas ou estranhas serenidades"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_826\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-826\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-826 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saggese_pittoresco_2-280x210.jpg\" alt=\"Antonio Saggese, Pittoresco.\" width=\"280\" height=\"210\" \/><p id=\"caption-attachment-826\" class=\"wp-caption-text\">Antonio Saggese, Pittoresco.<\/p><\/div>\n<p>Na contemporaneidade, quando tudo parece conhecido e banalizado, o fot\u00f3grafo A. Saggese prop\u00f5e uma nova reflex\u00e3o sobre a imagem fotogr\u00e1fica. Ao contr\u00e1rio dos seus trabalhos anteriores, quando a discuss\u00e3o era sobre uma fotografia tecnicamente precisa e exageradamente perfeita, exig\u00eancia de sua vis\u00e3o binocular, imperfeita, agora ele trabalha a partir de uma imagem digital gravada na mem\u00f3ria da c\u00e2mera. Isto significa que o registro n\u00e3o tem mais o compromisso com o referente.<\/p>\n<p>Saggese especula sobre a possibilidade da imagem representar mais do que nela est\u00e1 registrado. Relaciona intencionalmente natureza e beleza para evidenciar que a primeira continua criando formas extravagantes que ainda nos surpreendem pela espetaculariza\u00e7\u00e3o do belo. Suas fotografias s\u00e3o singelas, algumas comoventes, que perturbam exatamente por serem \u00f3bvias demais. Mas afinal o que vem a ser esta provoca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A nova s\u00e9rie, produzida nos \u00faltimos tr\u00eas anos, denominada <em>Pitoresco<\/em> trabalha exatamente nesta brecha desprotegida entre as varia\u00e7\u00f5es do imaginativo e do fant\u00e1stico. A pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o do conjunto j\u00e1 \u00e9 provocativa, ou seja, uma esp\u00e9cie de sutileza cr\u00edtica a fim de mostrar que o trabalho foi criado para ati\u00e7ar os questionamentos e as d\u00favidas, e n\u00e3o para cristalizar conceitos. Afinal, a id\u00e9ia primeira do Pitoresco nasce no movimento rom\u00e2ntico, final do s\u00e9culo XVIII (Ver <em>Ensaios sobre o Pitoresco<\/em>, de Uvedale Price, de 1795; <em>Um inqu\u00e9rito filos\u00f3fico sobre as origens das nossas id\u00e9ias do sublime e do belo<\/em>, de Edmund Burke, de 1757).<\/p>\n<p>Richard Payne Knight (1750 \u2013 1827, autor de <em>Principles of Taste, <\/em>de 1805) defende que o Pitoresco est\u00e1 baseado em valores de luz e cor; isto equivalia a uma antecipa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da dissolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria tem\u00e1tica concreta em puros efeitos coloristas, que seriam colocados em pr\u00e1tica de forma excepcional por pintores ingleses como William Turner (1775 \u2013 1851) e John Constable (1776 \u2013 1837). J\u00e1 Edmund Burke (1729 \u2013 1797) entende o termo Pitoresco como essencial para a compreens\u00e3o daquele momento, pois considera a paisagem como a \u201carena do sublime\u201d e a natureza selvagem e indom\u00e1vel como o \u201cpalco para ocorr\u00eancias emocionantes\u201d.<\/p>\n<p>Essa denomina\u00e7\u00e3o surgiu com o amadurecimento da id\u00e9ia inicial e as diversas discuss\u00f5es que Saggese teve comigo e com v\u00e1rios outros interlocutores. Num primeiro momento o conjunto de fotografias denominava-se <em>Natureza e Cultura<\/em>, e buscava n\u00e3o s\u00f3 relacionar os conceitos como tamb\u00e9m entender o pr\u00f3prio processo de trabalho. Ele constatou que as imagens t\u00e9cnicas de natureza produzida nas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o trazem mais o mist\u00e9rio nem a fascina\u00e7\u00e3o que tanto perturbavam os artistas e os escritores.