{"id":6411,"date":"2013-12-11T03:53:34","date_gmt":"2013-12-11T03:53:34","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=6411"},"modified":"2016-05-28T14:03:18","modified_gmt":"2016-05-28T14:03:18","slug":"o-fantasma-de-baudelaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-fantasma-de-baudelaire\/","title":{"rendered":"O fantasma de Baudelaire"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/photo-inedite-baudelaire_4531890.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-8480\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/photo-inedite-baudelaire_4531890-360x472.jpeg\" alt=\"photo-inedite-baudelaire_4531890\" width=\"360\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/photo-inedite-baudelaire_4531890-360x472.jpeg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/photo-inedite-baudelaire_4531890.jpeg 640w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 algumas semanas, foi divulgado um retrato feito no s\u00e9culo XIX de um certo Sr. Arnauldet, e que deixa aparecer ao fundo um intruso que foi identificado como sendo Baudelaire. Foi <a href=\"http:\/\/www.lexpress.fr\/culture\/livre\/photographie-inedite-un-air-de-baudelaire_1301028.html#dIhOkgT2usi37mps.01\" target=\"_blank\">Serge Plantureux<\/a>, marchand de fotografias de Paris, quem adquiriu essa imagem e, a partir de alguns dados levantados na Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a, convenceu-se de que eram grandes as chances de se tratar mesmo daquele poeta. O modo hesitante como espia a performance do fot\u00f3grafo e do fotografado denuncia sua consci\u00eancia de estar onde n\u00e3o deveria. Resta um corpo fugidio e difuso, como o de um fantasma que n\u00e3o se deixa apreender com precis\u00e3o pela c\u00e2mera (<a href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/27\/27159\/tde-13072009-190522\/pt-br.php\" target=\"_blank\">como vemos na longa tradi\u00e7\u00e3o de fotografia de esp\u00edritos e fantasmas<\/a>). Mas se olharmos bem para o que persiste de express\u00e3o naquele corpo, reconheceremos uma figura t\u00edmida, curiosa e desejante.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma f\u00f3rmula do cinema de terror que \u00e9 mais ou menos assim: uma fam\u00edlia \u2013 pai, m\u00e3e, um ou dois filhos, um cachorro \u2013 se muda para um casar\u00e3o encrustado \u00a0numa paisagem buc\u00f3lica. A casa custou uma pechincha ou foi uma heran\u00e7a inesperada, e s\u00f3 precisa de alguns reparos. Mas o sonho da fam\u00edlia \u00e9 perturbado por vozes estranhas, depois, por apari\u00e7\u00f5es e fen\u00f4menos sobrenaturais que, at\u00e9 certo momento, apenas os filhos percebem. Ap\u00f3s muitos estragos, descobrimos que o fantasma \u00e9 tamb\u00e9m o de uma crian\u00e7a que, em vida, se sentia deslocada diante dos amigos e da fam\u00edlia. Ela s\u00f3 queria brincar, mas a rejei\u00e7\u00e3o acentuava cada vez mais seus tra\u00e7os estranhos. Inevitavelmente, seu fim \u00e9 tr\u00e1gico e violento. Isolada ainda mais pela morte, ela continua querendo pertencer ao mundo. Ainda quer apenas brincar, mas s\u00f3 consegue fazer isso da forma assustadora que \u00e9 pr\u00f3pria dos fantasmas.<\/p>\n<p>Baudelaire, esse <i>enfant terrible<\/i>, tem assombrado a hist\u00f3ria da fotografia. \u00c9 dele que lembramos quando queremos demonstrar o quanto essa t\u00e9cnica foi mal recebida por intelectuais e artistas do s\u00e9culo XIX. Para isso, recorremos sempre a alguns poucos fragmentos de um mesmo artigo (<em><a href=\"http:\/\/www.entler.com.br\/textos\/baudelaire2.html\" target=\"_blank\">O p\u00fablico moderno e a fotografia<\/a><\/em>), que parecem suficientes para apontar a viol\u00eancia de sua investida. O alvo de Baudelaire n\u00e3o \u00e9 propriamente a fotografia. Ela \u00e9 apenas sintoma de um problema maior que ele observa: o gosto pelo banal e o recurso a um realismo vulgar que se manifesta nas pinturas que ele encontra no <i>Salon<\/i> de 1859.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que ele ironizava era sobretudo o discurso que ajudava a difundir a fotografia e que encantava as multid\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cCreio na natureza e creio somente na natureza (h\u00e1 boas raz\u00f5es para isso). Creio que a arte \u00e9 e n\u00e3o pode ser outra coisa al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o exata da natureza (um grupo t\u00edmido e dissidente reivindica que objetos de car\u00e1ter repugnante sejam descartados, como um penico ou um esqueleto). Assim, o mecanismo que nos oferecer um resultado id\u00eantico \u00e0 natureza ser\u00e1 a arte absoluta&#8221;. Um Deus vingador acolheu as s\u00faplicas desta multid\u00e3o. Daguerre foi seu Messias. E ent\u00e3o ela diz a si mesma: &#8220;Visto que a fotografia nos d\u00e1 todas as garantias desej\u00e1veis de exatid\u00e3o (eles cr\u00eaem nisso, os insensatos), a arte \u00e9 a fotografia\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Baudelaire n\u00e3o via um destino promissor para uma imagem que era orgulhosamente apresentada como emblema dos progressos t\u00e9cnicos: \u201cque ela retorne ao seu verdadeiro dever, que \u00e9 o de ser a serva das ci\u00eancias e das artes, a mais humilde das servas\u201d. De fato, a fotografia se afirmava no momento certo, mas com os argumentos errados. E o que nos assombra em Baudelaire \u00e9, no final das contas, o modo como ele exp\u00f5e o desconforto hist\u00f3rico que marca esse lugar demasiadamente pequeno que foi dado \u00e0 fotografia.