{"id":785,"date":"2010-05-24T05:38:19","date_gmt":"2010-05-24T05:38:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=785"},"modified":"2016-05-28T13:51:54","modified_gmt":"2016-05-28T13:51:54","slug":"o-que-e-fotografico-na-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-que-e-fotografico-na-fotografia\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 fotogr\u00e1fico na fotografia?"},"content":{"rendered":"<h5>[Publicado no <strong>Sab\u00e1tico<\/strong>, do jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, em 17 de abril de 2010]<\/h5>\n<div id=\"attachment_787\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/capa1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-787\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-787\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/capa-280x373.jpg\" alt=\"Capa\" width=\"280\" height=\"373\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-787\" class=\"wp-caption-text\">Est\u00e9tica da Fotografia, de Fran\u00e7ois Soulages.<\/p><\/div>\n<p>Mesmo que tardia, a publica\u00e7\u00e3o do livro <strong><em>Est\u00e9tica da Fotografia \u2013 Perda e Perman\u00eancia<\/em><\/strong> (1998), de Fran\u00e7ois Soulages (Senac, 384 p\u00e1gs., R$ 75,00, tradu\u00e7\u00e3o de Iraci D. Poleti e Regina Salgado Campos), \u00e9 contribui\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria para aqueles que se dedicam \u00e0 pesquisa e \u00e0 reflex\u00e3o da fotografia no Brasil. O principal objetivo do autor, foi, independentemente do g\u00eanero \u2013 retrato, paisagem, fotografia de reportagem, nu, entre outros \u2013, dar relev\u00e2ncia tanto ao processo de constru\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica quanto \u00e0 sua recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fran\u00e7ois Soulages \u00e9 professor da Universidade Paris VIII e do Instituto Nacional de Hist\u00f3ria da Arte, em Paris, e autor de v\u00e1rios livros sobre arte contempor\u00e2nea e, claro, fotografia. Neste trabalho, ele elabora uma surpreendente an\u00e1lise cr\u00edtica, cuja inten\u00e7\u00e3o final \u00e9 concretizar uma leitura da fotografia a partir dos vest\u00edgios encontrados na imagem. Isto lhe d\u00e1 a oportunidade de trazer para o seu campo de reflex\u00e3o conceitos e aproxima\u00e7\u00f5es centrados n\u00e3o somente na est\u00e9tica, mas principalmente, na semiologia, na filosofia e na psican\u00e1lise. A associa\u00e7\u00e3o entre diferentes fot\u00f3grafos, fil\u00f3sofos e psicanalistas lhe permite estabelecer novas rela\u00e7\u00f5es entre fazer e pensar o espa\u00e7o, o tempo e o real.<\/p>\n<p>Considerando que a fotografia \u00e9 o seu foco de preocupa\u00e7\u00e3o, Soulages defende que fotos s\u00e3o objetos enigm\u00e1ticos, pois habitam nossa imagina\u00e7\u00e3o e nosso imagin\u00e1rio. Se a fotografia for assumida como um \u201cvest\u00edgio\u201d para percep\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o cabe ao receptor elaborar as conex\u00f5es entre o passado e o presente, o antes e o depois, o ef\u00eamero e o permanente.<\/p>\n<p>O ensa\u00edsta enfatiza a rela\u00e7\u00e3o entre o objeto fotografado e o real, pois nem sempre a foto promove esse tipo de aproxima\u00e7\u00e3o. Imbricados, real, objeto e foto suscitam os problemas essenciais para uma est\u00e9tica fotogr\u00e1fica e revelam que a arte da fotografia \u00e9 mais ampla e menos conhecida do que se pensa.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o em torno da id\u00e9ia de que a fotografia seja vest\u00edgio, tra\u00e7o, nasce das an\u00e1lises de Soulages a respeito do trabalho da cr\u00edtica de arte Rosalind Krauss, desdobradas nas obras de Roland Barthes, Phillipe Dubois e Jean-Marie Schaeffer. Provocado sobre esse tema em entrevista concedida ao <strong>Estado<\/strong>, Soulages comentou: \u201cO trabalho de Rosalind Krauss \u00e9 interessante; renovou a an\u00e1lise da fotografia. Mas hoje n\u00e3o devemos reduzir toda a teoria da fotografia \u00e0 teoria do tra\u00e7o e do vest\u00edgio.