{"id":686,"date":"2010-04-18T16:08:56","date_gmt":"2010-04-18T16:08:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=686"},"modified":"2016-05-28T14:32:38","modified_gmt":"2016-05-28T14:32:38","slug":"multimidia-tensa-e-multimidia-relaxada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/multimidia-tensa-e-multimidia-relaxada\/","title":{"rendered":"Multim\u00eddia tensa e multim\u00eddia relaxada"},"content":{"rendered":"<p>Na semana passada tive uma boa conversa com o pessoal do <a href=\"http:\/\/www.garapa.org\">Garapa<\/a>, Leo Caobelli,\u00a0Paulo Fehlauer e\u00a0Rodrigo Marcondes. Eles contaram que, numa apresenta\u00e7\u00e3o de seus trabalhos, algu\u00e9m esbravejou afirmando que o que eles faziam n\u00e3o era multim\u00eddia, era apenas v\u00eddeo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/1784464\" width=\"1150\" height=\"647\" frameborder=\"0\" title=\"Gorki &Aacute;guila\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A arte e a comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam vivido nas \u00faltimas d\u00e9cadas um momento muito f\u00e9rtil, que convida a atravessar as fronteiras que separam uma linguagem da outra, uma t\u00e9cnica da outra. Da\u00ed vem a voca\u00e7\u00e3o para as produ\u00e7\u00f5es que chamamos de multim\u00eddia. Reconhe\u00e7o nesse processo dois momentos distintos, um que tem a ver com o desejo de transgress\u00e3o e outro, com a liberdade de transgress\u00e3o. \u00c9 sutil, mas \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>De um lado, h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o de artistas que deu a cara para bater enfrentando as tradi\u00e7\u00f5es das v\u00e1rias artes, que trabalhou duro nas experimenta\u00e7\u00f5es com a tecnologia, que testou as possibilidades de aproxima\u00e7\u00e3o entre as linguagens. Essa gera\u00e7\u00e3o fez disso uma bandeira, levou muita bordoada, mas soube construir as justificativas para produ\u00e7\u00f5es que tinham um pouco de pintura, v\u00eddeo, fotografia, literatura, m\u00fasica, game, que explorava novos suportes, que convidava o p\u00fablico a interagir com suas obras. Temos que agradecer a essa gera\u00e7\u00e3o por suas conquistas e pela heran\u00e7a deixada aos artistas mais jovens.<\/p>\n<p>Do outro lado, h\u00e1 exatamente essa turma mais jovem, que foi contaminada pelo ar com esse esp\u00edrito transgressor. Essa gera\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 capaz de enxergar tanto o que fazia a tradi\u00e7\u00e3o quanto os resultados das novas rupturas, mas a diferen\u00e7a \u00e9 que podem ter uma postura mais leve diante de ambas. No exerc\u00edcio das liberdades que receberam de heran\u00e7a, sua produ\u00e7\u00e3o simplesmente transborda em dire\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, por exemplo, da fotografia para o v\u00eddeo, da galeria para a internet. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o privilegiada, porque teve a oportunidade de assistir \u00e0 luta que foi travada, porque conhece a crise que se instaurou, e sabe discutir esse processo quando \u00e9 convocada. Mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 preciso levantar uma bandeira, identificar o inimigo. Ao contr\u00e1rio, pode fazer o que quer, com uma radicalidade que nasce mais como despojamento do que como esfor\u00e7o. E podem ainda admirar trabalhos feitos \u00e0 velha maneira, pel\u00edcula, <em>fine art<\/em>, moldura etc.<\/p>\n<p>Vale ainda considerar uma gera\u00e7\u00e3o que estar\u00e1 produzindo em breve, e que n\u00e3o saber\u00e1 o que \u00e9 o mundo sem c\u00e2mera digital, sem internet, sem celular, sem celular com c\u00e2mera digital e internet. Contei ao pessoal do Garapa sobre o filho de um amigo que explicou um coleguinha que \u201ccarta \u00e9 igual a um e-mail, s\u00f3 que se escreve a m\u00e3o\u201d. O Paulo Fehlauer respondeu com outra anedota: uma crian\u00e7a v\u00ea uma m\u00e1quina de escrever e diz \u201cpai, olha, um computador que j\u00e1 vem com impressora!