{"id":6388,"date":"2013-11-09T18:14:14","date_gmt":"2013-11-09T18:14:14","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=6388"},"modified":"2016-05-28T14:03:58","modified_gmt":"2016-05-28T14:03:58","slug":"sobre-fantasmas-e-nomenclaturas-parte-2-portfolio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sobre-fantasmas-e-nomenclaturas-parte-2-portfolio\/","title":{"rendered":"Sobre fantasmas e nomenclaturas [parte 2]: &quot;portf\u00f3lio&quot;"},"content":{"rendered":"<p>O portf\u00f3lio \u00e9 um instrumento que agencia muita coisa na carreira de um artista. Mas ele \u00e9 instrumento, n\u00e3o \u00e9 obra. Fot\u00f3grafos, em particular, s\u00e3o muito apegados a esse modelo de apresenta\u00e7\u00e3o de seus trabalhos e correm \u00e0s vezes o risco de tom\u00e1-lo como objetivo mesmo de sua produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, pesa sobre o portf\u00f3lio uma tradi\u00e7\u00e3o que pensa\u00a0a fotografia como uma arte de grandes tomadas, de momentos \u00fanicos, de boas composi\u00e7\u00f5es, de imagens que se bastam, obras para serem contempladas em sil\u00eancio, isoladas num espa\u00e7o pr\u00f3prio demarcado pelo <i>passepartout<\/i>.<\/p>\n<p>Por sua vez, as leituras de portf\u00f3lio t\u00eam sido para os artistas um lugar fundamental de di\u00e1logo que tanto colabora com o desenvolvimento de seus trabalhos, quanto cria oportunidades de escoar sua produ\u00e7\u00e3o. Mas esse formato de interlocu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m muito explorado nos eventos de fotografia, nem sempre aproveita todo o potencial do encontro entre artistas e cr\u00edticos, sobretudo porque convida a apresentar resultados mais ou menos acabados ou, pelo menos, um recorte muito est\u00e1tico da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_6389\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/portfolio_review_fotofest.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6389\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6389\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/portfolio_review_fotofest-620x342.jpg\" alt=\"Leitura de porfolio no Fotofest 2011, em Moscou.\" width=\"620\" height=\"342\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6389\" class=\"wp-caption-text\">Leitura de porfolio no Fotofest 2011, em Moscou.<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 verdade que artistas e cr\u00edticos podem ser melhores do que os velhos h\u00e1bitos que essa denomina\u00e7\u00e3o convoca.\u00a0Em todo caso, \u00e9 importante tomar consci\u00eancia do quanto um vocabul\u00e1rio pode ancorar uma din\u00e2mica numa tradi\u00e7\u00e3o que merece ser superada.\u00a0O portf\u00f3lio \u00e9 utilit\u00e1rio, um meio a que o artista recorre para mostrar um panorama ou um recorte de sua produ\u00e7\u00e3o. Nos tempos em que ainda havia emprego para fot\u00f3grafos, lev\u00e1vamos nossos portf\u00f3lios aos editores, mostrando um apanhado de tudo o que sab\u00edamos fazer. Hoje, ele ainda serve para que o artista se apresente a um curador ou galerista, para que participe de um processo seletivo, para que venda um projeto. O portf\u00f3lio \u00e9, ent\u00e3o, esse momento intermedi\u00e1rio entre uma compet\u00eancia demonstrada e uma pr\u00f3xima realiza\u00e7\u00e3o. Mas ele \u00e9 insuficiente como obra.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 sugeri, o problema existe quando o fot\u00f3grafo se contenta em ter como meta a produ\u00e7\u00e3o de um bom portf\u00f3lio. Nesse caso, a leitura de portf\u00f3lio tem algo de tautol\u00f3gico: serve apenas para melhorar o portf\u00f3lio! Esse mostru\u00e1rio neutro e idealizado \u00e9 sintoma do pensamento que toma a imagem como entidade aut\u00f4noma, pura, um pouco sagrada, um pouco metaf\u00edsica, que quase independe de um modo de materializa\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 a vers\u00e3o bidimensional do cubo branco.<\/p>\n<p>Consequ\u00eancia disso \u00e9 que muitos fot\u00f3grafos conseguem investir na produ\u00e7\u00e3o de boas\u00a0 imagens, mas n\u00e3o na din\u00e2mica efetiva que elas podem criar num espa\u00e7o, diante de uma performance do olhar: uma montagem, uma proje\u00e7\u00e3o, uma interven\u00e7\u00e3o num ambiente, um objeto, um livro de artista. Essas seriam apenas formas incidentais de encarna\u00e7\u00e3o de suas imagens, que s\u00e3o boas o bastante independentemente de como s\u00e3o mostradas.<\/p>\n<p>O desejo de construir um portf\u00f3lio bem resolvido e acabado tamb\u00e9m dificulta pensar no trabalho como processo. Sob a perspectiva dessa tradi\u00e7\u00e3o, o que resta de processual a discutir \u00e9 a possibilidade de um melhor tratamento, uma melhor impress\u00e3o e uma melhor \u201cedi\u00e7\u00e3o\u201d, aqui entendida como boa sequ\u00eancia de imagens.