\u201d<\/p>\n<p>A melhor contribui\u00e7\u00e3o da abordagem te\u00f3rica de Soulages talvez seja o conceito de fotograficidade, que designa \u201ca propriedade abstrata que faz a singularidade do fato fotogr\u00e1fico\u201d. Traduzindo: aquilo que indica o que \u00e9 fotogr\u00e1fico na fotografia. Al\u00e9m disso, a fotograficidade, explica ele, se caracteriza por ser \u201ca surpreendente articula\u00e7\u00e3o do irrevers\u00edvel e do inacab\u00e1vel; entendemos o irrevers\u00edvel como o negativo obtido a partir do ato fotogr\u00e1fico, que pressup\u00f5e interatividade entre o fot\u00f3grafo e o objeto e em seguida as opera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas necess\u00e1rias para sua obten\u00e7\u00e3o; e o inacab\u00e1vel como a possibilidade de se conseguir diferentes (e numerosas) c\u00f3pias a partir deste negativo, tamb\u00e9m considerando a sequ\u00eancia qu\u00edmica de diferentes etapas de sua produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>O tempo<\/strong>. \u00c9 nesse sentido que a foto, para Soulages pode ser definida como a articula\u00e7\u00e3o entre a perda e a perman\u00eancia. O que se perde tem a ver com as circunst\u00e2ncias que envolvem o ato fotogr\u00e1fico, pois o fot\u00f3grafo enquadra e registra uma possibilidade entre muitas, interrompe um fluxo de tempo entre muitos, e assim sucessivamente. O que permanece \u00e9 o que fica gravado na matriz e na c\u00f3pia. Apesar de o livro ser do fim dos anos 90 (o que dizer que ao escrever, Soulages se referia \u00e0 fotografia fotoqu\u00edmica), ele cr\u00ea ainda ser poss\u00edvel compreend\u00ea-la do mesmo modo contemporaneamente. \u201cQuando penso em fotografia, independentemente de ser qu\u00edmica ou digital, estou refletindo sobre o tempo; n\u00e3o o tempo fotogr\u00e1fico, mas o tempo filos\u00f3fico e psicanal\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 o fot\u00f3grafo que \u00e9 marcado pela perda e pela perman\u00eancia; \u00e9 a fotografia que permite voc\u00ea viver essa rela\u00e7\u00e3o.\u201d Para o ensa\u00edsta, a capacidade da foto de ati\u00e7ar o inconsciente acaba por transform\u00e1-la em obra aberta.<\/p>\n<div id=\"attachment_786\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Jean-Marc-Lalier-La-famille-des-Hybrides-19841.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-786\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-786\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Jean-Marc-Lalier-La-famille-des-Hybrides-1984-280x409.jpg\" alt=\"Jean-Marc Lalier, La famille des Hybrides, 1984.\" width=\"280\" height=\"409\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-786\" class=\"wp-caption-text\">Jean-Marc Lalier, La famille des Hybrides, 1984.<\/p><\/div>\n<p>As fotos que precedem cada cap\u00edtulo exigem aten\u00e7\u00e3o especial. Por exemplo, o cap\u00edtulo 4 traz uma foto de Jean-Marc Lalier, <em>La famille des Hybrides<\/em> (1984), reproduzida ao lado. Um olhar apressado sugere o retrato de duas pessoas, mas, ao mergulhar na imagem, o leitor descobrir\u00e1 procedimentos levados a cabo na constru\u00e7\u00e3o da foto que n\u00e3o est\u00e3o expl\u00edcitos no resultado apresentado.<\/p>\n<p>Soulages insiste que devemos enfrentar o desafio e buscar entender o que caracteriza a fotografia. No caso da foto de Lalier, sua pesquisa \u00e9 conceitual, pois cria uma fic\u00e7\u00e3o em foto \u2013 e depois fotografa a fabrica\u00e7\u00e3o dessa proposta ficcional. Olhar para essa imagem convida a tentar entender o que \u00e9 o objeto, o que \u00e9 o real fotografado e sua representa\u00e7\u00e3o. Olh\u00e1-la \u00e9, tamb\u00e9m, perceber que a foto n\u00e3o tem mais rela\u00e7\u00e3o imediata com a realidade, j\u00e1 que resulta da rela\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias realidades. Ainda assim, a obra fotogr\u00e1fica remete sempre ao ato fotogr\u00e1fico e tudo que o cerca, mas nessa obra espec\u00edfica, os efeitos vis\u00edveis, nem sempre apreens\u00edveis, nos oferecem a possibilidade de compreender a obra em seu processo de constru\u00e7\u00e3o. No livro, Soulages busca a reflex\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 no processo criativo de constru\u00e7\u00e3o da imagem, mas tamb\u00e9m em sua conex\u00e3o com o real, questionando essa conex\u00e3o e valorizando os processos de recep\u00e7\u00e3o. Como se nos lembrasse que o sentido da fotografia est\u00e1, em todos os sentidos, no olhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Publicado no Sab\u00e1tico, do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, em 17 de abril de 2010] Mesmo que tardia, a publica\u00e7\u00e3o do livro Est\u00e9tica da Fotografia \u2013 Perda e Perman\u00eancia (1998), de Fran\u00e7ois Soulages (Senac, 384 p\u00e1gs., R$ 75,00, tradu\u00e7\u00e3o de Iraci D. Poleti e Regina Salgado Campos), \u00e9 contribui\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria para aqueles que se dedicam \u00e0 pesquisa e \u00e0 reflex\u00e3o da fotografia no Brasil. O principal objetivo do autor, foi, independentemente do g\u00eanero \u2013 retrato, paisagem, fotografia de reportagem, nu, entre outros \u2013, dar relev\u00e2ncia tanto ao processo de constru\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica quanto \u00e0 sua recep\u00e7\u00e3o. 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