{"id":7903,"date":"2014-04-15T13:10:51","date_gmt":"2014-04-15T13:10:51","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=7903"},"modified":"2016-12-29T15:14:29","modified_gmt":"2016-12-29T15:14:29","slug":"a-escola-e-a-fabula-da-camera-total-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-escola-e-a-fabula-da-camera-total-parte-i\/","title":{"rendered":"A escola e a f\u00e1bula da c\u00e2mera total"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_7925\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/eyes_moc_metropolis_blu-ray.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7925\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7925 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/eyes_moc_metropolis_blu-ray.jpg\" alt=\"Fritz Lang, fotograma do filme Metr\u00f3polis, 1927\" width=\"650\" height=\"480\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7925\" class=\"wp-caption-text\">Fritz Lang, fotograma do filme Metr\u00f3polis, 1927<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 alguns dias, uma aluna contou em sala, na Universidade de Bras\u00edlia, uma sequ\u00eancia de fatos recentes ocorridos na turma em que \u00e9 professora, segunda s\u00e9rie do ensino fundamental, numa escola p\u00fablica do Plano Piloto do Distrito Federal. Seu depoimento gerou um debate interessante acerca das imagens que nos s\u00e3o sincr\u00f4nicas no regime de visibilidade contempor\u00e2neo e sua rela\u00e7\u00e3o com a escola; debate daqueles que nos fazem ficar um bom tempo refletindo sobre eles. Meses; \u00e0s vezes anos. Pois bem, um furto deu in\u00edcio aos eventos.<\/p>\n<p>O dinheiro da carteira de um dos alunos da escola \u2013 que t\u00eam em m\u00e9dia oito ou nove anos \u2013 tinha desaparecido dentro da sala. O fato gerou uma s\u00e9rie de desconfortos, conversas, discuss\u00f5es r\u00edspidas entre pais, alunos, professores e diretora. Em primeiro lugar, a professora tratou de colocar o furto em discurso. O \u201cladr\u00e3o\u201d deveria \u2013 segundo minha aluna \u2013 confessar seu ato e tudo, ent\u00e3o, voltaria ao normal. A t\u00e9cnica da confiss\u00e3o, como nas escolas disciplinares descritas por Foucault, foi evocada como dever fundamental para o bom relacionamento da turma. A professora, em mais de uma \u201cconversa\u201d dedicou-se obstinadamente, representando as inst\u00e2ncias de poder da escola, a ouvir falar e faz\u00ea-lo falar (ele pr\u00f3prio, o ladr\u00e3o, quem quer que fosse) de modo expl\u00edcito sobre o pequeno delito. Por confid\u00eancia sutil ou por interrogat\u00f3rio autorit\u00e1rio, o furto deveria ser dito, e a conduta de confiss\u00e3o levaria, ent\u00e3o, \u00e0 solu\u00e7\u00e3o do constrangimento geral. Deveria, mas n\u00e3o levou.<\/p>\n<div id=\"attachment_7906\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Surveillance-Joan-Ainley-1-433x600.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7906\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7906 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Surveillance-Joan-Ainley-1-433x600-300x415.jpeg\" alt=\"Jo Ainley, Vigil\u00e2ncia.\" width=\"240\" height=\"332\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7906\" class=\"wp-caption-text\">Jo Ainley, Vigil\u00e2ncia.<\/p><\/div>\n<p>A autoridade da professora n\u00e3o foi capaz de incidir de fato na conduta requerida. A exig\u00eancia e a amea\u00e7a, m\u00e9todos de inquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o surtiram nenhum efeito coercivo diante do pequeno e provavelmente pontual \u201cdelinquente\u201d. O sil\u00eancio total \u2013 do culpado e de seus colegas \u2013 deixou a professora e a escola diante de um impasse. Depois de seguidas reclama\u00e7\u00f5es dos pais, a diretora da escola convidou a professora para uma conversa e, juntas (na verdade, por sugest\u00e3o da diretora), reformularam a estrat\u00e9gia. Ao final das aulas do dia seguinte, a professora desfiou, para a turma, sua f\u00e1bula. Nela, a dire\u00e7\u00e3o da escola e a professora j\u00e1 conheciam a identidade do culpado porque as c\u00e2meras dispostas nas salas de aula lhes tinham contado quem teria cometido o furto e comprovado a a\u00e7\u00e3o. Por compaix\u00e3o, a professora estava dando a \u00faltima chance para que o culpado se entregasse por conta pr\u00f3pria, que confessasse uma explica\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o um esclarecimento de si (porque isso n\u00e3o parecia importar) mas do mau comportamento. Alguns dias depois, o sil\u00eancio foi quebrado por um bilhete escrito com \u201cp\u00e9ssima caligrafia\u201d (segundo a