<\/p>\n<p>Um portf\u00f3lio fechado d\u00e1 ao cr\u00edtico que faz a leitura um lugar igualmente est\u00e1tico. Ele se senta em sua mesa portando apenas seu olhar atento e suas convic\u00e7\u00f5es, aguardando um artista que chega um tanto t\u00edmido e respeitoso, senta-se \u00e0 sua frente, apresenta-se, abre suas imagens, e aguarda com uma postura solene que o cr\u00edtico apresente seu veredito. Afinal, cr\u00edtica \u00e9 julgamento. Esta \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o um tanto ran\u00e7osa de cr\u00edtica de arte, em que o artista exibe seu trabalho e o cr\u00edtico, falando de certa dist\u00e2ncia (e de certa estatura), decide se oferece ou n\u00e3o sua legitima\u00e7\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de ben\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A intera\u00e7\u00e3o entre cr\u00edticos e artistas sempre existiu, mas ganha mais recentemente estrat\u00e9gias mais pontuais e transparentes por meio de grupos de estudo e de acompanhamentos de projetos. Demonstra\u00e7\u00e3o disso, \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de \u201ccr\u00edtica de processo\u201d (que, aqui no Brasil, tem sido difundida pelas pesquisas da professora Cec\u00edlia Salles). Isso tem levado muitas vezes o cr\u00edtico ao ateli\u00ea do artista e permite di\u00e1logos de dura\u00e7\u00e3o mais longa e produtiva. Isso perturba de modo muito saud\u00e1vel tanto o sil\u00eancio do espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o e quanto a autoridade da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil reproduzir essas condi\u00e7\u00f5es no pequeno espa\u00e7o e tempo restritos das leituras de portf\u00f3lio. Mas cabem alguns esfor\u00e7os: assumir a leitura como interven\u00e7\u00e3o num processo; dar ao artista a liberdade de levar trabalhos menos acabados \u2013 quem sabe, apenas come\u00e7ados, na forma de esbo\u00e7os, de ideias, de textos \u2013 e, em contrapartida, mais contextualizados em sua trajet\u00f3ria; dar ao cr\u00edtico oportunidade de ter previamente informa\u00e7\u00f5es sobre o trabalho que ver\u00e1, e permitir que ele contribua mais com perguntas e refer\u00eancias que se assumem como provis\u00f3rias, e menos com vereditos. Tudo isso pode libertar a no\u00e7\u00e3o de portf\u00f3lio dos v\u00edcios de sua tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos espa\u00e7os acad\u00eamicos de forma\u00e7\u00e3o em artes, a preocupa\u00e7\u00e3o de pensar a obra dentro de um processo e de um contexto j\u00e1 se faz refletir num jarg\u00e3o pr\u00f3prio: reconhecemos esse lugar de origem quando o artista apresenta seu trabalho falando em \u201cminha pesquisa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Assim como um termo arcaico n\u00e3o implica uma pr\u00e1tica problem\u00e1tica, uma palavra sofisticada n\u00e3o salva uma produ\u00e7\u00e3o ou um pensamento da superficialidade. N\u00e3o basta trocar a express\u00e3o \u201cmeu portf\u00f3lio\u201d por \u201cmeu processo\u201d ou \u201cminha pesquisa\u201d. Mas a escolha do vocabul\u00e1rio esconde uma preocupa\u00e7\u00e3o interessante: a ideia de pesquisa sugere a exist\u00eancia de problemas ou quest\u00f5es que atravessam as diferentes produ\u00e7\u00f5es de um artista, e t\u00eam o m\u00e9rito de permitir enxergar um processo mais amplo, mesmo quando envolve obras acabadas e projetos conclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Nos eventos de fotografia, as leituras de portf\u00f3lio parecem constituir solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, porque permitem colocar um grande n\u00famero de participantes em intera\u00e7\u00e3o com os convidados mais ilustres. Mas, olhando de longe, esse atendimento em massa, organizado e eficaz, cria em alguns grandes festivais cen\u00e1rios que parecem o de uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, do tipo \u201cPoupa-Tempo\u201d. Olhando de perto, a autoridade dos leitores e o tempo dispon\u00edvel resultam numa esp\u00e9cie atividade m\u00edstica, em que as imagens podem ser lidas com uma sabedoria esot\u00e9rica, como cartas de tar\u00f4 que permitem dizer sobre o futuro de um artista.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>PS.: Achei que n\u00e3o seria ocasi\u00e3o de entrar aqui na no\u00e7\u00e3o de \u201cleitura\u201d, termo que \u00e9 evidentemente tomado de empr\u00e9stimo da linguagem verbal, mas que j\u00e1 tem uma boa acomoda\u00e7\u00e3o no campo das imagens (ver, por exemplo, <i>Leituras sem palavras<\/i>, de Lucr\u00e9cia D\u2019Alessio Ferrara, <i>Lendo imagens<\/i>, de Alberto Manguel e, ainda, um interessante debate no blog <a href=\"http:\/\/setefotografia.wordpress.com\/2012\/05\/07\/3091\/\" target=\"_blank\"><i>Sete Fotografia<\/i><\/a>. Por enquanto, podemos assumir sem muitos traumas certo uso metaf\u00f3rico dessa express\u00e3o. Mas tamb\u00e9m vale a discuss\u00e3o futuramente.<\/p>\n<p>PS2.: A primeira parte desta s\u00e9rie, dedicada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de &#8220;ensaio autoral&#8221;, pode se acessada <a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5179\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O portf\u00f3lio \u00e9 um instrumento que agencia muita coisa na carreira de um artista. Mas ele \u00e9 instrumento, n\u00e3o \u00e9 obra. Fot\u00f3grafos, em particular, s\u00e3o muito apegados a esse modelo de apresenta\u00e7\u00e3o de seus trabalhos e correm \u00e0s vezes o risco de tom\u00e1-lo como objetivo mesmo de sua produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, pesa sobre o portf\u00f3lio uma tradi\u00e7\u00e3o que pensa\u00a0a fotografia como uma arte de grandes tomadas, de momentos \u00fanicos, de boas composi\u00e7\u00f5es, de imagens que se bastam, obras para serem contempladas em sil\u00eancio, isoladas num espa\u00e7o pr\u00f3prio demarcado pelo passepartout. 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