{"id":6371,"date":"2013-10-23T18:00:37","date_gmt":"2013-10-23T18:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=6371"},"modified":"2023-03-02T21:01:29","modified_gmt":"2023-03-02T21:01:29","slug":"fotografia-e-metalinguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografia-e-metalinguagem\/","title":{"rendered":"Fotografia e metalinguagem"},"content":{"rendered":"<p>Tenho muita curiosidade pelas fotografias que remetem \u00e0 pr\u00f3pria fotografia. Dedico uma aten\u00e7\u00e3o especial a essas imagens que coleto aleatoriamente em sebos e outros espa\u00e7os e que re\u00fanem dados que algu\u00e9m julgou sem import\u00e2ncia. Mas sempre busco questionar a fotografia que fala dela mesmo. Quais crit\u00e9rios estabelecer para buscar na imagem alguma \u201ccentelha do acaso\u201d que remeta \u00e0 pr\u00f3pria fotografia? Os limites que demarcam essas possibilidades geralmente s\u00e3o nebulosos e quase sempre subjetivos. Mesmo assim, venho colecionando fotografias que de alguma forma \u201cfalam\u201d da pr\u00f3pria fotografia.<\/p>\n<p>Em seu importante estudo sobre lingu\u00edstica e po\u00e9tica Roman Jakobson (1896 \u2013 1982) reconhece a metalinguagem como uma das fun\u00e7\u00f5es fundamentais da linguagem (ver <i>Lingu\u00edstica e Comunica\u00e7\u00e3o; Fun\u00e7\u00e3o Metalingu\u00edstica<\/i>). Sabemos que o conceito de metalinguagem n\u00e3o est\u00e1 livre de cr\u00edticas, sendo uma delas a sua extrema relatividade. Mesmo assim entendemos a metalinguagem como uma fun\u00e7\u00e3o da linguagem que faz refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria linguagem. No caso da linguagem fotogr\u00e1fica, \u00e9 a fotografia reverenciando a pr\u00f3pria fotografia, ou seja, a imagem que recorre a artif\u00edcios de constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria imagem ou a outras imagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_6422\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0027.jpg\" data-size=\"720x1218\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6422\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-6422\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0027-296x500.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"457\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0027-296x500.jpg 296w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0027-532x900.jpg 532w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0027.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6422\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo.<\/p><\/div>\n<p>Na hist\u00f3ria da fotografia temos muitos exemplos. Os mais expressivos se deram no per\u00edodo das vanguardas, ocasi\u00e3o em que tanto os futuristas italianos (ou fotodinamismo) quanto os dada\u00edstas abusaram criativamente da possibilidade metalingu\u00edstica da fotografia. Mas meu interesse n\u00e3o est\u00e1 centrado exclusivamente nas experi\u00eancias mais radicais e facilmente reconhec\u00edveis, mas sim nos fot\u00f3grafos amadores, desconhecidos que intuitivamente incorporaram as refer\u00eancias citadas e \u201cbrincaram\u201d livremente com os aparelhos.<\/p>\n<p>Na fotografia ao lado, em cujo verso pode-se ler \u201cS\u00e3o Paulo, 4 de outubro de 1922\u201d, vemos uma senhora e uma menina. Em seu corpo repousa um velho \u00e1lbum de fotografias que \u00e9 parte da mem\u00f3ria familiar. O retrato fica mais espont\u00e2neo quando percebemos que a menina abra\u00e7a a senhora e sutilmente tem sua perna esquerda dobrada e apoiada no sof\u00e1. Um retrato que traz dentro dele a pr\u00f3pria fotografia. O vestido preto da senhora sentada se articula com as manchas pretas que pontuam os retratos do \u00e1lbum e o vestido branco da menina em p\u00e9, com os espa\u00e7os brancos da imagem. Como se a imagem colocasse o preto e o branco como polos opostos de uma rela\u00e7\u00e3o temporal. Seria essa a inten\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo? Ou o acaso e a dist\u00e2ncia no tempo \u00e9 que viabilizam essa poss\u00edvel leitura? De qualquer modo, o sintagma imagem tem como um de seus paradigmas outra imagem, no caso, o \u00e1lbum de fotografias.<\/p>\n<div id=\"attachment_6423\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0004.jpg\" data-size=\"720x1021\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6423\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-6423\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0004.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"383\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0004.jpg 720w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0004-353x500.jpg 353w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0004-635x900.jpg 635w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6423\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo<\/p><\/div>\n<p>Gosto de imaginar a <i>performance<\/i> do fot\u00f3grafo que cria uma esp\u00e9cie de superf\u00edcie imag\u00e9tica ilus\u00f3ria que pode ser entendida como a componente essencial do realismo fotogr\u00e1fico. Outra fotografia bastante comum entre os amadores \u00e9 um retrato realizado em ambiente externo que obedece rigorosamente os preceitos de produzir a imagem com a luz incidindo sobre o objeto fotografado, no caso, o casal enamorado. Veja como ela \u2013 sim, pela sombra alongada que rouba a cena e invade a fotografia trata-se de uma mulher fot\u00f3grafa \u2013 circunscreveu sua inclus\u00e3o na imagem que produziu. Lembra Benjamin \u201cdepois de mergulharmos suficientemente fundo em imagens assim, percebemos que tamb\u00e9m aqui os extremos se tocam: a t\u00e9cnica mais exata pode dar \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es um valor m\u00e1gico que um quadro nunca mais ter\u00e1 para n\u00f3s. (&#8230;) A natureza que fala \u00e0 c\u00e2mera n\u00e3o \u00e9 a mesma que fala ao olhar; \u00e9 outra, especialmente porque substitui a um espa\u00e7o trabalhado conscientemente pelo homem, um espa\u00e7o que ele percorre inconscientemente.