professora), sem assinatura, declarando: \u201croubei o dinheiro, mas desculpa n\u00e3o tenho dinheiro para pagar\u201d. A professora reconheceu a letra do aluno, chamou os respons\u00e1veis por ele, e \u201co mau indiv\u00edduo\u201d (que, na verdade, era \u00f3rf\u00e3o e morava h\u00e1 alguns meses na cidade com uma tia) foi enviado, \u201cdevolvido\u201d, novamente ao Piau\u00ed. A c\u00e2mera imagin\u00e1ria, no entanto, permaneceu na sala de aula, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos ao certo quantos acreditaram ou ainda acreditam em sua exist\u00eancia dentro de um espa\u00e7o t\u00e3o \u00edntimo quanto a escola pode parecer para as crian\u00e7as. Tamb\u00e9m dif\u00edcil seria dizer quantas das crian\u00e7as j\u00e1 procuraram averiguar sua materialidade nos cantos da escola ou o que a imagina\u00e7\u00e3o infantil foi capaz de produzir a partir da \u201cexist\u00eancia\u201d dessas c\u00e2meras invis\u00edveis no local em que passam grande parte de seus dias. Teria alguma crian\u00e7a levado as c\u00e2meras que tudo veem tamb\u00e9m para os seus sonhos?<\/p>\n<p>A professora n\u00e3o pode desmentir-se, sob pena de perder a autoridade que ainda lhe resta. Assim resguarda, protege, acoberta, com o apoio de sua diretora, a perversa \u201cf\u00e1bula da c\u00e2mera total\u201d, perdendo a oportunidade de transformar o fato em algo verdadeiramente \u201cpedag\u00f3gico\u201d, desperdi\u00e7ando a chance de verter o infort\u00fanio em um <b>acontecimento comum<\/b>. Trata-se aqui de um pedido de clem\u00eancia: o regime disciplinar implorando ajuda \u00e0s tecnologias contempor\u00e2neas de vigil\u00e2ncia para se manter minimamente moribundo.<\/p>\n<p>Imaginemos, ent\u00e3o, o que est\u00e1 acontecendo exatamente agora nessa sala de aula, mediada por uma c\u00e2mera que tudo v\u00ea e nunca \u00e9 vista. Numa esp\u00e9cie de pique-esconde eterno, os \u201cpegos\u201d nunca finalizam sua contagem, nunca surgem de nenhum \u201cpique\u201d; sem rosto, est\u00e3o continuamente em todos os lugares, simultaneamente, funcionando no \u201cmodo\u201d TOTAL. Por outro lado, nesse jogo involunt\u00e1rio as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o capazes, de fato, de se esconder em nenhum canto de parede, debaixo de nenhuma mesa, atr\u00e1s de nenhuma cortina. Como no pan\u00f3ptico, \u201cse o olho est\u00e1 escondido, ele me olha, ainda quando n\u00e3o me esteja vendo\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_7905\" style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/amnesia-photograph-web.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7905\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7905 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/amnesia-photograph-web-1024x698.jpg\" alt=\"Denis Beaubois, In the event of Amnesia the city will recall\u2026 1996 \u2013 1997 (Instala\u00e7\u00e3o).\" width=\"614\" height=\"419\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7905\" class=\"wp-caption-text\">Denis Beaubois, In the event of Amnesia the city will recall\u2026 1996 \u2013 1997 (Instala\u00e7\u00e3o).<\/p><\/div>\n<p>Primeiro, seria interessante pensar o que possibilita e legitima a cria\u00e7\u00e3o de c\u00e2meras invis\u00edveis dentro dos espa\u00e7os privados de uma escola como \u00fanico dispositivo capaz de instaurar o acordo escolar (porque, temos de admitir, s\u00f3 as t\u00e9cnicas disciplinares tradicionais, o discurso e a amea\u00e7a de a\u00e7\u00e3o punitiva da professora n\u00e3o foram capazes, n\u00e3o \u00e9 mesmo?). De que escola e de que fal\u00eancia trata, ent\u00e3o, a f\u00e1bula da c\u00e2mera invis\u00edvel? Depois, tamb\u00e9m nos parece relevante indagar que corpos e subjetividades a ideia dessa c\u00e2mera invis\u00edvel pode produzir na escola, que modos de ser est\u00e3o sendo estimulados por essas c\u00e2meras de ver. O que sentiriam esses alunos que est\u00e3o permanentemente \u201cguardados\u201d pelo olhar do outro? Trata-se de um olhar especular, invis\u00edvel, superior, capaz de vigiar e de punir, mas, al\u00e9m disso, capaz de tornar cada uma daquelas crian\u00e7as, inclu\u00eddas as que n\u00e3o cometeram qualquer delito, um ser\/comportamento controlado e exib\u00edvel, simultaneamente.