<\/p>\n<p>Nesse sentido, seu trabalho foi concebido na dire\u00e7\u00e3o oposta, ou seja, criar imagens que recuperasse a for\u00e7a do espanto provocado pelo registro da natureza. Ele aprofundou a excitante experi\u00eancia de olhar e ver. Ver e registrar. Dar exist\u00eancia perp\u00e9tua a algo ef\u00eamero atrav\u00e9s de uma fotografia que capta esse universo indistinto em que luz e sombra n\u00e3o tem limites definidos.<\/p>\n<div id=\"attachment_836\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-836\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-836\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saggese_pittoresco_11-280x375.jpg\" alt=\"Ant\u00f4nio Saggese, Pittoresco\" width=\"280\" height=\"375\" \/><p id=\"caption-attachment-836\" class=\"wp-caption-text\">Antonio Saggese, Pittoresco<\/p><\/div>\n<p>A aten\u00e7\u00e3o de Saggese est\u00e1 voltada para as \u00e1guas e pedras, para os c\u00e9us e para as \u00e1rvores. Para ele, a fotografia torna-se a imagem mais adequada para apreciar esta natureza \u2018selvagem\u2019 em seu estado bruto, pois h\u00e1 uma penetrante intensidade e transitoriedade naquilo que \u00e9 registrado. Um mundo de sonhos e devaneios que emerge da misteriosa luminosidade da qual ele traduz com o m\u00e1ximo aproveitamento. Essa natureza flagrada em seu esplendor vigoroso e ca\u00f3tico permite agora este intrigante e harm\u00f4nico conjunto que provoca uma estranha serenidade.<\/p>\n<p>Nessa \u2018primitiva\u2019 atmosfera encontrada por Saggese, em diferentes tempos e em diferentes lugares os volumes s\u00e3o envoltos por suaves penumbras. A brancura ofuscante das nuvens ou das espumas das \u00e1guas turbulentas que explodem nas pedras cria efeitos m\u00e1gicos de luz, equil\u00edbrios de tons e cores, texturas difusas, desintegra\u00e7\u00e3o das formas. Uma esp\u00e9cie de apari\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea que gravadas tecnicamente na matriz digital, para an\u00e1lise e tratamento posterior denotam a incessante experimenta\u00e7\u00e3o do artista.<\/p>\n<p>As fotografias, enquadramentos e registros dentre muitas possibilidades, interrompem o fluxo temporal. A inten\u00e7\u00e3o do artista foi retirar todas as refer\u00eancias poss\u00edveis de lugar para permitir que a imagem fosse soberana. Os fluxos de \u00e1guas, o movimento, as for\u00e7as que atuam constantemente no cotidiano, as puls\u00f5es naturais, tudo registrado para que a imagem traga a verdadeira beleza que se revela ao acaso. Saggese quer oferecer para o espectador a possibilidade de estender o vis\u00edvel percept\u00edvel para o vis\u00edvel transformado, ou seja, o que ficou gravado na matriz e posteriormente tornado vis\u00edvel novamente, \u00e9 o registro da a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da natureza.<\/p>\n<p>As imagens impressas nos transportam para outra dimens\u00e3o do tempo. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil deixar de interagir, pois elas se tornaram concep\u00e7\u00f5es visuais po\u00e9ticas que remetem invariavelmente \u00e0 nostalgia do passado. Mas temos que considerar que o artista procurou se posicionar num local espec\u00edfico, e atribuir import\u00e2ncia ao seu ponto de vista para criar a dist\u00e2ncia adequada em rela\u00e7\u00e3o ao objeto e harmonizar a escala. Essa constru\u00e7\u00e3o visual permite que a fotografia gravada na c\u00e2mera seja singular exatamente pela sua literalidade descritiva.<\/p>\n<p>Saggese tamb\u00e9m desenvolveu na p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o uma meticulosa pesquisa para poder dar \u00e0 impress\u00e3o das imagens um acabamento que a aproximasse do registro vis\u00edvel da tela luminosa. E durante o processo levantou in\u00fameras quest\u00f5es. Uma delas, parte da id\u00e9ia de que a impressora pinta, pois \u00e9 uma esp\u00e9cie de aer\u00f3grafo computadorizado. Diante disso, o artista questiona: o resultado \u00e9 uma fotografia ou uma pintura?