{"id":7886,"date":"2014-04-07T13:03:46","date_gmt":"2014-04-07T13:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/?p=7886"},"modified":"2014-05-02T15:27:40","modified_gmt":"2014-05-02T15:27:40","slug":"em-pleno-salto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/em-pleno-salto\/","title":{"rendered":"Em pleno salto"},"content":{"rendered":"<p>O Ic\u00f4nica \u00e9 um lugar que fomenta o meu discurso. De certa forma<b>,<\/b> uma foto que carrego no bolso e me ajuda a achar sentidos nas coisas que procuro \u2013 e me s\u00e3o caros os achados. Aqui, um c\u00e9u torna-se poss\u00edvel: os espa\u00e7os vazios da minha pesquisa se veem provocados quando n\u00e3o preenchidos pelo que esta constela\u00e7\u00e3o ilumina.<\/p>\n<p>Pensando em um primeiro post, escrevi um pouco sobre um estado recente em que tenho vivido. Sinto-me assim em uma esp\u00e9cie de fotografia, com a vida provisoriamente suspensa e dispersa em uma superf\u00edcie que imprime projetos de certa forma interrompidos.<\/p>\n<p>Tirei os p\u00e9s do ch\u00e3o de um passado e ainda me encontro em meio a um salto no qual n\u00e3o enxergo nada al\u00e9m do<i> <\/i>pau da venta. Mas como \u00e9 com a fotografia, vale a regra de que tal estado existe para suscitar coisas com mais for\u00e7a, pois esta suspens\u00e3o \u00e9 sentida pela abertura que provoca.<\/p>\n<p>A fotografia afirma-se por um ato que suspende a vida e nos leva para uma esfera indicial, como alma itinerante que vai se apossar das coisas, liberar os fantasmas e revelar hist\u00f3rias retidas. Toma posse dos segredos que passariam em v\u00e3o. Apoio-me nesta linguagem, em sua capacidade de nos provocar a prospectar os solos trilhados e achar neles as inscri\u00e7\u00f5es de um tempo ainda n\u00e3o vivido plenamente. Latente pela temporalidade radical da interrup\u00e7\u00e3o. Um estado <i>sublime<\/i> que me desprende por algo que come\u00e7a a encontrar r\u00e9deas de raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O sublime na formula\u00e7\u00e3o oferecida por Kant<i> <\/i>\u00e9 o sentimento frente a uma imensid\u00e3o que a raz\u00e3o n\u00e3o pode conter. Tem arestas, ventania.\u00a0 Quando estamos presentes em uma tempestade na qual o c\u00e9u e o mar parecem discordar entre si e o que sobra \u00e9 o impreciso, aquele volume imenso de uma natureza em f\u00faria que nos violenta o esp\u00edrito, isto \u00e9 o sublime.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o precisa de tempo para compreender esse estado de um mundo a se perder na \u00e1gua, nos ventos e nas nuvens. H\u00e1 um espanto no sublime. \u00c9 a beira de um abismo, o frio que o corpo sente por suspens\u00e3o, por saber em um lampejo o quanto \u00e9 insuportavelmente pequeno diante do que se percebe. <i>\u201cUma altura elevada \u00e9 t\u00e3o sublime quanto uma profunda depress\u00e3o, s\u00f3 que a esta acompanha uma sensa\u00e7\u00e3o de assombro, \u00e0quela de admira\u00e7\u00e3o;[&#8230;] Uma longa dura\u00e7\u00e3o \u00e9 sublime. Caso perten\u00e7a a um tempo passado, \u00e9 nobre; antevista num futuro imprevis\u00edvel, possuir\u00e1 em si qualquer coisa de terr\u00edvel.&#8221; (Kant)<\/i><\/p>\n<p>A fotografia em que me apoio \u00e9 mais pr\u00f3xima ao que desconhe\u00e7o. Se penso na dist\u00e2ncia entre o pensamento, abstrato, e o vivido entorno, presente, percebo que a fotografia tende mais \u00e0s rea\u00e7\u00f5es vertiginosas da mente. Mesmo sens\u00edvel ao real, ela atua fundamentalmente ao lado das abstra\u00e7\u00f5es. Superf\u00edcie tecnicamente criada por um forte esp\u00edrito moderno, uma linguagem que tem curiosidade pelos fatos, por\u00e9m, n\u00e3o consegue mant\u00ea-los \u00edntegros. Nesta rela\u00e7\u00e3o entre dist\u00e2ncia e proximidade, faz surgir por si mesma, de suas tramas subversivas, discursos in\u00e9ditos \u00e0 plena luz do motivo fotografado.