{"id":6297,"date":"2013-09-17T00:23:46","date_gmt":"2013-09-17T00:23:46","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=6297"},"modified":"2016-05-28T13:21:36","modified_gmt":"2016-05-28T13:21:36","slug":"imagens-posteriores-de-patricia-gouvea-e-o-espanto-das-viagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/imagens-posteriores-de-patricia-gouvea-e-o-espanto-das-viagens\/","title":{"rendered":"Imagens posteriores de Patricia Gouv\u00eaa e o espanto das viagens *"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6302\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/AIR_002.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6302\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6302\" alt=\"Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/AIR_002-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6302\" class=\"wp-caption-text\">Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012<\/p><\/div>\n<p>As imagens de Patricia Gouv\u00eaa me fizeram voltar no tempo, \u00e0quela \u00e9poca da emerg\u00eancia da fotografia, quando ela se apresenta como um dos mais insignificantes e interessantes dispositivos temporais da modernidade.<\/p>\n<p>Foi Victor Hugo quem me levou nesse deslocamento de tempo. Abandonava o presente para tentar compartilhar o espanto das viagens de trem do escritor franc\u00eas. Trilhando sua carta, redigida em 22 de agosto de 1837 (dois anos antes de a fotografia ser apresentada na academia francesa), podia, ent\u00e3o, ver atrav\u00e9s da janela do trem<\/p>\n<blockquote><p>que as flores \u00e0 margem da estrada n\u00e3o s\u00e3o flores, mas manchas, ou melhor riscos, vermelhos ou brancos; j\u00e1 n\u00e3o existem pontos, tudo se torna riscos; os campos de trigo s\u00e3o grandes cabeleiras amarelas; campos de alfafa, longas tran\u00e7as verdes; as cidades, os campan\u00e1rios e as \u00e1rvores encenam uma louca dan\u00e7a misturando-se no horizonte; de quando em quando, uma sombra, uma forma, um espectro aparece e desaparece como um rel\u00e2mpago por tr\u00e1s da janela: \u00e9 o chefe da esta\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_6299\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EARTH_005.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6299\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6299\" alt=\"Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EARTH_005-620x412.jpg\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6299\" class=\"wp-caption-text\">Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012<\/p><\/div>\n<p>Victor Hugo me faz sentir uma vis\u00e3o profundamente debilitada pela velocidade, algo que provavelmente n\u00e3o estava relacionado a nenhuma defici\u00eancia fisiol\u00f3gica. Mais do que isso, entre 1770 e 1830, as possibilidades in\u00e9ditas do sistema ferrovi\u00e1rio relacionavam-se ao problema da experi\u00eancia do sujeito moderno que, nesse momento, estava em franca transforma\u00e7\u00e3o. O tempo das viagens entre as mais importantes cidades europeias ca\u00edra pela metade. As novas rela\u00e7\u00f5es entre espa\u00e7o e tempo produziam ent\u00e3o uma nova geografia, agora baseada na condi\u00e7\u00e3o da velocidade. O que \u00e9 decisivo, nesse momento, n\u00e3o \u00e9 exatamente a medida objetiva da dist\u00e2ncia, mas a rela\u00e7\u00e3o potencial de tal dist\u00e2ncia. As novas tecnologias de transporte tinham a velocidade como promessa inerente, e isso parecia causar, a princ\u00edpio, enorme sensa\u00e7\u00e3o de perturba\u00e7\u00e3o e estresse. A velocidade \u00e9 vivida, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, como desorienta\u00e7\u00e3o, invisibilidade, impossibilidade de distinguir objetos atrav\u00e9s da janela, como constatam outros depoimentos da \u00e9poca (1838): \u201c\u00e9 imposs\u00edvel reconhecer uma pessoa de p\u00e9, \u00e0 beira da estrada, passando por ela na velocidade atual dos trens.\u201d Ou ainda: \u201c\u00e1rvores, choupanas, etc.: t\u00e3o logo algu\u00e9m se volta para olh\u00e1-las, elas h\u00e1 muito se foram\u201d, dizia Jacob Burkhardt, em 1840. Muito interessante o desconforto que a velocidade causa aos corpos e subjetividades ainda n\u00e3o calibrados da segunda metade do s\u00e9culo XIX. Como criticava o editorial do jornal m\u00e9dico <i>The Lancet<\/i>, em 1867:<\/p>\n<blockquote><p>a rapidez e a variedade dessas vis\u00f5es atrav\u00e9s do trem causariam necessariamente fadiga tanto ao olho quanto ao c\u00e9rebro: \u201cA dist\u00e2ncia constantemente vari\u00e1vel a que os objetos s\u00e3o colocados envolve um trabalho de adapta\u00e7\u00e3o incessante do aparelho que os focaliza sobre a retina (\u2026) o excesso de atividade funcional sempre implica a destrui\u00e7\u00e3o de material e a mudan\u00e7a org\u00e2nica da