{"id":666,"date":"2010-04-04T17:31:01","date_gmt":"2010-04-04T17:31:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=666"},"modified":"2016-05-28T14:32:54","modified_gmt":"2016-05-28T14:32:54","slug":"irina-ionesco-imagens-de-um-tempo-sem-data","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/irina-ionesco-imagens-de-um-tempo-sem-data\/","title":{"rendered":"Irina Ionesco: imagens de um tempo sem data"},"content":{"rendered":"<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Estere\u00f3tipos<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 ver sua exposi\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=658\">na semana passada<\/a> (<em>Espelho de Sombra e Luz<\/em>, na Caixa Cultural da S\u00e9, SP), eu mal tinha id\u00e9ia de quem era Irina Ionesco. Em geral, isso n\u00e3o \u00e9 problema, temos um mapa de experi\u00eancias hist\u00f3ricas que nos permite situar bem um artista, mesmo quando \u00e9 desconhecido. Tentamos captar na obra o esp\u00edrito de seu tempo, coisas que transpiram no estilo, na composi\u00e7\u00e3o, no tratamento do tema, no uso de certas t\u00e9cnicas e materiais. \u00c0s vezes isso funciona, \u00e0s vezes n\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_669\" style=\"width: 277px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-669\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-669\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Ionesco-DRACULA-200621.jpg\" alt=\"Irina Ionesco, Dracula, 2006\" width=\"267\" height=\"400\" \/><p id=\"caption-attachment-669\" class=\"wp-caption-text\">Irina Ionesco, Dracula, 2006<\/p><\/div>\n<p>Quem chega como eu desavisado na exposi\u00e7\u00e3o de Ionesco, v\u00ea sua erudi\u00e7\u00e3o fazer algumas piruetas: sentimos ali um ar hist\u00f3rico, os excessos e as alegorias do barroco, o tom metaf\u00edsico do simbolismo, a sofistica\u00e7\u00e3o ornamental do art nouveau, o glamour e o erotismo de uma primeira fotografia de moda, constru\u00e7\u00f5es on\u00edricas do surrealismo, algo do cinema expressionaista. E, ao lado dessas refer\u00eancias imprecisas, datas mais recentes do que podemos imaginar (1968 a 2006).<\/p>\n<p>Sendo assim, podemos apelar para uma categoria mais acolhedora: a \u201cfotografia contempor\u00e2nea\u201d. Igualmente fiel ao esp\u00edrito de um tempo que refuta todo tipo de coer\u00eancia, ela nos permite lidar relativamente bem com uma produ\u00e7\u00e3o que tende a ignorar fronteiras hist\u00f3ricas, investe na descontextualiza\u00e7\u00e3o e combina refer\u00eancias de diferentes \u00e9pocas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. O trabalho \u00e9 escorregadio, deslocado, mas uma imagem ap\u00f3s a outra nos mostra uma coes\u00e3o forte, amarrada por uma tradi\u00e7\u00e3o que parece n\u00e3o estar denominada nos livros, algo que n\u00e3o se sustentaria se a quest\u00e3o fosse apenas o desejo de atropelar categorias.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o desconfort\u00e1vel quanto prazeroso ver nossa erudi\u00e7\u00e3o se tornar in\u00fatil. Quando abandonamos o \u00a0mapa de estere\u00f3tipos que trazemos de casa \u00e9 que come\u00e7amos a ver de verdade a obra que temos diante do olhar. Em princ\u00edpio, tudo o que precisamos est\u00e1 ali na exposi\u00e7\u00e3o, mesmo que de uma forma problem\u00e1tica: um texto mais sucinto do que a exposi\u00e7\u00e3o merecia, um v\u00eddeo em franc\u00eas com legendas em ingl\u00eas (<em>Irina Ionesco, Nocturnes Porte Dor\u00e9e<\/em>, de Delphine Camolli)\u00a0e, acima de tudo, nosso olhar que \u00e9 rapidamente encantado pelas imagens, mesmo que o corpo esteja impaciente com o calor da sala.<\/p>\n<p><strong>Arqu\u00e9tipos<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_673\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-673\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-673\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/IrinaIonesco-280x368.jpg\" alt=\"Irina Ionesco, s\/d.\" width=\"280\" height=\"368\" \/><p id=\"caption-attachment-673\" class=\"wp-caption-text\">Irina Ionesco, s\/d.<\/p><\/div>\n<p>Irina Ionescu nasceu em Paris mas passou sua inf\u00e2ncia na Rom\u00eania, terra natal de sua fam\u00edlia. Filha de uma trapezista e de um m\u00fasico, trabalhou no circo como bailarina e contorcionista. Ap\u00f3s um acidente e um longo per\u00edodo de convalesc\u00eancia num hospital, passou a se dedicar \u00e0 pintura e \u00e0 fotografia. Apesar da trag\u00e9dia, foi uma feliz mudan\u00e7a de rota, algo que Ionesco explica como um \u201cacaso objetivo\u201d, conceito que toma emprestado dos surrealistas: uma esp\u00e9cie de encontro entre um fato da natureza e um desejo subjetivo.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre perigoso querer explicar a obra pela biografia do artista. Esse cen\u00e1rio oferece n\u00e3o uma explica\u00e7\u00e3o, mas uma met\u00e1fora que ajuda a entender o tempo deslocado em que seu trabalho encontra.