{"id":640,"date":"2010-03-22T07:02:10","date_gmt":"2010-03-22T07:02:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=640"},"modified":"2016-05-28T14:33:02","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:02","slug":"o-triste-fim-de-sophie-calle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-triste-fim-de-sophie-calle\/","title":{"rendered":"O triste fim de Sophie Calle"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_644\" style=\"width: 279px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-644\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-644\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/sophie_calle11.jpg\" alt=\"Primeira p\u00e1gina do UOL, 21\/03\/2010.\" width=\"269\" height=\"269\" \/><p id=\"caption-attachment-644\" class=\"wp-caption-text\">Primeira p\u00e1gina do UOL, 21\/03\/2010.<\/p><\/div>\n<p>Ao acessar o portal UOL na manh\u00e3 de ontem, reconheci numa pequena foto que ilustrava a se\u00e7\u00e3o \u201cComportamento\u201d as figuras da artista Sophie Calle e de seu ex-namorado, o escritor Gregoire Bouillier. Ao lado da foto, um link em destaque: \u201cVoc\u00ea muda de personalidade quando est\u00e1 namorando?\u201d. Trata-se de um teste que, ao final de algumas perguntas, define o perfil da mulher em seu relacionamento. At\u00e9 onde pude ver, nada sobre Sophie Calle.<\/p>\n<p>Para os que n\u00e3o acompanharam as not\u00edcias recentes (se \u00e9 que isso foi poss\u00edvel), uma pequena apresenta\u00e7\u00e3o da artista: no ano passado, Sophie Calle chegou ao Brasil a convite do VideoBrasil, j\u00e1 como um dos mais importantes nomes da arte contempor\u00e2nea mundial, trazendo para S\u00e3o Paulo, Bahia e Rio de Janeiro a exposi\u00e7\u00e3o \u201cCuide de Voc\u00ea\u201d (Prenez soin de vous), destaque da Bienal de Veneza de 2007. Trata-se de uma esp\u00e9cie de performance na qual uma centena de mulheres interpretam o e-mail com que Bouillier, ent\u00e3o seu namorado, p\u00f4s fim \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre eles. A hist\u00f3ria pode parecer um tanto estranha, mas a exposi\u00e7\u00e3o foi incr\u00edvel.<\/p>\n<div id=\"attachment_645\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-645\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-645\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/calle-487x176.jpg\" alt=\"Cuide de Voc\u00ea, no Sesc Pomp\u00e9ia (imagem do blog do VideoBrasil\" width=\"487\" height=\"176\" \/><p id=\"caption-attachment-645\" class=\"wp-caption-text\">Cuide de Voc\u00ea, no Sesc Pomp\u00e9ia, em 2009 (imagem do blog do VideoBrasil)<\/p><\/div>\n<p>Estranha mesmo foi a<a href=\"http:\/\/http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7GiQW6naZg0\" target=\"_blank\"> participa\u00e7\u00e3o da artista na Flip<\/a> (Feira Liter\u00e1ria\u00a0International\u00a0de Paraty), pouco antes da exposi\u00e7\u00e3o, dividindo a mesa exatamente com Boullier, que havia escrito um livro (O convidado surpresa) sobre a rela\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p>Sophie Calle deixa um mal estar que \u00e9 o valor mesmo de sua obra: imposs\u00edvel dizer se o que vemos \u00e9 um relato sobre sua vida pessoal ou uma fic\u00e7\u00e3o constru\u00edda para o trabalho. Na verdade, essas duas situa\u00e7\u00f5es se sobrep\u00f5em na medida em que ela transforma em jogos suas experi\u00eancias afetivas, assim como vive intensamente os rituais que elabora como projeto art\u00edstico.<\/p>\n<p>Quem acompanhou um pouco das minhas <a href=\"http:\/\/www.entler.com.br\/textos\/testemunhos_silenciosos.html\" target=\"_blank\">\u00faltimas pesquisas<\/a>, sabe que gosto do trabalho dela. Tamb\u00e9m gostei muito da exposi\u00e7\u00e3o que veio ao Brasil. Mas essa superexposi\u00e7\u00e3o tem seu pre\u00e7o: ela se tornou uma celebridade. Dos mais sofisticados cadernos de cultura \u00e0s mais populares revistas de fofoca, o assunto era Sophie Calle, que chegou a se irritar o ass\u00e9dio da imprensa, apesar de permanecer muito receptiva \u00e0s quest\u00f5es do p\u00fablico. Foi uma febre interessante: enquanto alguns tomavam partido na briga do casal, outros se manifestaram de modo passional e perform\u00e1tico, brincando, eles pr\u00f3prios, de Sophie Calle.