{"id":807,"date":"2010-06-06T15:06:17","date_gmt":"2010-06-06T15:06:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=807"},"modified":"2016-05-28T13:51:45","modified_gmt":"2016-05-28T13:51:45","slug":"futebol-e-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/futebol-e-fotografia\/","title":{"rendered":"Futebol e fotografia"},"content":{"rendered":"<p>Em semana de Copa do Mundo \u00e9 inevit\u00e1vel falar de futebol. H\u00e1 algumas semanas, fiz um coment\u00e1rio sobre <strong><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=677\" target=\"_blank\">Teatro e Fotografia<\/a><\/strong>, quando defendi que o fot\u00f3grafo tem uma participa\u00e7\u00e3o diminuta na constru\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica teatral, j\u00e1 que h\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o de cena, a ilumina\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o corporal, entre outras vari\u00e1veis que n\u00e3o s\u00e3o de seu controle e responsabilidade. No caso de um jogo de futebol, em que supostamente predomina a imprevisibilidade, a aten\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo \u00e9 fundamental para o registro do instante decisivo e ef\u00eamero da partida.<\/p>\n<p>Afora o estilo dos t\u00e9cnicos e dos jogadores, nada num jogo de futebol pode ser previsto. \u00c9 exatamente isso que move in\u00fameros profissionais que se dedicam a flagrar os momentos mais fascinantes de uma partida \u2013 exatamente aqueles que mudam o rumo da hist\u00f3ria do jogo. E n\u00e3o precisa ser necessariamente o momento do gol. Aqui entra uma quest\u00e3o interessante, pois os jogadores sabem de antem\u00e3o que est\u00e3o sendo registrados em v\u00eddeo e fotografia. Ser\u00e1 que, diante disso, n\u00e3o poder\u00edamos supor alguma previsibilidade gestual?<\/p>\n<p>Roland Barthes, em seu cl\u00e1ssico <em>A C\u00e2mara Clara<\/em> defende que \u201ca partir do momento em que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: preparo-me para a pose, fabrico instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem\u201d. No caso de um jogo de futebol \u00e9 quase imposs\u00edvel prever ou pr\u00e9-visualizar algum lance, sendo assim, como poderia o jogador \u201cfabricar\u201d alguma pose ou anunciar algum gesto?<\/p>\n<div id=\"attachment_808\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Leonidas-Bicicleta1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-808\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-808\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Leonidas-Bicicleta-280x209.jpg\" alt=\"Bicicleta de Le\u00f4nidas da Silva, autoria n\u00e3o identificada\" width=\"280\" height=\"209\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-808\" class=\"wp-caption-text\">Bicicleta de Le\u00f4nidas da Silva, autoria n\u00e3o identificada<\/p><\/div>\n<p>Por exemplo, esta fotografia ao lado (infelizmente n\u00e3o encontrei a autoria) teria sido a primeira imagem flagrada do consagrado lance criativo \u2013 uma bicicleta \u2013 de Le\u00f4nidas da Silva, o \u201cDiamante Negro\u201d do futebol brasileiro, no Est\u00e1dio do Pacaembu, em 1942. Seria inimagin\u00e1vel alguma combina\u00e7\u00e3o pr\u00e9via entre o jogador e o fot\u00f3grafo. Na realidade, ao olharmos admirados para esta fotografia, o que devemos valorizar \u00e9 a perspic\u00e1cia do fot\u00f3grafo que atento ao jogo documentou um lance at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito no futebol mundial. O jogador de costas para o gol tenta surpreender o goleiro com um movimento imprevis\u00edvel. O que vemos na fotografia \u00e9 o instante detido no inexor\u00e1vel fluxo de tempo. E a imagem consagra o lance e o jogador.<\/p>\n<div id=\"attachment_809\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Pel\u00e9-bicicleta1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-809\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-809\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Pel\u00e9-bicicleta-280x189.jpg\" alt=\"Domicio Pinheiro\" width=\"280\" height=\"189\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-809\" class=\"wp-caption-text\">Alberto Ferreira, bicicleta de Pel\u00e9<\/p><\/div>\n<p>Anos mais tarde, Pel\u00e9 repete a cena com uma precis\u00e3o milim\u00e9trica. \u00c9 uma bicicleta mais elaborada, do mais puro virtuosismo, mas t\u00e3o surpreendente como a do Le\u00f4nidas. Esta fotografia \u00e9 de autoria de Alberto Ferreira, que trabalhou por 30 anos no Jornal do Brasil, sendo por 25 anos editor de fotografia. Essa imagem foi realizada no Maracan\u00e3, num jogo entre Brasil e B\u00e9lgica, em 1965. A precis\u00e3o que podemos observar na fotografia, n\u00e3o \u00e9 a mesma das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. Mas n\u00e3o fosse esta fotografia, como poder\u00edamos descrever esse movimento, esse \u00e2ngulo reto entre a perna direita e o corpo paralelo ao gramado, o zagueiro at\u00f4nito e ao fundo a arquibancada do est\u00e1dio? Palavras insuficientes para a grandeza da imagem.