<\/p>\n<p>A Rom\u00eania de onde imigra sua fam\u00edlia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u00e9, em si, um lugar de encontro de tradi\u00e7\u00f5es do ocidente e do oriente, tamb\u00e9m de uma Europa moderna e outra apegada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de seus mitos.<\/p>\n<p>O circo \u00e9 uma dessas experi\u00eancias m\u00edticas, lugar de formas pr\u00f3prias que remetem a um passado sem data. N\u00e3o se trata de um estilo, mas de um arqu\u00e9tipo, e arqu\u00e9tipos n\u00e3o s\u00e3o simplesmente antigos, s\u00e3o origin\u00e1rios. Representam uma experi\u00eancia reconhecida por todos, mesmo que n\u00e3o tenha sido transmitida por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 uma coes\u00e3o semelhante a essa que permanece evidente nas fotografias de Ionesco, mesmo quando as categorias hist\u00f3ricas falham. O ar antigo que n\u00e3o conseguimos situar nas imagens \u00e9, na verdade, igualmente sem data, \u00e9 arquet\u00edpico.<\/p>\n<div id=\"attachment_670\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-670\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-670\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/eva-irina-ionesco-280x388.jpg\" alt=\"Irina Ionesco, Eva, s\/d.\" width=\"280\" height=\"388\" \/><p id=\"caption-attachment-670\" class=\"wp-caption-text\">Irina Ionesco, Eva, s\/d.<\/p><\/div>\n<p>As imagens de uma de suas primeiras s\u00e9ries, <em>Eloge de ma fille<\/em>, est\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o e mostram sem ingenuidades o corpo de Eva, sua filha, quando ainda era uma crian\u00e7a. N\u00e3o se trata do nu como estado anterior ao pecado, met\u00e1fora da pureza, mas de um corpo que foi despido (<em>nude<\/em> e <em>naked<\/em>, categorias definidas pelo historiador Kenneth Clark). Em nosso tempo marcado pelo pragmatismo, esse pode ser um trabalho que exp\u00f5e de modo perigoso o corpo infantil. Para o tempo sem data em que o trabalho se situa, \u00e9 o erotismo de um corpo idealizado, portanto, igualmente sem idade.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, o v\u00eddeo que acompanha a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0soa um pouco triste. Ionesco parece querer conter a decad\u00eancia de sua beleza por meio da maquiagem carregada e do apego aos objetos do passado. \u00c9 o mesmo ar decadente que fica para quem v\u00ea o circo pelo lado de fora, montado provisoriamente num terreno esquecido entre um pr\u00e9dio e outro da cidade.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso entrar no circo. Os excessos, seja o da maquiagem, seja o do cen\u00e1rio, est\u00e3o ali tamb\u00e9m como elementos de cena, numa teatralidade que se realiza por voca\u00e7\u00e3o. Trata-se, ainda, de um palco. A beleza que representa, assim como o erotismo de sua filha, est\u00e1 situada fora da idade do corpo. Basta retornar \u00e0s fotografias para entender que \u00e9 poss\u00edvel mostrar no arcaico o lugar para onde nosso desejo nos convida a avan\u00e7ar.\u00a0Ionesco se equilibra sobre palavras t\u00e3o bem quanto sobre os ornamentos e alegorias das imagens. \u00c9 um prazer escutar seu depoimento. Mas \u00e9 preciso ver o v\u00eddeo do mesmo modo que vemos as fotos, como cria\u00e7\u00e3o, como encena\u00e7\u00e3o do mito com o qual sua vida se confunde.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Lamento demorar a comentar. A exposi\u00e7\u00e3o <em>Espelhos de Sombra e Luz<\/em> fica em cartaz na Caixa Cultural da Pra\u00e7a da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo, s\u00f3 at\u00e9 o dia 11 de abril. N\u00e3o encontrei informa\u00e7\u00f5es precisas, mas o realease \u00a0promete que a exposi\u00e7\u00e3o ir\u00e1 tamb\u00e9m para Bahia e Bras\u00edlia. A exposi\u00e7\u00e3o esteve tamb\u00e9m no Sesc Copacabana, em 2007.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Estou aqui no processo de descobrir essa artista, procurando imagens e textos. Encontrei <a href=\"http:\/\/www.cairn.info\/load_pdf.php?ID_ARTICLE=ENJE_002_0223\" target=\"_blank\">uma bela entrevista de Ionesco dada ao psicanalista carioca Antonio Quinet<\/a>, em 2003. Infelizmente, s\u00f3 est\u00e1 dispon\u00edvel em franc\u00eas. Se algu\u00e9m conhecer outros artigos dispon\u00edveis, adoraria ter as refer\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estere\u00f3tipos At\u00e9 ver sua exposi\u00e7\u00e3o na semana passada (Espelho de Sombra e Luz, na Caixa Cultural da S\u00e9, SP), eu mal tinha id\u00e9ia de quem era Irina Ionesco. Em geral, isso n\u00e3o \u00e9 problema, temos um mapa de experi\u00eancias hist\u00f3ricas que nos permite situar bem um artista, mesmo quando \u00e9 desconhecido. Tentamos captar na obra o esp\u00edrito de seu tempo, coisas que transpiram no estilo, na composi\u00e7\u00e3o, no tratamento do tema, no uso de certas t\u00e9cnicas e materiais. \u00c0s vezes isso funciona, \u00e0s vezes n\u00e3o. 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