<\/p>\n<p>Tudo o que \u00e9 tensionado pela hist\u00f3ria \u00e9 potencialmente fantasmag\u00f3rico. Uma imagem \u00e9 muito mais que sua emuls\u00e3o, como uma antiga casa \u00e9 mais do que suas paredes. Essas superf\u00edcies ocultam camadas de tempo que s\u00e3o inapreens\u00edveis e que retornam como assombra\u00e7\u00e3o quando s\u00e3o recalcadas. \u00c9 pelos velhos retratos pendurados nas paredes das casas que os antigos habitantes observam os rec\u00e9m chegados, como sugeria Scooby Doo em suas hist\u00f3rias de fantasmas para crian\u00e7as. \u00c9 pelas fissuras das imagens que um tempo se comunica com outro, como sugere Didi-Huberman, em suas \u201chist\u00f3rias de fantasmas para adultos\u201d (<a href=\"http:\/\/www.raf.ifac.ufop.br\/pdf\/artefilosofia_12\/(10)eduardo%20jorge.pdf\">\u00e9 assim que ele se refere \u00e0 cole\u00e7\u00e3o de imagens organizada por Aby Warburg<\/a>).<\/p>\n<p>Esse objeto fantasmag\u00f3rico da mem\u00f3ria s\u00f3 nos apavora quando \u00e9 rejeitado em sua pr\u00f3pria casa. \u00c9 a partir dessa constata\u00e7\u00e3o que alguns daqueles filmes de terror trazem a possibilidade de reden\u00e7\u00e3o, tanto do fantasma quanto dos novos moradores: a alma penada encontra finalmente seu descanso assim que \u00e9 compreendida em seu drama e acolhida no seio da nova fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando o elegemos como inimigo da fotografia, tornamos Baudelaire um fantasma em sua pr\u00f3pria casa: a modernidade. Ele foi amigo \u00edntimo de dois dos melhores fot\u00f3grafos de franceses, Etienne Carjat e Nadar, e dedicou a este \u00faltimo o poema \u201cO sonho de um curioso\u201d. Deixou-se fotografar uma meia d\u00fazia de vezes, e tamb\u00e9m pediu \u00e0 sua m\u00e3e que lhe enviasse um retrato, alertando que era preciso saber escolher bem o est\u00fadio: \u201cmuitos fot\u00f3grafos, mesmo alguns excelentes, t\u00eam manias rid\u00edculas: eles tomam por uma boa imagem aquela em que todas as verrugas, todas as rugas, todos os defeitos, todas as trivialidades do rosto se tornam muito vis\u00edveis, muito exageradas: quanto mais dura \u00e9 a imagem, mais satisfeitos eles ficam\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o soubemos ouvi-lo. Depois, gastamos mais de um s\u00e9culo tentando desconstruir aquelas \u201cgarantias desej\u00e1veis de exatid\u00e3o\u201d que os fot\u00f3grafos prometiam e das quais Baudelaire soube precocemente duvidar (\u201celes creem nisso, os insensatos\u201d). Tamb\u00e9m n\u00e3o soubemos lidar com a express\u00e3o melanc\u00f3lica que trazia em alguns retratos \u2013 assim como em sua literatura \u2013, esse olhar pouco acomodado ao fluxo das novas imagens e da nova metr\u00f3pole. Ele sabia estar um pouco dentro e um pouco fora dos movimentos da multid\u00e3o, e assumia diante dela certo descompasso para extrair dos solavancos suas imagens mais representativas e cr\u00edticas. Sua forma de acolher tudo aquilo que pertencia ao seu tempo n\u00e3o era nem a recusa nem o deslumbramento. Exatamente por isso ele foi moderno.<\/p>\n<p>Baudelaire tamb\u00e9m queria brincar. No poema dedicado a Nadar, ele fala dos sentimentos amb\u00edguos gerados pela lente de uma c\u00e2mera que est\u00e1 prestes a se abrir (\u00e9 talvez essa mesma ansiedade que o fez aparecer, por detr\u00e1s de um fundo, num retrato alheio): \u201ceu era como uma crian\u00e7a \u00e1vida do espet\u00e1culo, odiando a cortina como quem odeia um obst\u00e1culo\u201d. Queria brincar, mas era estranho demais \u00e0queles que dominavam esse jogo, porque n\u00e3o trazia no rosto a mesma express\u00e3o de euforia.<\/p>\n<p>Tanto faz se aquele intruso era ou n\u00e3o Baudelaire. Potencialmente, esse vulto tremido \u00e9 um retrato muito fiel de algu\u00e9m que ocupava um lugar impreciso em seu tempo e que, por ter sido colocado for\u00e7osamente \u00e0 margem dos debates sobre a fotografia, retornar\u00e1 de vez em quando como fantasma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas, foi divulgado um retrato feito no s\u00e9culo XIX de um certo Sr. Arnauldet, e que deixa aparecer ao fundo um intruso que foi identificado como sendo Baudelaire. Foi Serge Plantureux, marchand de fotografias de Paris, quem adquiriu essa imagem e, a partir de alguns dados levantados na Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a, convenceu-se de que eram grandes as chances de se tratar mesmo daquele poeta. O modo hesitante como espia a performance do fot\u00f3grafo e do fotografado denuncia sua consci\u00eancia de estar onde n\u00e3o deveria. 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