{"id":726,"date":"2010-04-26T08:02:57","date_gmt":"2010-04-26T08:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=726"},"modified":"2016-05-28T14:32:28","modified_gmt":"2016-05-28T14:32:28","slug":"dois-filmes-sobre-fotografos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/dois-filmes-sobre-fotografos\/","title":{"rendered":"Dois filmes sobre fot\u00f3grafos"},"content":{"rendered":"<p>Nesta semana, assisti a dois filmes sobre fot\u00f3grafos. Gostei muito de um deles, do outro, nem tanto. Um pouco sobre cada um:<\/p>\n<p><strong><em>A fronteira do alvorecer<\/em><\/strong><\/p>\n<p>http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=A6aN5o2PBUk<br \/>\nTrailer de Portugal, onde o filme recebeu o t\u00edtulo de &#8220;A fronteira do amanhecer&#8221;.<\/p>\n<p><em>A fronteira do amanhecer<\/em> (2008) \u00e9 dirigido por Philippe Garrel, cineasta com olhar formado pela Nouvelle Vague, que alcan\u00e7ou um bom reconhecimento a partir dos anos 80, obtendo pr\u00eamios em Cannes e Veneza. O filme est\u00e1 centrado na vida amorosa do fot\u00f3grafo Fran\u00e7ois (interpretado por Louis Garrel, filho do diretor) que vive uma paix\u00e3o s\u00fabita e intensa pela linda Carole (Laura Smet), uma estrela de cinema que ele fotografa para uma publica\u00e7\u00e3o. A profiss\u00e3o do personagem \u00e9 pretexto para Garrel \u2013 ele pr\u00f3prio, um excelente fot\u00f3grafo \u2013 mostrar no filme luzes e composi\u00e7\u00f5es bel\u00edssimas, a come\u00e7ar pelas cenas do ensaio, que j\u00e1 s\u00e3o como uma sucess\u00e3o de fotografias. \u00c9 um in\u00edcio promissor, mas que n\u00e3o se sustenta. Como cinema, estamos diante de uma hist\u00f3ria pretensiosa e uma est\u00e9tica repleta de maneirismos.<\/p>\n<p>No primeiro post deste blog (<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=22\" target=\"_self\">Fot\u00f3grafos n\u00e3o s\u00e3o normais<\/a>), eu brincava com o fato de que os personagens fot\u00f3grafos do cinema s\u00e3o sempre introspectivos, complexos, profundos, enigm\u00e1ticos e perturbados. Garrel desmonta esse estere\u00f3tipo: desta vez, o personagem n\u00e3o \u00e9 coisa alguma, al\u00e9m de belo. Mesmo que o roteiro pe\u00e7a uma personalidade forte e anti-burguesa, em si, o que o personagem mostra \u00e9 algu\u00e9m psiquicamente plano, que n\u00e3o tem hist\u00f3ria, que n\u00e3o pensa nada, n\u00e3o acredita em nada, e que reage \u00e0s suas tormentas sempre com a mesma express\u00e3o de vazio.<\/p>\n<p>Por sua vez, o filme abusa das cita\u00e7\u00f5es ao velho cinema franc\u00eas: preto e branco, grandes sil\u00eancios, olhares perdidos no infinito, di\u00e1logos truncados e po\u00e9ticos, fragmentos de hist\u00f3ria quase aleat\u00f3rios, loca\u00e7\u00f5es improvisadas, um violino estridente para traduzir emo\u00e7\u00f5es intensas. Certamente, o diretor n\u00e3o faz isso ingenuamente, ao contr\u00e1rio, brinca explicitamente com o tempo: efeitos cinematogr\u00e1ficos datados, personagens que escrevem e mandam cartas, um sanat\u00f3rio que trata seus pacientes com eletrochoque, uma cidade que lembra a Paris de Doisneau, muitos objetos didaticamente <em>vintage<\/em> (as c\u00e2meras, por exemplo), tudo isso ao lado de algumas pistas que remetem \u00e0 atualidade (incluindo o ano \u201c2007\u201d, que aparece de modo claro numa cena). Nada est\u00e1 ali ingenuamente, mas \u00e9 dif\u00edcil fazer tantas cita\u00e7\u00f5es sem cair na par\u00f3dia. Em termos de nostalgia, Garrel est\u00e1 para o cinema intelectualizado, como Tarantino est\u00e1 para o cinema popular. Mas Garrel tem a desvantagem de se levar muito a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Vi o