\u201d. Essa garotada vai fazer muita coisa boa, mas vai ter que estudar nos livros essa passagem que vivemos h\u00e1 pouco, se tiver alguma paci\u00eancia para olhar para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Retomando, h\u00e1 portanto uma multim\u00eddia tensa, que se configurou em meio a uma revolu\u00e7\u00e3o, e uma multim\u00eddia relaxada, que se realiza no exerc\u00edcio da liberdade conquistada. A primeira tinha coisas a provar. Precisava mapear e demonstrar as possibilidades de conex\u00e3o entre as linguagens. Ser multim\u00eddia era ser poderoso, \u00e1gil, amplo, eloquente, era ser de tudo um pouco ao mesmo tempo. Com isso, nossa concep\u00e7\u00e3o de multim\u00eddia nasceu um tanto barroca, marcada pelo excesso. Alguns dos pioneiros j\u00e1 haviam feito essa pondera\u00e7\u00e3o: Julio Plaza lembrava frequentemente de um antigo princ\u00edpio da cibern\u00e9tica que diz: quanto maior a quantidade de informa\u00e7\u00e3o, menor a probabilidade de produzir uma mensagem. Carlos Fadon Vicente tamb\u00e9m me disse uma vez: &#8220;bot\u00e3o demais \u00e9 igual a interatividade nenhuma&#8221;.<\/p>\n<p>A outra multim\u00eddia, essa mais relaxada, atravessa as fronteiras sem ter de pedir licen\u00e7a. Como disse o pessoal do Garapa, o v\u00eddeo estava l\u00e1 na Mark II (<a href=\"http:\/\/www.olhave.com.br\/blog\/?p=5237\">vejam um post no Olhav\u00ea\u00a0sobre a Mark II<\/a>), a internet estava a\u00ed pra todo mundo&#8230; \u00a0N\u00e3o foi preciso enfiar o p\u00e9 na porta, foi s\u00f3 aceitar o convite.\u00a0No que diz respeito \u00e0s tecnologias, essa gera\u00e7\u00e3o s\u00f3 se sente transgressora quando confrontada \u00e0 hist\u00f3ria, situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m enfrenta com desenvoltura.<\/p>\n<p>Uma analogia: lembram do esperanto? Um dia algu\u00e9m percebeu que o mundo estava cheio de conex\u00f5es e decidiu aprofund\u00e1-las criando uma l\u00edngua universal, que contivesse um pouco de todas as l\u00ednguas. Foi um belo pensamento, mas passamos dessa fase. Hoje, \u00e9 mais legal chegar num pa\u00eds sem grandes medos, sem uma causa, e descobrir que d\u00e1 pra ter uma boa conversa em portu\u00f1ol, ou num franc\u00eas cheio de inven\u00e7\u00f5es, ou num ingl\u00eas bem gesticulado. N\u00e3o \u00e9 preciso mixar todas as palavras e gram\u00e1ticas, s\u00f3 \u00e9 preciso flexibilizar o idioma quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Conflitos ainda existem, n\u00e3o tanto no uso das tecnologias, mas nas din\u00e2micas dos mercados. Como o jornalismo pode absorver um trabalho multim\u00eddia? Como as galerias podem absorver obras que est\u00e3o na internet em <em>Creative Commons<\/em>? A vida n\u00e3o ficou necessariamente f\u00e1cil, n\u00e3o faltam bandeiras pra levantar, nem bordoadas pra levar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tenho d\u00favida de que h\u00e1 coisas simples que merecem hoje a denomina\u00e7\u00e3o de multim\u00eddia. Na conversa com o Garapa, lembramos que h\u00e1 outros fot\u00f3grafos fazendo v\u00eddeo, como o pessoal da <a href=\"http:\/\/ciadefoto.com.br\/blog\/?p=3315\" target=\"_blank\">Cia de Foto<\/a>. Ou, ainda, <a href=\"http:\/\/www.gustavopellizzon.com\" target=\"_blank\">Gustavo Pellizzon<\/a>, com uma experi\u00eancia radical em sua simplicidade, que chamou de\u00a0<em>Fotografias que respiram<\/em>. Se a multim\u00eddia implica atravessar uma fronteira, trata-se aqui de tentar se equilibrar em cima dela.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/11936154\" width=\"1150\" height=\"647\" frameborder=\"0\" title=\"Fotografias que respiram\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O que faz o Garapa, a Cia ou Pellizzon quando recorrem ao v\u00eddeo ou \u00e0 internet \u00e9 multim\u00eddia. S\u00f3 n\u00e3o \u00e9 uma multim\u00eddia ansiosa em testar todas as conex\u00f5es, nem barroca, nem panflet\u00e1ria. \u00c9 multim\u00eddia, e o que \u00e9 importante: \u00e9 tamb\u00e9m fotografia, porque essa \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o deles. \u00a0Porque a fotografia ainda \u00e9 o \u201clugar conceitual\u201d a partir de onde pensam sua produ\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, n\u00e3o seria multim\u00eddia, seria apenas v\u00eddeo se esse\u00a0fosse ao mesmo tempo o lugar de partida e de chegada. Mas, n\u00e3o, eles est\u00e3o em pleno atravessamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada tive uma boa conversa com o pessoal do Garapa, Leo Caobelli,\u00a0Paulo Fehlauer e\u00a0Rodrigo Marcondes. Eles contaram que, numa apresenta\u00e7\u00e3o de seus trabalhos, algu\u00e9m esbravejou afirmando que o que eles faziam n\u00e3o era multim\u00eddia, era apenas v\u00eddeo. A arte e a comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam vivido nas \u00faltimas d\u00e9cadas um momento muito f\u00e9rtil, que convida a atravessar as fronteiras que separam uma linguagem da outra, uma t\u00e9cnica da outra. Da\u00ed vem a voca\u00e7\u00e3o para as produ\u00e7\u00f5es que chamamos de multim\u00eddia. 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