<\/p>\n<p>A fotografia reorganiza as percep\u00e7\u00f5es e rearranja simbolicamente aquilo que parecia posto. Fotografei um c\u00e9u e pude v\u00ea-lo aproximado, diminu\u00eddo, delimitadas as suas fronteiras. Ele coube ali na fotografia chegada ao junto, que lhe trouxe para perto, ao toque.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, fotografei um ch\u00e3o pr\u00f3ximo e material.\u00a0 E j\u00e1 este se tornou, na representa\u00e7\u00e3o de tal fotografia, complexo, erodido pelas hist\u00f3rias desenhadas nos encaixes de seus estratos. Ganhou uma enorme dimens\u00e3o este ch\u00e3o que parecia pr\u00f3ximo, sob os meus p\u00e9s. Virou o mapa de todas as lutas, d\u00favidas, conquistas, das vers\u00f5es que embalam e alicer\u00e7am um piso futuro. O c\u00e9u, seu oposto verso, nas fotos emparelhadas \u00e0 compara\u00e7\u00e3o, agia diferente e se tornou menor, finito, poss\u00edvel. O ch\u00e3o, por fim, o destino inevit\u00e1vel das exist\u00eancias que caminham aos passos do tempo \u00e0 conclus\u00e3o de qualquer vida, n\u00e3o privou-se de gerar um desejo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o de que poderia ser infinito este trajeto.<\/p>\n<p>A fotografia, com sua natureza sublime, est\u00e1 ligada \u00e0 impossibilidade de compreender racionalmente uma totalidade. H\u00e1 um descompasso entre a limita\u00e7\u00e3o do conceito, do que inicialmente prop\u00f5e, e a infinitude da representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel quando \u00e9 vista. O sublime faz o corpo flutuar, desencarna o calor que nos estrutura e nos mistura \u00e0s coisas do mundo. Nos faz fluir.\u00a0Como disse a pesquisadora (e amiga) Mariana Lacerda, <i>\u201csinto um rio passar entre n\u00f3s, agora.\u201d<\/i> A fotografia \u00e9 uma linguagem que explode e inverte as limita\u00e7\u00f5es do pensamento. Esta t\u00e9cnica moderna possui paix\u00e3o, alma, e \u00e9 repleta das s\u00ednteses, dos espa\u00e7os, das ambiguidades que nos provocam a perceber sentimentos sublimes.<\/p>\n<p>Fotografia que faz o ch\u00e3o fluir como um rio, uma imensid\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre tratei os professores Cl\u00e1udia Linhares Sanz, Rubens Fernandes Junior, Maur\u00edcio Lissovsky e Ronaldo Entler como fot\u00f3grafos. De um tipo que subvertem os limites pr\u00f3prios das defini\u00e7\u00f5es convencionais e se colocam \u00e0 frente, na constru\u00e7\u00e3o de discursos, na cria\u00e7\u00e3o dos conceitos que sopram desta linguagem. Fot\u00f3grafos que<i> <\/i>percebem: com a fotografia n\u00e3o se pode dizer tudo, mas com ela haver\u00e1, eternamente, a possibilidade de tudo ser dito novamente.<\/p>\n<p>Em pleno salto, no c\u00e9u que estou agora, j\u00e1 estavam eles, constela\u00e7\u00e3o criada para iluminar a linguagem. Formou-se no Ic\u00f4nica, j\u00e1 faz um tempo, um time que transmite percep\u00e7\u00f5es eruditas que jamais se esquivaram da po\u00e9tica, das centelhas imag\u00e9ticas que habitam os textos. O Ic\u00f4nica se cria na habilidade de reunir partes em prol de um fim que n\u00e3o define-se pela utilidade convencional, mas, antes de tudo, pela experi\u00eancia est\u00e9tica. Me dou as boas vindas!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/82837705?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0&amp;color=000000\" height=\"382\" width=\"680\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ic\u00f4nica \u00e9 um lugar que fomenta o meu discurso. De certa forma, uma foto que carrego no bolso e me ajuda a achar sentidos nas coisas que procuro \u2013 e me s\u00e3o caros os achados. Aqui, um c\u00e9u torna-se poss\u00edvel: os espa\u00e7os vazios da minha pesquisa se veem provocados quando n\u00e3o preenchidos pelo que esta constela\u00e7\u00e3o ilumina. Pensando em um primeiro post, escrevi um pouco sobre um estado recente em que tenho vivido. Sinto-me assim em uma esp\u00e9cie de fotografia, com a vida provisoriamente suspensa e dispersa em uma superf\u00edcie que imprime projetos de certa forma interrompidos. 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