filme no Espa\u00e7o Unibanco numa se\u00e7\u00e3o especial para professores, deve entrar em cartaz em breve. Vale a pena assistir se as expectativas estiverem ajustadas. Pela fotografia, ser\u00e1 uma bela experi\u00eancia se for tomado como uma esp\u00e9cie de <em>Roman Photo<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>Jan Saudek: preso por suas paix\u00f5es, nenhuma chance de resgate<\/em><\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O document\u00e1rio <em>Jan Saudek<\/em> (2007) \u00e9 dirigido por Adolf Zika, um fotografo comercial que se aventurou no cinema. Para quem n\u00e3o se lembra, Saudek \u00e9 um artista Tcheco, pioneiro e um dos grandes nomes daquilo que temos chamado de fotografia contempor\u00e2nea, com um trabalho inconfund\u00edvel: retratos carregados de teatralidade, com temas que oscilam entre o er\u00f3tico e o abjeto, \u00e0s vezes com um tratamento artesanal que remete \u00e0s fotografias pintadas do s\u00e9culo XIX (algumas de suas imagens estavam na exposi\u00e7\u00e3o \u201cA inven\u00e7\u00e3o de um mundo\u201d, organizada pelo Eder Chiodetto no Ita\u00fa Cultural, em 2009).<\/p>\n<p>Escrevendo esse post, eu me perguntei: qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre as cita\u00e7\u00f5es de Garrel ao cinema franc\u00eas dos anos 60 e as de Saudek, \u00e0 fotografia do s\u00e9culo XIX? O primeiro me parece apenas saudosista, o segundo desenvolve uma estrat\u00e9gia muito firme a partir da liberdade que a arte contempor\u00e2nea lhe d\u00e1 de tornar presentes tempos distintos.<\/p>\n<p>Esteticamente, o document\u00e1rio n\u00e3o traz grandes inova\u00e7\u00f5es, apenas lida de modo competente com a hist\u00f3ria e a personalidade marcante de Saudek. Num movimento contr\u00e1rio ao do filme de Garrel, Adolf Zika come\u00e7a tateante e, devagar, vai alcan\u00e7ando uma boa profundidade. No princ\u00edpio, o diretor simula uma espontaneidade pouco convincente (por exemplo, quando finge chegar de surpresa \u00e0 casa do fot\u00f3grafo, enquanto a gente sabe que as c\u00e2meras j\u00e1 est\u00e3o l\u00e1 dentro). Ele tamb\u00e9m acredita r\u00e1pido demais no personagem que Saudek constr\u00f3i diante da c\u00e2mera: sobrevivente de um campo de concentra\u00e7\u00e3o, artista exc\u00eantrico, sedutor incorrig\u00edvel que perdeu as contas de quantas mulheres teve.<\/p>\n<p>Ao longo das filmagens, que inclui um m\u00eas de desapari\u00e7\u00e3o de Saudek, eles come\u00e7am a construir uma intimidade mais sincera. O resultado disso \u00e9 que o fot\u00f3grafo passa a ser desconstru\u00eddo, enquanto o diretor passa a explicitar melhor as estrat\u00e9gias de seu document\u00e1rio. Em algum momento, come\u00e7amos a ver um Saudek verdadeiramente complexo, sobrevivente n\u00e3o de uma guerra, mas de toda uma longa hist\u00f3ria de fracassos: a desastrosa pol\u00edtica sovi\u00e9tica na Tchecoslov\u00e1quia, um mercado que lhe rendeu mais fama que dinheiro, e uma err\u00e2ncia afetiva que o conduziu \u00e0 solid\u00e3o. Parece n\u00e3o ter nenhum contato com seu irm\u00e3o g\u00eameo Kaja Saudek, de quem era insepar\u00e1vel at\u00e9 os anos de juventude. N\u00e3o teve coragem de visitar sua filha na pris\u00e3o, mesmo que a defina como a mulher que gostaria que sobrevivesse, se s\u00f3 restasse uma no mundo. Sua atual namorada \u2013 com quem teve um beb\u00ea \u2013 parece participar menos de sua vida do que a mem\u00f3ria de suas rela\u00e7\u00f5es antigas. Nesse sentido, \u00e9 muito perturbadora a presen\u00e7a no document\u00e1rio da fot\u00f3grafa Sara Saudkov\u00e1, sua ex-namorada, atual empres\u00e1ria e suposta respons\u00e1vel por suas dificuldades financeiras, m\u00e3e de seus netos (ela come\u00e7ou um relacionamento com Samuel, filho de Saudek, enquanto ainda viviam juntos) e, um fantasma afetivo que permanece mais pr\u00f3ximo do que parece. Assim vamos desarmando suas defesas e enxergando suas fragilidades, no mesmo ritmo em que compreendemos a for\u00e7a de seu trabalho.