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de muitas exposi\u00e7\u00f5es de arte contempor\u00e2nea, a de Sophie Calle teve p\u00fablico e foi capaz de reunir nos mesmos espa\u00e7os figuras muito heterog\u00eaneas, de acad\u00eamicos a leitores de revistas femininas. E n\u00e3o importa o que as tenha levado \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, chegando l\u00e1, viram uma obra importante e tiveram a oportunidade de refletir sobre os limites da arte, com um belo trabalho feito pela equipe de educadores.<\/p>\n<p>Ser lembrada por todos, indiscriminadamente, \u00e9 uma conquista. O problema \u00e9 o que sobra quando o assunto sai de pauta e come\u00e7amos a esquec\u00ea-la. A imprensa funciona por impulso, cria debates importantes, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de sustent\u00e1-los por muito tempo. E muito rapidamente Calle passa de um fen\u00f4meno art\u00edstico \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o de um teste de personalidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 haveria o que dizer, mas nenhum novo espet\u00e1culo, nenhum novo esc\u00e2ndalo, apenas fatos: Calle voltou recentemente ao Rio, creio, sem o estrondo daquele primeiro momento na Flip e em S\u00e3o Paulo. H\u00e1 algumas semanas, venceu o Hasselblad Award 2010, <a href=\"http:\/\/www.fotoclubef508.com\/blog\/?p=13165\" target=\"_blank\">not\u00edcia que correu quase que exclusivamente pelos blogs<\/a>. Deve integrar nos pr\u00f3ximos meses a coletiva <em>Haunted: Contemporary Photography\/Video\/Performance<\/em> no Guggenheim, ao lado de nomes como Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jeff Wall, Cindy Sherman e o casal Becher.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas quest\u00f5es muito distintas que podem nos interessar:<\/p>\n<p>Primeiro, sobre a arte: temos lutado muito para ampliar o alcance da arte contempor\u00e2nea. Mas o artista, ao atingir o grande p\u00fablico, torna-se alvo da voracidade que marca toda experi\u00eancia de consumo de massa: ele se transforma em objeto de culto com a mesma velocidade com que desaparece de cena. Aqui, um desafio para os educadores: h\u00e1 um trabalho a ser feito para garantir a compreens\u00e3o das exposi\u00e7\u00f5es, isoladamente. H\u00e1 outro trabalho a ser feito para formar efetivamente um p\u00fablico para a arte contempor\u00e2nea. Este \u00faltimo \u00e9 muito mais dif\u00edcil e, para ele, n\u00e3o se pode contar tanto com a imprensa. \u00c9 preciso form\u00e1-la tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Segundo, sobre os usos das fotografias: podemos nos divertir tentando imaginar quais eram as duas ou tr\u00eas palavras chaves que indexavam a fotografia de Calle e Boullier no banco de imagens, e que os trouxeram at\u00e9 essa situa\u00e7\u00e3o. Mas a quest\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria. A produtividade que se alcan\u00e7a com os bancos de imagem \u00e9 incr\u00edvel, mas precisamos distinguir entre \u201cac\u00famulo de informa\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cprodu\u00e7\u00e3o de conhecimento\u201d, entre \u201cilustra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cmem\u00f3ria\u201d. A quest\u00e3o agora \u00e9 pensar em como dar sentido a todo o material acumulado nas redes privadas ou abertas. Quanto maior a disponibilidade de imagens, mais complexas e dif\u00edceis se tornam suas possibilidades de recupera\u00e7\u00e3o, de an\u00e1lise e de uso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao acessar o portal UOL na manh\u00e3 de ontem, reconheci numa pequena foto que ilustrava a se\u00e7\u00e3o \u201cComportamento\u201d as figuras da artista Sophie Calle e de seu ex-namorado, o escritor Gregoire Bouillier. Ao lado da foto, um link em destaque: \u201cVoc\u00ea muda de personalidade quando est\u00e1 namorando?\u201d. 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