{"id":793,"date":"2010-05-30T14:29:22","date_gmt":"2010-05-30T14:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=793"},"modified":"2016-05-28T14:31:52","modified_gmt":"2016-05-28T14:31:52","slug":"vou-ao-cinema-nao-escapo-da-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/vou-ao-cinema-nao-escapo-da-fotografia\/","title":{"rendered":"Vou ao cinema, n\u00e3o escapo da fotografia"},"content":{"rendered":"<p>Tenho falado muito sobre cinema aqui no blog. Vejo filmes sem muita pretens\u00e3o mas, onde houver uma brecha, acabo buscando a fotografia. E muitas vezes encontro.<\/p>\n<p>Na semana passada, fui ver \u201cViajo porque preciso, volto porque te amo\u201d sem ter a menor id\u00e9ia do que se tratava. Fui por um motivo bom: gosto dos diretores Karin Ainouz, de \u201cMadame Sat\u00e3\u201d e \u201cO c\u00e9u de Suely\u201d, e Marcelo Gomes, de \u201cCinema, Aspirina e Urubus\u201d. E um motivo n\u00e3o t\u00e3o bom: num cinema de shopping, era a chance de encontrar uma sala mais tranq\u00fcila (n\u00e3o precisava tanto: exatas dez pessoas).<\/p>\n<p>O pretexto \u00e9 a hist\u00f3ria de um ge\u00f3logo que, ainda muito preso ao amor por uma mulher, parte sozinho numa viagem de trabalho pelas terras in\u00f3spitas do sert\u00e3o brasileiro. O que vemos \u00e9 uma colagem de fragmentos de paisagens e registros quase etnogr\u00e1ficos, boa parte deles filmados em super 8 (ou tratados para assim parecer), amarrados pela voz do personagem que conversa consigo mesmo sobre a solid\u00e3o e o abandono. Numa esp\u00e9cie de <em>roadmovie<\/em>, os fins-de-mundo por onde ele passa servem como met\u00e1fora desses sentimentos.<\/p>\n<p>O resultado pode ser frustrante pra quem busca um filme, mas \u00e9 de encher os olhos pra quem gosta de imagens, numa perspectiva mais ampla. Um olhar formado pela fotografia tem, por exemplo, uma boa disposi\u00e7\u00e3o para deter-se sobre imagens que perduram longamente, assim como para dar grandes saltos, coisa que essa obra exige. Das poucas pessoas na sala, algumas ficavam impacientes quando a hist\u00f3ria n\u00e3o fluia com a linearidade esperada. Pra mim, bastaria o pensamento constru\u00eddo pelas imagens. Ali\u00e1s, era a narrativa que \u00e0s vezes sobrava, como um esfor\u00e7o para arrancar uma trama de algo que nasceu despretensioso.<\/p>\n<p>Mas o texto \u00e9 cuidadoso. Como as imagens, as falas s\u00e3o uma cole\u00e7\u00e3o de pensamentos fragment\u00e1rios. E mesmo quando o filme assume um ar documental, sabe evitar ju\u00edzos de valor que, no cinema nacional, quase sempre resulta num tom de den\u00fancia ou de deslumbramento.<\/p>\n<p>A fotografia est\u00e1 l\u00e1, muito presente. Em algumas passagens, a hist\u00f3ria se constr\u00f3i efetivamente a partir de imagens est\u00e1ticas. Em outras tantas, a cena \u00e9 t\u00e3o im\u00f3vel e pregnante que o olhar se assume facilmente como diante uma fotografia. E alguns movimentos s\u00e3o t\u00e3o sutis e delicados, que parecem \u201cfotografias que respiram\u201d (emprestando o termo de <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/gustavopellizzon\/\" target=\"_blank\">Gustavo Pellizzon<\/a>).<\/p>\n<p>Lembrei logo de alguns pioneiros do que exploram a fotografia no cinema. Lembrei de Marcelo Tassara, principalmente de <em>Abeladormecida<\/em>, pelo sotaque da fala e das imagens (no caso de Tassara, uma \u00fanica imagem, com texto adaptado de James Joyce), pela forma como a c\u00e2mera passeia sobre uma cena est\u00e1tica, e pelo modo como o t\u00edtulo surge: \u201cA Bela Adormecida\u201d e \u201cViajo porque preciso, volto porque te amo\u201d s\u00e3o frases que a c\u00e2mera descobre em algum canto do filme (para conhecer esse cineasta, vale ler o artigo de <a href=\"http:\/\/www.studium.iar.unicamp.br\/29\/6.html\" target=\"_blank\">\u00c9rico Elias, na <em>Studium<\/em><\/a>). Claro, lembrei tamb\u00e9m de <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=116\" target=\"_blank\">Chris Marker<\/a>, pelo despojamento \u2013 ou falta de purismo \u2013 t\u00e9cnico, pela mescla de document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o, pela forma como as imagens e as palavras se descolam e se reencontram, pelo modo como um pensamento se articula na apropria\u00e7\u00e3o de imagens desconexas.<\/p>\n<p>Foi uma boa surpresa sair de casa sem expectativas e encontrar um filme como esse. \u00c9 um trabalho que poderia estar numa galeria ou numa mostra de v\u00eddeo. Mas seria mais \u00f3bvio, porque j\u00e1 encontraria olhares bem adaptados. Vale o desafio de coloc\u00e1-lo no cinema, de formar um p\u00fablico lentamente, mesmo que seja de dez em dez pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho falado muito sobre cinema aqui no blog. Vejo filmes sem muita pretens\u00e3o mas, onde houver uma brecha, acabo buscando a fotografia. E muitas vezes encontro. 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