<\/p>\n<div id=\"attachment_732\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-732\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-732\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Saudek022-487x286.jpg\" alt=\"Jan Saudek, fotos feitas no por\u00e3o em que viveu entre 1970 e 77.\" width=\"487\" height=\"286\" \/><p id=\"caption-attachment-732\" class=\"wp-caption-text\">Jan Saudek, fotos feitas no por\u00e3o em que viveu entre 1970 e 77. Algumas dessas imagens aparecem como obras nos anos 80.<\/p><\/div>\n<p>O document\u00e1rio j\u00e1 valeria pelas fotos e pela contextualiza\u00e7\u00e3o de seu trabalho. Mesmo que soe um pouco encenado, \u00e9 emocionante rever algumas loca\u00e7\u00f5es, sobretudo o pequeno por\u00e3o em que permaneceu praticamente trancado, durante o per\u00edodo mais duro de domina\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. Foi ali, num espa\u00e7o min\u00fasculo e diante de uma janela sem paisagem, que ele \u201cinventou um mundo\u201d e produziu algumas das imagens fant\u00e1sticas que conhecemos hoje. \u00c9 a\u00ed que entendemos que seu trabalho \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Saudek tem no filme mais de 70 anos, mas \u00e9 ainda um homem em boa forma f\u00edsica e criativa. \u00c9 o que parece querer demonstrar na performance de um auto-retrato que produz junto a uma jovem modelo. Mas, por tr\u00e1s de seu corpo malhado e de seu reconhecimento, chegamos a uma figura bastante humanizada, sujeita a decep\u00e7\u00f5es, fracassos e uma postura autocr\u00edtica \u00e0s vezes dura quanto ao trabalho que hoje realiza.<\/p>\n<p>Ao final, Saudek volta a atuar para a c\u00e2mera, com situa\u00e7\u00f5es e falas que parecem ter sido negoiadas. Mas, desta vez, com um n\u00edvel de entrega surpreendente. Parece ser essa a voca\u00e7\u00e3o de Saudek: tocar mais a profundamente a realidade quando assume a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vi o filme numa c\u00f3pia em DVD que passou pela minha m\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de estr\u00e9ia no Brasil, mas \u00e9 poss\u00edvel garimp\u00e1-lo por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta semana, assisti a dois filmes sobre fot\u00f3grafos. Gostei muito de um deles, do outro, nem tanto. Um pouco sobre cada um: A fronteira do alvorecer http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=A6aN5o2PBUk Trailer de Portugal, onde o filme recebeu o t\u00edtulo de &#8220;A fronteira do amanhecer&#8221;. A fronteira do amanhecer (2008) \u00e9 dirigido por Philippe Garrel, cineasta com olhar formado pela Nouvelle Vague, que alcan\u00e7ou um bom reconhecimento a partir dos anos 80, obtendo pr\u00eamios em Cannes e Veneza. O filme est\u00e1 centrado na vida amorosa do fot\u00f3grafo Fran\u00e7ois (interpretado por Louis Garrel, filho do diretor) que vive uma paix\u00e3o s\u00fabita e intensa pela linda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":729,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,838],"tags":[434,574,618],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/726"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=726"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7187,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/726\/revisions\/7187"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}