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0019.jpg\" data-size=\"720x392\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-6424 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0019-674x367.jpg\" alt=\"An\u00f4nimo\" width=\"674\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0019-674x367.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0019-360x196.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0019.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a>Se entendermos a vida como a nossa primeira experi\u00eancia ficcional, fica muito mais f\u00e1cil adentrar esse universo das fotografias an\u00f4nimas, ocasi\u00e3o em que \u00e9 poss\u00edvel identificar algumas experi\u00eancias, e tentar reconstituir alguma hist\u00f3ria a partir de seus vest\u00edgios. Esta fotografia em torno de uma fonte d\u2019\u00e1gua, que se torna um espelho que reflete a imagem dos personagens \u00e9 outro exerc\u00edcio metalingu\u00edstico provocado pela imagem an\u00f4nima. Datada de 1933, tamb\u00e9m podemos desenvolver a rela\u00e7\u00e3o direta entre o positivo fotogr\u00e1fico e seu negativo, aqui representado exatamente pelo reflexo mais escuro e impreciso na superf\u00edcie da \u00e1gua. O que parece ser uma imagem despretensiosa pode ser entendida hoje como um interessante exerc\u00edcio da modernidade fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Quero com isso dizer que, aos poucos, a fotografia foi adentrando o universo ordin\u00e1rio do cotidiano e os fot\u00f3grafos amadores quase que mimeticamente replicavam as imagens que viam nas revistas ilustradas. Jacques Ranci\u00e8re defende a ideia de que \u201ca revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica vem depois da revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mas a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 antes de tudo a gl\u00f3ria do <i>qualquer um<\/i>\u201d. Ou seja, os artistas das vanguardas provocaram a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; a ind\u00fastria facilitou tecnicamente esse fazer est\u00e9tico; os amadores deram especial visibilidade a essas imagens, facilitadas tecnicamente, em seus \u00e1lbuns. \u201cO banal torna-se belo como rastro do verdadeiro\u201d, lembra Ranci\u00e8re ao discutir a tradi\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<div id=\"attachment_6425\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003.jpg\" data-size=\"720x475\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6425\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-6425 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003-674x445.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003-674x445.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003-360x238.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003-90x60.jpg 90w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Scan0003.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6425\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo<\/p><\/div>\n<p>Para finalizar essa primeira incurs\u00e3o da presen\u00e7a da fun\u00e7\u00e3o metalingu\u00edstica na produ\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo amador ou ent\u00e3o do fot\u00f3grafo ainda n\u00e3o consagrado pelo <i>mainstream<\/i>, destacamos este retrato ao lado. Uma jovem paradoxalmente de costas para o aparelho fotogr\u00e1fico, mas refletida quatro vezes em dois espelhos meticulosamente dispostos em \u00e2ngulo de 45\u00ba. A simultaneidade da imagem provoca uma inquieta recep\u00e7\u00e3o. N\u00f3s ocidentais queremos entender o procedimento, desenvolvido pioneiramente pelo artista futurista italiano Umberto Boccioni, em 1905. Mais uma vez as experi\u00eancias das vanguardas tiveram \u201cseus truques\u201d apropriados pelos numerosos est\u00fadios espalhados mundo afora.<\/p>\n<p>O que vemos nessas imagens \u00e9 a fus\u00e3o da poss\u00edvel realidade fotogr\u00e1fica com a sua pot\u00eancia ficcional, mundos que se mesclam, se interpenetram, se contaminam, esgar\u00e7ando uma gram\u00e1tica que tentou se impor nas primeiras d\u00e9cadas da fotografia, mas que n\u00e3o suportou prestar contas com a verdade. Ao rever essas imagens, parte de uma cole\u00e7\u00e3o mais ampla e expressiva, podemos atrav\u00e9s delas tentar constituir a leitura de uma outra hist\u00f3ria da fotografia com mais intelig\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho muita curiosidade pelas fotografias que remetem \u00e0 pr\u00f3pria fotografia. Dedico uma aten\u00e7\u00e3o especial a essas imagens que coleto aleatoriamente em sebos e outros espa\u00e7os e que re\u00fanem dados que algu\u00e9m julgou sem import\u00e2ncia. Mas sempre busco questionar a fotografia que fala dela mesmo. Quais crit\u00e9rios estabelecer para buscar na imagem alguma \u201ccentelha do acaso\u201d que remeta \u00e0 pr\u00f3pria fotografia? Os limites que demarcam essas possibilidades geralmente s\u00e3o nebulosos e quase sempre subjetivos. Mesmo assim, venho colecionando fotografias que de alguma forma \u201cfalam\u201d da pr\u00f3pria fotografia. 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