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo coloca-se no campo de futebol e, quase sempre, acompanha o jogo atrav\u00e9s da sua teleobjetiva, registrando os momentos que acredita ser detonadores de percep\u00e7\u00f5es singulares. No livro <em>M\u00e1quina de Esperar \u2013 origem e est\u00e9tica da fotografia moderna<\/em>, Mauricio Lissovsky prop\u00f5e uma ampla reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o do tempo no instant\u00e2neo fotogr\u00e1fico e traz uma contribui\u00e7\u00e3o diferenciada para a an\u00e1lise da fotografia. Vale a pena conferir.<\/p>\n<p>Sabemos que a representa\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica associa-se ao tempo. Quando revisitamos algumas fotografias da hist\u00f3ria do futebol \u00e9 percept\u00edvel o controle excessivo do tempo da cena, claro, sem descaracterizar a beleza do registro. Sabemos que as c\u00e2meras mais antigas eram desprovidas de foco autom\u00e1tico e de dispositivos t\u00e9cnicos que pudessem garantir o documento fotogr\u00e1fico, da\u00ed a necessidade de estar atento e manter o r\u00edgido dom\u00ednio das vari\u00e1veis. Barthes n\u00e3o apreciava esses fot\u00f3grafos justamente pelo excesso de controle. Mas o que seria do futebol caso n\u00e3o tiv\u00e9ssemos esses fot\u00f3grafos que acompanham atentamente a bola e o movimento dos jogadores a fim de documentar para a posteridade o momento ext\u00e1tico (de \u00eaxtase) de um jogo?<\/p>\n<p>Para lembrar alguns dos grandes nomes da fotografia futebol\u00edstica, citamos Dom\u00edcio Pinheiro (1922-1998) que acompanhou Pel\u00e9 em todos os seus grandes momentos; Reginaldo Manente, rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico do <em>Jornal da Tarde<\/em> que publicou em 1982 o menino chorando ap\u00f3s o Brasil perder a Copa da Espanha; o saudoso fot\u00f3grafo ga\u00facho J. B. Scalco (1951-1983) em suas memor\u00e1veis fotografias publicadas na revista <em>Placar<\/em> na d\u00e9cada de setenta; e mais recentemente temos Ricardo Correa e Alexandre Battibugli (lembra-se da fotografia do campo de futebol com uma \u00e1rvore no meio dele?), ambos da editora Abril.<\/p>\n<div id=\"attachment_810\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Maracan\u00e3-Jos\u00e9-Medeiros-19501.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-810\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-810\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Maracan\u00e3-Jos\u00e9-Medeiros-1950-280x297.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Medeiros, Maracan\u00e3, 1950\" width=\"280\" height=\"297\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-810\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Medeiros, Maracan\u00e3, 1950<\/p><\/div>\n<p>Mas, dentre todas as fotografias de futebol, a que mais me comove \u00e9 a de Jos\u00e9 Medeiros, realizada no Maracan\u00e3, na Copa de 1950, na final entre o Brasil e o Uruguai, em que perdemos o t\u00edtulo. Jos\u00e9 Medeiros disse-me sobre esta fotografia numa entrevista feita na cidade de Ouro Preto, em 1987, por ocasi\u00e3o da VI Semana Nacional de Fotografia: \u201cquando encerrou o jogo, todos buscavam fotografar o desespero dos jogadores brasileiros; ent\u00e3o resolvi inverter a prioridade e fotografar os fot\u00f3grafos que buscavam registrar as mesmas cenas\u201d. Ao inverter o centro de aten\u00e7\u00e3o naquele momento, Medeiros demonstrou sensibilidade e colocou em evid\u00eancia os profissionais preocupados em registrar o desespero dos nossos jogadores derrotados, mas tamb\u00e9m emocionados demais para pensar numa imagem que n\u00e3o fosse o senso comum.<\/p>\n<p>Hoje, mesmo com as c\u00e2meras cada vez mais automatizadas e a grava\u00e7\u00e3o do jogo em diferentes m\u00eddias, a fotografia continua a atrair os olhares de todo o mundo. \u00c9 ela quem consagra o momento espetacular, que exalta o gesto fenomenal, que inspira e entusiasma os amadores, que traduz a emo\u00e7\u00e3o do lance e d\u00e1 autenticidade ao instante evanescente. Nossa expectativa \u00e9 que nesta edi\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo de Futebol, na \u00c1frica do Sul, novas fotografias sejam incorporadas \u00e0 hist\u00f3ria. Vamos aguardar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em semana de Copa do Mundo \u00e9 inevit\u00e1vel falar de futebol. H\u00e1 algumas semanas, fiz um coment\u00e1rio sobre Teatro e Fotografia, quando defendi que o fot\u00f3grafo tem uma participa\u00e7\u00e3o diminuta na constru\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica teatral, j\u00e1 que h\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o de cena, a ilumina\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o corporal, entre outras vari\u00e1veis que n\u00e3o s\u00e3o de seu controle e responsabilidade. No caso de um jogo de futebol, em que supostamente predomina a imprevisibilidade, a aten\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo \u00e9 fundamental para o registro do instante decisivo e ef\u00eamero da partida. 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