{"id":7971,"date":"2014-05-13T10:01:07","date_gmt":"2014-05-13T10:01:07","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=7971"},"modified":"2022-12-04T13:29:49","modified_gmt":"2022-12-04T13:29:49","slug":"canal-do-panama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/canal-do-panama\/","title":{"rendered":"Canal do Panam\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>Herv\u00e9 Guibert havia enviado uma pequena carta a Roland Barthes, pedindo para tirar um retrato do escritor em companhia da m\u00e3e. Barthes quase n\u00e3o sa\u00eda de casa naquela \u00e9poca, desdobrando-se em cuidar da matriarca, j\u00e1 bem doente. Tocava piano, confortando-a. N\u00e3o obteve resposta.\u00a0 Passada pouco mais de uma semana, ligou para saber se a carta havia chegado. Era sempre a m\u00e3e que atendia o telefone. Desta vez foi o filho: &#8220;E voc\u00ea n\u00e3o sabe que ela morreu faz dez dias?&#8221; N\u00e3o sabia. Sua carta havia chegado \u00e0 casa de Barthes, por uma coincid\u00eancia infeliz, no momento do falecimento de <i>maman<\/i>. Essa hist\u00f3ria \u00e9 uma das pouco mais de sessenta narrativas que comp\u00f5em <i>A Imagem fantasma<\/i>, escritas em resposta \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de <i>A C\u00e2mara Clara<\/i>.\u00a0 Um livro sobre imagens falhadas ou nunca feitas, um conjunto de rumina\u00e7\u00f5es autobiogr\u00e1ficas publicado em 1982, poucos anos antes de seus conhecido romance sobre os \u00faltimos dias de Michel Foucault (<i>Ao Amigo que n\u00e3o me salvou a vida<\/i>).<\/p>\n<div id=\"attachment_7975\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Guibert_Foucault_1981_BW.gif\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7975\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7975 size-full\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Guibert_Foucault_1981_BW.gif\" alt=\"Herv\u00e9 Guibert. Michel, 1979\" width=\"500\" height=\"323\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7975\" class=\"wp-caption-text\">Herv\u00e9 Guibert. Michel, 1979<\/p><\/div>\n<p>Cruzei o Canal do Panam\u00e1, voando do M\u00e9xico para o Brasil, enquanto terminava a leitura desse livro. E logo a seguir, antes de aterrissar no Rio de Janeiro, j\u00e1 havia atravessado o primeiro cap\u00edtulo de <i>Diferen\u00e7as<\/i>, de Goran Petrovic, um dos mais respeitados escritores s\u00e9rvios da atualidade. O tema de Petrovic tamb\u00e9m s\u00e3o fotografias. Tal como no livro de Guibert, ningu\u00e9m as v\u00ea. S\u00e3o 22, cada uma delas servindo de pretexto a pequenas fic\u00e7\u00f5es autobiogr\u00e1ficas relacionadas a eventos transcorridos em cada ano de vida do autor. O cap\u00edtulo encerra quando o protagonista, aos 22 anos, renuncia ao sonho de se tornar fot\u00f3grafo e publica seu primeiro conto em uma revista liter\u00e1ria.<\/p>\n<div id=\"attachment_7972\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014.jpg\" data-size=\"2048x1536\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7972\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-7972\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014-674x506.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014-674x506.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014-360x270.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Canal-do-Panam\u00e1-abril-de-2014.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7972\" class=\"wp-caption-text\">Canal do Panam\u00e1, 2014<\/p><\/div>\n<p>Entre fotografia e literatura h\u00e1 sempre uma dist\u00e2ncia oce\u00e2nica. Alguns escritores, como Guibert, praticaram as duas artes simultaneamente. V\u00e1rios, como Petrovic, abdicaram do projeto fotogr\u00e1fico para se dedicar integralmente \u00e0 literatura. Bem poucos, como Juan Rulfo, tendo lan\u00e7ado apenas dois livros \u00a0\u2013 e considerado por muitos o melhor autor mexicano do s\u00e9culo XX \u2013, optaram pela c\u00e2mera em detrimento da m\u00e1quina de escrever.<\/p>\n<div id=\"attachment_7973\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo.jpg\" data-size=\"1524x1530\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7973\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-7973\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-674x677.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"677\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-674x677.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-360x361.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-768x771.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/jrulfo.jpg 1524w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7973\" class=\"wp-caption-text\">Juan Rulfo. M\u00e9xico, s\/d.<\/p><\/div>\n<p>Entre fotografia e literatura h\u00e1 sempre uma dist\u00e2ncia e uma travessia. Quando uma foto est\u00e1 pronta para fazer essa viagem? Minha av\u00f3 L. trouxe da Litu\u00e2nia para o Brasil seu \u00e1lbum de fotos de mocinha, suas recorda\u00e7\u00f5es de adolescente. Meu av\u00f4 j\u00e1 vivia no Rio de Janeiro, depois de ter trabalhado por um ano no Panam\u00e1. Talvez j\u00e1 tivessem se casado em alguma cidade da Ucr\u00e2nia \u2013 ou ela veio para se casar no Brasil, n\u00e3o sei bem. Ela n\u00e3o se deu ao trabalho de legendar nenhuma das imagens, pois devia sab\u00ea-las de cor. Algumas, impressas como cart\u00f5es-postais, carregam mensagens no verso, escritas em alfabetos e l\u00ednguas que ningu\u00e9m na fam\u00edlia mais l\u00ea. Acredito que talvez tenha chegado para algumas delas, a hora da travessia.