<\/p>\n<p>De fato, poder\u00edamos investigar se n\u00e3o estaria sendo efetivado nessa escola um corpo-sujeito d\u00f3cil (ou artificialmente d\u00f3cil), mas, tamb\u00e9m, bastante exteriorizado, exibicionista e perform\u00e1tico. Ou v\u00e3o dizer que a c\u00e2mera s\u00f3 funcionaria para os \u201cmaus indiv\u00edduos ladr\u00f5es de carteira\u201d? Iriam os \u201cbons indiv\u00edduos\u201d provavelmente exceder seus bons comportamentos a fim de faz\u00ea-los vis\u00edveis? Assim, seria poss\u00edvel supor que a exist\u00eancia da c\u00e2mera invis\u00edvel ir\u00e1 gerar outros efeitos al\u00e9m do constrangimento paranoico nos alunos. Apoiados na subjetividade contempor\u00e2nea, poder\u00edamos ironicamente at\u00e9 imaginar que os alunos experimentam certo prazer em estar sendo filmados. Explico. N\u00e3o se trata apenas de \u201catualizar\u201d a vigil\u00e2ncia moderna. Essas c\u00e2meras, sejam vis\u00edveis ou n\u00e3o, fazem parte de uma subjetividade em transforma\u00e7\u00e3o que tem nas tecnologias da imagem um de seu pilares.<\/p>\n<p>Como Benjamin afirmou, \u201ctodo o presente \u00e9 determinado pelas imagens que lhe s\u00e3o sincr\u00f4nicas\u201d. Em sua perspectiva, \u201ccada agora\u201d \u00e9 o agora de um certo reconhecimento, o agora de uma legibilidade pr\u00f3pria, e cada \u00e9poca hist\u00f3rica \u00e9 determinada por uma constela\u00e7\u00e3o de imagens. Isso significa, primeiramente, que algumas imagens s\u00f3 se tornam leg\u00edveis em uma determinada \u00e9poca e atingir essa legibilidade constitui um certo ponto cr\u00edtico espec\u00edfico do movimento interior das pr\u00f3prias imagens. Por essa raz\u00e3o, conclui Benjamin, \u201ca verdade est\u00e1 carregada de tempo at\u00e9 o ponto de explodir\u201d. Sendo hist\u00f3rica, a verdade dependeria tamb\u00e9m das imagens que emergem em nossos regimes de visibilidade. Cabe ressaltar que, nesse sentido, imagem e pol\u00edtica, percep\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o dimens\u00f5es que se entrela\u00e7am apenas, mas <b>agem<\/b> reciprocamente umas sobre as outras. A imagem adquire, no pensamento de Benjamin uma caracter\u00edstica ambivalente: assume a pot\u00eancia catalisadora de absorver seu momento hist\u00f3rico (ser efeito de uma \u00e9poca) e, simultaneamente, fazer nascer outros sentidos para a hist\u00f3ria e para a arte.<\/p>\n<div id=\"attachment_7924\" style=\"width: 665px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/What-Banksy-905x388.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7924\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7924 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/What-Banksy-905x388-1024x439.jpg\" alt=\"Bansky\" width=\"655\" height=\"281\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7924\" class=\"wp-caption-text\">Bansky<\/p><\/div>\n<p>Nesse aspecto, a \u201cf\u00e1bula da c\u00e2mera total\u201d \u2013 sustentada nessa escola a justificativa de uma esp\u00e9cie de estado de exce\u00e7\u00e3o produzido por um pequeno furto (para pensarmos com Giorgio Agamben) \u2013 n\u00e3o representa apenas uma mentira enunciada por professores, mantida provavelmente tamb\u00e9m pelos pais, tornando-os t\u00e3o mentirosos quanto os \u201cmestres\u201d. Do mesmo modo, n\u00e3o noticia apenas a fal\u00eancia de um modelo escolar. Na realidade, talvez n\u00e3o haja nela nada de excepcional, a n\u00e3o ser o fato de ter sido vivenciada com extrema banalidade e profunda naturalidade, por integrar a regularidade de uma s\u00e9rie de outros enunciados contempor\u00e2neos; mas, especialmente, por ter sido <b>cr\u00edvel<\/b> para as crian\u00e7as e <b>diz\u00edvel<\/b> pelos adultos (e certamente isso n\u00e3o se d\u00e1 porque as crian\u00e7as sejam idiotas ou inocentes e os adultos diab\u00f3licos, como talvez possa parecer).<\/p>\n<p>A c\u00e2mera invis\u00edvel p\u00f4de e pode existir, ser vis\u00edvel, leg\u00edvel e, sobretudo, capaz de produzir efeitos reais na vida das pessoas, porque d\u00e1 carne \u00e0s imagens que nos s\u00e3o sincr\u00f4nicas, para lembrarmos o pensamento de Benjamin. Como enunciado, aceito e reconhecido, emerge do solo no qual repousam as verdades e os saberes contempor\u00e2neos. Mais do que isso: a f\u00e1bula da c\u00e2mera total materializa-se como dispositivo da subjetividade atual dentro da escola, fazendo parte do tecido de nossos tempos, participando das constela\u00e7\u00f5es de imagens que n\u00e3o s\u00e3o apenas produtos de nossa <i>episteme<\/i>, mas que tamb\u00e9m, simultaneamente, agem sobre ela e determinam nosso presente hist\u00f3rico. Continuaremos esse papo no pr\u00f3ximo <i>post<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias, uma aluna contou em sala, na Universidade de Bras\u00edlia, uma sequ\u00eancia de fatos recentes ocorridos na turma em que \u00e9 professora, segunda s\u00e9rie do ensino fundamental, numa escola p\u00fablica do Plano Piloto do Distrito Federal. 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