<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante discutida pelo artista \u00e9 sua compreens\u00e3o da fotografia digital como o imp\u00e9rio do artif\u00edcio. N\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia de artif\u00edcio enquanto processo artesanal; mas artif\u00edcio como um recurso engenhoso, uma artimanha. No caso da fotografia digital, o registro de luz e sombra \u00e9 eletronicamente traduzido em c\u00f3digo (0\/1). A consequ\u00eancia \u00e9 que cada pixel individual pode ser transformado pela simples altera\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo. E as eventuais altera\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam rastros na imagem final. Portanto, ao vermos um ensaio como este, produzido digitalmente, n\u00e3o sabemos quantificar o quanto de interven\u00e7\u00e3o foi necess\u00e1rio. E se isso realmente acontece, o que pode significar?<\/p>\n<p>O fim da fotografia documental, aquela associada \u00e0 id\u00e9ia de verdade, n\u00e3o nos permite concluir que toda a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 falsa e fantasiosa. Roland Barthes defende que toda fotografia est\u00e1 colada no seu referente (<em>A C\u00e2mara Clara<\/em>, 1981). Claro est\u00e1 que os v\u00e1rios te\u00f3ricos que defendem a indexicalidade da fotografia, diante da nova produ\u00e7\u00e3o digital, h\u00e1 de se questionar. Afinal, parte significativa da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 digital e isso implica em tratamento de imagem e visualidades transformadas. Nesta s\u00e9rie <em>Pitoresco<\/em> o referente, segundo Saggese, deixa de ser o mundo vis\u00edvel, o real existente, e passa a ser as gravuras japonesas, a obra do artista venezuelano Armando Rever\u00f3n, os c\u00e9us de Hercule Florence, as nuvens de Alfred Stieglitz na s\u00e9rie <em>Equivalentes<\/em>, e tudo o que essa tem\u00e1tica detona em seu repert\u00f3rio imag\u00e9tico.<\/p>\n<p>Saggese, por seu conhecimento t\u00e9cnico na fotografia fotoqu\u00edmica e na digital, por sua reflex\u00e3o constante sobre imagem e seus desdobramentos, d\u00e1 relev\u00e2ncia a essas quest\u00f5es. Mas tem consci\u00eancia que como artista quer aprofundar a discuss\u00e3o da quest\u00e3o cultural da fotografia e neste trabalho em particular teve a clara inten\u00e7\u00e3o de ir al\u00e9m do assunto ao desterritorializar a imagem. Ele buscou um enquadramento que n\u00e3o nos permite identificar com clareza a linha do horizonte. Estamos \u00e0 merc\u00ea de imagens que invadem nossa percep\u00e7\u00e3o e nos deixa perplexos, desorientados momentaneamente.<\/p>\n<p>A fotografia de Saggese, sintonizada com a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e neopictorialista, produz visualidades singulares, claridade e transpar\u00eancia, opacidades e riqueza de detalhes, aparente neutralidade e altera\u00e7\u00f5es tonais, texturas difusas e luz, cor, profundidade. E tamb\u00e9m provoca uma s\u00e9rie de estranhamentos que instiga nossa compreens\u00e3o de divino na natureza. Fotografias que foram concebidas para exaltar o extraordin\u00e1rio no cotidiano banal, s\u00f3 para provar que tornar vis\u00edvel \u00e9 muitas vezes provocar a vertigem necess\u00e1ria para conferir beleza \u00e0 realidade imediata.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o <strong>Pittoresco<\/strong>, de Antonio Saggese est\u00e1 no Instituto Tomie Ohtake, de 15 de junho a 25 de julho \u2013 de ter\u00e7a a domingo, das 11 \u00e0s 20 horas. Este texto integra o cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na contemporaneidade, quando tudo parece conhecido e banalizado, o fot\u00f3grafo A. Saggese prop\u00f5e uma nova reflex\u00e3o sobre a imagem fotogr\u00e1fica. 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