{"id":677,"date":"2010-04-12T08:11:02","date_gmt":"2010-04-12T08:11:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=677"},"modified":"2016-05-28T13:53:27","modified_gmt":"2016-05-28T13:53:27","slug":"teatro-e-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/teatro-e-fotografia\/","title":{"rendered":"Teatro e fotografia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_679\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-679\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-679\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/policarpo_quaresma_cultura_300_4201-280x200.jpg\" alt=\"Cena de Policarpo Quaresma, Foto de divulga\u00e7\u00e3o de Emidio Luisi.\" width=\"280\" height=\"200\" \/><p id=\"caption-attachment-679\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Policarpo Quaresma. Foto de divulga\u00e7\u00e3o de Emidio Luisi.<\/p><\/div>\n<p>Durante o espet\u00e1culo <em>Policarpo Quaresma<\/em>, cria\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de Antunes Filho a partir do texto de Lima Barreto, pude perceber dentre as muitas cenas do espet\u00e1culo, imagens que s\u00e3o pura fotografia. Sabemos que o diretor \u00e9 um mestre em congelar cenas para atrair nossa aten\u00e7\u00e3o (influ\u00eancias claras de Bob Wilson) e, diante dessas cenas est\u00e1ticas, vi que elas estavam prontas para serem fotografadas. Eu sentava na pen\u00faltima fileira do teatro Sesc Anchieta e, pr\u00f3ximo dali havia um fot\u00f3grafo que confirmava minha intui\u00e7\u00e3o: a cada grande momento do texto e da encena\u00e7\u00e3o, o disparador era acionado com a finalidade de eternizar aquele instante.<\/p>\n<p>Lembrei-me de algumas conversas que tive com Thomaz Farkas sobre a fotografia de teatro. Sua posi\u00e7\u00e3o sobre este g\u00eanero de fotografia sempre foi muito clara: o fot\u00f3grafo de teatro registra cenas pr\u00e9-visualizadas pelo diretor do espet\u00e1culo. Ou seja, diante de uma imagem teatral, incluindo aqui \u00f3pera e dan\u00e7a, estamos sob o dom\u00ednio da luz e da a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica j\u00e1 planejada por algu\u00e9m, e n\u00e3o propriamente buscando o acaso ou alguma eventual singularidade de uma <em>performance<\/em>. Aparentemente, isso coloca em cheque a possibilidade de haver algum trabalho criativo na fotografia teatral.<\/p>\n<p>\u00c9 uma d\u00favida que me assolou naquele momento. Quando estamos diante um conjunto de imagens de algum espet\u00e1culo, vemos um documento fotogr\u00e1fico de uma cria\u00e7\u00e3o exterior \u00e0 fotografia? Ser\u00e1 que fotografia neste caso confirma a tese de Baudelaire em seu cl\u00e1ssico texto <em>O Sal\u00e3o de 1859<\/em>: \u201c&#8230; Que enrique\u00e7a rapidamente o \u00e1lbum do viajante e restitua a seus olhos a precis\u00e3o que faltaria \u00e0 sua mem\u00f3ria, que enfeite a biblioteca do naturalista, amplie os animais microsc\u00f3picos, at\u00e9 fortale\u00e7a com algumas informa\u00e7\u00f5es as hip\u00f3teses do astr\u00f4nomo, que seja, enfim a secret\u00e1ria e o bloco de notas de quem quer que necessite de uma absoluta exatid\u00e3o em sua profiss\u00e3o, at\u00e9 a\u00ed nenhuma obje\u00e7\u00e3o. Que salve do esquecimento as ru\u00ednas pendentes, os livros, as estampas e os manuscritos que o tempo devora, as coisas preciosas cuja forma vai desaparecer e que exigem um lugar nos arquivos de nossa mem\u00f3ria, se lhe agradecer\u00e1 e aplaudir\u00e1. Mas se for permitido invadir o campo do impalp\u00e1vel e do imagin\u00e1rio, aquilo que vale somente porque o homem a\u00ed acrescenta algo da pr\u00f3pria alma, ent\u00e3o, pobre de n\u00f3s!\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_681\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-681\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-681\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Fredi-Kleemann-A-Dama-das-Cam\u00e9lias-\u2013-1951-Cacilda-Becker-280x284.jpg\" alt=\"Cacilda Becker, em cena de A Dama das Cam\u00e9lias,  1951. Foto de Fredi Kleemann.\" width=\"280\" height=\"284\" \/><p id=\"caption-attachment-681\" class=\"wp-caption-text\">Cacilda Becker, em cena de A Dama das Cam\u00e9lias,  1951. Foto de Fredi Kleemann.<\/p><\/div>\n<p>Na fotografia brasileira, temos experi\u00eancias marcantes de fotografia de palco. O trabalho mais emblem\u00e1tico nesta \u00e1rea \u00e9 sem sombra de d\u00favida aquele desenvolvido por Fredi Kleemann (Berlim, 1924 \u2013 S\u00e3o Paulo, 1974), um ator coadjuvante do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia, desde 1949, que se notabilizou muito mais pelos seus registros fotogr\u00e1ficos de in\u00fameros espet\u00e1culos do TBC e de outras companhias do que pela sua atua\u00e7\u00e3o teatral no grupo. Curiosamente, Fredi trabalhava como atendente nos Laborat\u00f3rios Fot\u00f3ptica localizado na Rua Major Diogo, a mesma rua da sede do TBC. Tamb\u00e9m era membro atuante no Foto Cine Clube Bandeirante, fot\u00f3grafo de <em>still<\/em> da Companhia Cinematogr\u00e1fica Vera Cruz e produziu uma fotografia tecnicamente sofisticada, mas para alguns, limitada do ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fredi, judeu alem\u00e3o que chegou ao Brasil em 1933, segundo relatos que ouvi da atriz Nydia Licia, tamb\u00e9m integrante do TBC, tinha a oportunidade de fotografar os atores no momento em que o espet\u00e1culo estava pronto para ocupar a cena, com os figurinos, a luz e toda a pontua\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica ensaiada e finalizada. Ele fotografava os atores nestes momentos de plenitude, mas seus registros s\u00e3o muito mais o documento do resultado visual desejado pelo diretor do que uma poss\u00edvel leitura criativa do espet\u00e1culo. Para o cr\u00edtico D\u00e9cio de Almeida Prado, o trabalho de Fredi Kleemann tem \u201co impressionante grau de adequa\u00e7\u00e3o que se observa entre as personagens de palco que retratou e o seu pr\u00f3prio ponto de vista fotogr\u00e1fico. Pertenciam todos, os que estavam al\u00e9m e o que estava aqu\u00e9m da objetiva, ao mesmo projeto est\u00e9tico, habitavam todos o mesmo projeto art\u00edstico\u201d.<\/p>\n<p>Os mais de 12.000 negativos produzidos por Fredi Kleemann no per\u00edodo de 1949 a 1973 foram adquiridos pela Secretaria de Cultura do Munic\u00edpio, atrav\u00e9s do escritor e cr\u00edtico de teatro S\u00e1bado Magaldi por ocasi\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do IDART, em 1976, e por sugest\u00e3o da atriz Cleide Y\u00e1conis. Diga-se de passagem, uma atitude louv\u00e1vel j\u00e1 que estes negativos hoje possibilitam n\u00e3o s\u00f3 uma compreens\u00e3o da est\u00e9tica teatral do TBC, como do grupo de teatro Cacilda Becker e da Vera Cruz.<\/p>\n<p>E eis o paradoxo: uma fotografia tecnicamente perfeita, certamente dif\u00edcil de fazer, mas questionada em seu valor criativo, validada apenas como registro necess\u00e1rio para a compreens\u00e3o daquele momento hist\u00f3rico dos movimentos mais significativos do teatro e do cinema.<\/p>\n<p>Este espa\u00e7o de reflex\u00e3o nos permite levantar esses questionamentos e abrir a discuss\u00e3o. A fotografia nasce sob o signo da representa\u00e7\u00e3o fidedigna do mundo vis\u00edvel e, \u00e0 medida que o dom\u00ednio t\u00e9cnico invade o fazer, inicia sua trajet\u00f3ria como linguagem. Ser\u00e1 que quando pensamos neste tipo de experi\u00eancia e na sua import\u00e2ncia enquanto documenta\u00e7\u00e3o, suas possibilidades expressivas se tornam uma quest\u00e3o secund\u00e1ria? Ou ser\u00e1 que cabe pensar numa esp\u00e9cie de co-autoria, numa parceria entre um diretor que constr\u00f3i \u00a0obra e um fot\u00f3grafo que escolhe um instante-s\u00edntese?<\/p>\n<p>Ao t\u00e9rmino da apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo Policarpo Quaresma o que detive na mem\u00f3ria imediata foram as imagens criadas por Antunes Filho (sabidamente um diretor de imagens inesquec\u00edveis do teatro brasileiro nas \u00faltimas d\u00e9cadas), a partir de um texto liter\u00e1rio que foi capaz de incendiar a criatividade visual do diretor. N\u00e3o vi as fotografias daquele fot\u00f3grafo que estava nas proximidades, mas seguramente, al\u00e9m daquelas imagens que me entusiasmaram, outras provavelmente foram escolhidas e registradas pelo fot\u00f3grafo em pleno \u00eaxtase \u2013 uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o do tempo no espa\u00e7o, nos interst\u00edcios do processo criativo.<\/p>\n<p>Vale ainda pensar no trabalho de Maarten Vanden Abeele, fot\u00f3grafo nascido em Bruxelas, em 1970, que registrou exaustivamente os espet\u00e1culos de Pina Bausch, al\u00e9m de realizar documenta\u00e7\u00f5es sobre os grandes teatros europeus e japoneses. No Brasil, mais recentemente, temos Emidio Luisi (autor da imagem acima da pe\u00e7a Policarpo Quaresma), Vania Toledo, Lenise Pinheiro, Gal Oppido, entre outros que se dedicam de corpo e alma a fotografar o teatro e a dan\u00e7a no Brasil. Mas isso j\u00e1 \u00e9 assunto para outra reflex\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o espet\u00e1culo Policarpo Quaresma, cria\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de Antunes Filho a partir do texto de Lima Barreto, pude perceber dentre as muitas cenas do espet\u00e1culo, imagens que s\u00e3o pura fotografia. Sabemos que o diretor \u00e9 um mestre em congelar cenas para atrair nossa aten\u00e7\u00e3o (influ\u00eancias claras de Bob Wilson) e, diante dessas cenas est\u00e1ticas, vi que elas estavam prontas para serem fotografadas. Eu sentava na pen\u00faltima fileira do teatro Sesc Anchieta e, pr\u00f3ximo dali havia um fot\u00f3grafo que confirmava minha intui\u00e7\u00e3o: a cada grande momento do texto e da encena\u00e7\u00e3o, o disparador era acionado com a finalidade de eternizar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":678,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[902,838],"tags":[348,481,743],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/677"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=677"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7190,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/677\/revisions\/7190"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}