<\/p>\n<div id=\"attachment_7974\" style=\"width: 332px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Berlin-1911-12.jpg\" data-size=\"701x1088\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7974\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7974 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Berlin-1911-12-322x500.jpg\" alt=\"\" width=\"322\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Berlin-1911-12-322x500.jpg 322w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Berlin-1911-12-580x900.jpg 580w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Berlin-1911-12.jpg 701w\" sizes=\"(max-width: 322px) 100vw, 322px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7974\" class=\"wp-caption-text\">Berlim, c. 1912<\/p><\/div>\n<p>Essa foto, provavelmente feita em Berlim entre 1911 e 1912, sempre foi a que mais me fascinou. Minha av\u00f3 costumava passar f\u00e9rias na Alemanha antes da Grande Guerra, onde tinha parentes. Cheguei a imaginar que o pr\u00e9dio correspondesse \u00e0 c\u00e9lebre farm\u00e1cia que pertenceu \u00e0 irm\u00e3. A mesma em que, menos de trinta anos depois, o cunhado iria suicidar-se com cianureto quando a pol\u00edcia veio busc\u00e1-lo para deporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 uma farm\u00e1cia. Ao que tudo indica, \u00e9 um restaurante. A fam\u00edlia do propriet\u00e1rio e os vizinhos vieram para a cal\u00e7ada para sair na foto. Em todos os andares, inclusive nas \u00e1guas-furtadas, h\u00e1 gente que posa\u00a0 nas janelas. Ter\u00e3o sido chamados aos gritos da rua? Ou uma das crian\u00e7as passou de porta em porta para avisar que o fot\u00f3grafo\u00a0 havia chegado? Ter\u00e1 sido um desses meninos irrequietos, sem paci\u00eancia para posar por tempo suficiente? \u00a0O guarda da rua fez quest\u00e3o de n\u00e3o interromper a caminhada vigilante, garantia da tranquilidade dos cidad\u00e3os; ao contr\u00e1rio do elegante cavalheiro de chap\u00e9u-coco que por ali passava e jamais se permitiria a indignidade de uma figura borrada. Ser\u00e1 que receberam c\u00f3pias da foto? Ou foi-lhes suficiente imaginar que, um s\u00e9culo depois, algu\u00e9m, em alguma parte do mundo,\u00a0 iria olhar para eles e perguntar-se sobre seus sonhos?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o havia elevadores, os andares baixos eram os mais nobres \u2013 os bras\u00f5es e outros elementos decorativos da fachada assim o demonstram. Todos parecem felizes e tranquilos nesta tarde de ver\u00e3o, particularmente o propriet\u00e1rio, cujo sorriso se entrev\u00ea, por tr\u00e1s do bigode, enquanto apoia a elegante bengala na cal\u00e7ada. Ao lado, seu pai ostenta uma pesada corrente de rel\u00f3gio no colete. Logo em seguida ir\u00e1 tirar o cebol\u00e3o do bolso para certificar-se de quanto tempo o fot\u00f3grafo molengo roubou-lhe aos neg\u00f3cios. Em muitas fotografias de Augusto Malta, no Rio Janeiro, feitas na mesma \u00e9poca, \u00e9 poss\u00edvel ver fam\u00edlias inteiras posando diante de suas casas e lojas. H\u00e1 quem diga que o fot\u00f3grafo da prefeitura usava desse subterf\u00fagio para disfar\u00e7ar que a verdadeira inten\u00e7\u00e3o da imagem era avaliar a situa\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis que estavam destinados \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o. Tudo para o bem da reforma urbana da capital. Quem sorriria condescendente para um fot\u00f3grafo que anunciava sua destrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Quando minha av\u00f3 colocou essa fotografia em seu \u00e1lbum de menina, divertindo-se talvez com o tio bigodudo e sonhando com as pr\u00f3ximas f\u00e9rias na cidade grande, nenhum dos habitantes do No. 52 podia imaginar que em pouco mais de tr\u00eas d\u00e9cadas Berlim, com seus restaurantes e farm\u00e1cias, estaria em ru\u00ednas. E que todas essas crian\u00e7as estariam mortas, nos campos de batalha ou de exterm\u00ednio.\u00a0 E no entanto, ainda hoje, cada uma das 36 janelas desse edif\u00edcio \u2013 janelas que se abriram para um fot\u00f3grafo que chegara com a luz do dia \u2013 guarda uma hist\u00f3ria por ser contada. Em cada janela, uma fotografia pronta para atravessar o Canal do Panam\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herv\u00e9 Guibert havia enviado uma pequena carta a Roland Barthes, pedindo para tirar um retrato do escritor em companhia da m\u00e3e. Barthes quase n\u00e3o sa\u00eda de casa naquela \u00e9poca, desdobrando-se em cuidar da matriarca, j\u00e1 bem doente. Tocava piano, confortando-a. N\u00e3o obteve resposta.\u00a0 Passada pouco mais de uma semana, ligou para saber se a carta havia chegado. Era sempre a m\u00e3e que atendia o telefone. Desta vez foi o filho: &#8220;E voc\u00ea n\u00e3o sabe que ela morreu faz dez dias?&#8221; N\u00e3o sabia. Sua carta havia chegado \u00e0 casa de Barthes, por uma coincid\u00eancia infeliz, no momento do falecimento de maman. 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