{"id":745,"date":"2010-05-02T14:54:09","date_gmt":"2010-05-02T14:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=745"},"modified":"2016-05-28T13:52:55","modified_gmt":"2016-05-28T13:52:55","slug":"um-ano-sem-otto-stupakoff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/um-ano-sem-otto-stupakoff\/","title":{"rendered":"Um ano sem Otto Stupakoff"},"content":{"rendered":"<p>Dia 22 de abril fez um ano que Otto Stupakoff (1935 \u2013 2009) nos deixou. Quem o conheceu sabe que era um homem culto, que dominava v\u00e1rios idiomas, um <em>gentleman<\/em> que articulava como ningu\u00e9m esse seu saber com intelig\u00eancia e perspic\u00e1cia. Fiquei pensando como poderia prestar uma homenagem sem ser piegas e sem deixar de registrar sua aus\u00eancia sentida. Com certeza, a m\u00eddia n\u00e3o faria men\u00e7\u00e3o alguma a ele, como n\u00e3o fez, e muito menos se lembraria daquilo que j\u00e1 passou.<\/p>\n<p>Diante disso resolvi compartilhar e aqui registrar uma das nossas muitas conversas sobre arte, vida e influ\u00eancias. Ele sempre me disse que em seu trabalho, a principal refer\u00eancia foi a pintura de Balthasar Klossowski de Rola, ou melhor, Balthus (Paris, 1908 \u2013 Rossini\u00e8re, 2001). Em diversas ocasi\u00f5es tentei fazer essas aproxima\u00e7\u00f5es e confesso, em algumas delas constatei a influ\u00eancia e em outras n\u00e3o. Vi Balthus no Moma e no Metropolitan, em Nova York, e percebi semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as, mas jamais refleti sobre isso. S\u00f3 agora fica mais ou menos claro. Balthus criou v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es visuais e algumas delas se tornaram as principais refer\u00eancias e est\u00e3o presentes parcialmente nas fotografias de Stupakoff.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico Robert Hughes, por ocasi\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva de Balthus no Beaubourg, em Paris, e depois no Metropolitan, em 1984, registrou que ele criava \u201ca superf\u00edcie calma e a inoc\u00eancia envenenada\u201d, querendo insinuar que sua pintura era conservadora, mas a tem\u00e1tica instigante \u00e9 que talvez fosse detonadora da pot\u00eancia de sua obra. De qualquer forma \u00e9 interessante perceber como Stupakoff repetiu alguns gestos mais insinuantes e alguns movimentos que s\u00e3o congelados como espont\u00e2neos. Na verdade s\u00e3o estudos precisos e calcados no mestre. Vejam estas imagens. Estabele\u00e7am os poss\u00edveis confrontos.<\/p>\n<div id=\"attachment_747\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-747\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-747\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/stupakoff_balthus-487x215.jpg\" alt=\"Otto Stupakoff e Balthus (Therese sonhando, 1937)\" width=\"487\" height=\"215\" \/><p id=\"caption-attachment-747\" class=\"wp-caption-text\">Otto Stupakoff e Balthus (Therese sonhando, 1937)<\/p><\/div>\n<p>S\u00f3 agora, quando me deparo mais pontualmente com a obra de Balthus, \u00e9 que percebo com mais clareza o vigor da cita\u00e7\u00e3o. O mundo de Balthus estava longe dos movimentos art\u00edsticos s\u00edncronos com os quais conviveu, longe do surrealismo por exemplo, mas muito pr\u00f3ximo de Freud e da psican\u00e1lise. Aparentemente, um paradoxo. Sim, mas o que seria da arte se n\u00e3o fossem essas descontinuidades que correm paralelas ao mundo que gira e produz um esfor\u00e7o coletivo, bem como muitos pequenos esfor\u00e7os individuais nos quais pulsam uma diferen\u00e7a. Assim \u00e9 o trabalho de Balthus. Corre paralelo \u00e0 arte que se produzia e se buscava nos anos 30 e 40.<\/p>\n<p>Outro aspecto presente na fotografia de Otto Stupakoff \u00a0e tamb\u00e9m presente em Balthus \u00e9 um aparente relaxamento da cena. Na verdade, esse aparente flagrante \u00e9 de uma incr\u00edvel teatralidade, cujo controle \u00e9 absoluto, quase obsessivo. Stupakoff sabia muito bem como dirigir suas modelos e tirar delas o melhor momento para sua fotografia. Elas est\u00e3o quase sempre numa recorrente posi\u00e7\u00e3o provocativa, no limite, entre o belo e o vulgar, expressando e despertando a libido do Outro. Na fotografia parece que tudo se harmoniza \u2013 o movimento, as pernas e os bra\u00e7os desconexos, o corpo que se contorce na representa\u00e7\u00e3o. Um controle total naquilo que \u00e9 aparentemente incontrol\u00e1vel, ou seja, a sensualidade que aflora na cena. Nesse sentido, as fotografias de Stupakoff se aproximam fortemente da pintura de Balthus e eu compreendo melhor o que ele queria me dizer.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, s\u00e3o personagens solit\u00e1rios, imersos em sil\u00eancios, confinados em espa\u00e7os limitados, em que apenas tem import\u00e2ncia essa luminosidade que incide sobre os corpos e os movimentos que estes desenham, estejam sentados em cadeiras com seus bra\u00e7os e pernas desajeitados, sejam relaxados nas poltronas, enclausurados no espa\u00e7o do quadro fotogr\u00e1fico. Uma sensualidade fugaz que mais se parece com momentos de puro t\u00e9dio. As imagens provocam nossa imagina\u00e7\u00e3o porque somos capazes de empreender a cena seguinte insinuada pelo movimento, criando narrativas imagin\u00e1rias. S\u00e3o como que fossem retratos da incompletude da pr\u00f3pria vida que nos ati\u00e7am e nos for\u00e7am a prosseguir dando vida ao aparentemente inanimado. O que interessava a Otto Stupakoff era produzir uma fotografia que despertasse uma inquieta\u00e7\u00e3o sutil e provocativa. E nisso ele se tornou um mestre e a melhor das refer\u00eancias para a fotografia brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia 22 de abril fez um ano que Otto Stupakoff (1935 \u2013 2009) nos deixou. Quem o conheceu sabe que era um homem culto, que dominava v\u00e1rios idiomas, um gentleman que articulava como ningu\u00e9m esse seu saber com intelig\u00eancia e perspic\u00e1cia. Fiquei pensando como poderia prestar uma homenagem sem ser piegas e sem deixar de registrar sua aus\u00eancia sentida. Com certeza, a m\u00eddia n\u00e3o faria men\u00e7\u00e3o alguma a ele, como n\u00e3o fez, e muito menos se lembraria daquilo que j\u00e1 passou. Diante disso resolvi compartilhar e aqui registrar uma das nossas muitas conversas sobre arte, vida e influ\u00eancias. 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