subst\u00e2ncia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Qual poderia ser o efeito das viagens ferrovi\u00e1rias? \u00c9 como se a paisagem de velocidade dos trens da primeira metade do s\u00e9culo XIX tivesse impregnado toda a percep\u00e7\u00e3o, dentro ou fora da viagem. Tudo indica que, ao ocorrer tal intensifica\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos, as no\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o e de tempo pareciam estar sendo profundamente alteradas. De acordo com o escritor alem\u00e3o Heine Lutezia, em carta redigida numa viagem de Paris a Orleans, em 1843, \u201co que muda agora precisa ocorrer em nosso modo de olhar as coisas, em nossa no\u00e7\u00e3o! Mesmo os conceitos elementares de tempo e espa\u00e7o come\u00e7aram a vacilar. As ferrovias matam o espa\u00e7o, restando-nos somente o tempo&#8230;\u201d De fato, nem o tempo poderia ser mantido intacto, pois, se havia algum aniquilamento do espa\u00e7o, esse n\u00e3o poderia ser realizado sen\u00e3o pela velocidade.<\/p>\n<p>Tratava-se da mesma profecia de velocidade que fundamentou os discursos sobre o advento da fotografia instant\u00e2nea. Como as velocidades propostas pelos novos trens, a fotografia prometia mais do que uma capacidade atual de rapidez: ela sugeria uma rela\u00e7\u00e3o potencial de velocidade e, simultaneamente, de durabilidade. Promessa que, mesmo n\u00e3o cumprida imediatamente, j\u00e1 conformava, em pot\u00eancia, uma nova percep\u00e7\u00e3o. O que a fotografia estaria habilitada a fazer quando inevitavelmente progredisse?<\/p>\n<div id=\"attachment_6298\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Scan015retalt.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6298\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6298\" alt=\"Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Scan015retalt-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6298\" class=\"wp-caption-text\">Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012<\/p><\/div>\n<p>Congelar. Fixar. Tornar n\u00edtida a imagem do tempo. Tornar im\u00f3vel as vistas modernas.<\/p>\n<p>Parar o trem. Conter o progresso do esquecimento. Assegurar o dom\u00ednio do indom\u00e1vel tempo moderno. Tranquilizar a percep\u00e7\u00e3o de um corpo que s\u00f3 poderia perceber a intranquilidade das velocidades in\u00e9ditas que sobrecarregam as vidas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Assim, todo o desenvolvimento fotogr\u00e1fico \u00e9 sustentado por um desejo de instantaneidade que ir\u00e1 solucionar o desconforto que novos procedimentos, como as viagens ferrovi\u00e1rias, produziam. N\u00e3o por acaso a fotografia instant\u00e2nea ganhou legitimidade e a autoridade para enunciar o mundo, questionar o vis\u00edvel, impondo-se como paradigma da fotografia do s\u00e9culo XX, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o, borrar hoje as imagens? Por que a estrat\u00e9gia, simples tecnicamente, de evocar os fantasmas do advento da fotografia, os borr\u00f5es causados pelas longas exposi\u00e7\u00f5es? Por que abdicar, mesmo que momentaneamente, daquilo que foi n\u00e3o apenas um projeto \u201cbem-sucedido\u201d, mas tamb\u00e9m um modo naturalizado na hist\u00f3ria da fotografia e apreendido t\u00e3o facilmente pelo olhar contempor\u00e2neo?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que as \u201cimagens posteriores\u201d de Patricia Gouv\u00eaa retomam o tempo em que a fotografia vivia n\u00e3o ao sabor do instante, mas longamente no interior dele?<\/p>\n<p>Arrisco a dizer que n\u00e3o se trata de evocar simplesmente a hist\u00f3ria da fotografia. Mas ao faz\u00ea-lo, sublinhar aquilo que difere. Sublinhar o tempo que habitamos hoje. N\u00e3o nos espantamos mais com a velocidade; a vida hiperacelaerada do nosso presente cont\u00ednuo \u00e9 a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do que somos hoje, do que pensamos, do que desejamos, do que memorizamos e, principalmente, do que esquecemos. \u00c9 com frui\u00e7\u00e3o que vemos as imagens de Patricia. Prazer est\u00e9tico. As paisagens arrastadas das viagens de Patricia nos fazem lembrar n\u00e3o apenas do que modernamente fomos um dia feitos, mas, principalmente do que contemporaneamente estamos sendo feitos.<\/p>\n<div id=\"attachment_6301\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/WATER_003.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6301\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6301\" alt=\"Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/WATER_003-620x416.jpg\" width=\"620\" height=\"416\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6301\" class=\"wp-caption-text\">Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012<\/p><\/div>\n<p>Desconfio tamb\u00e9m que junto delas suspire a voz de Bergson, que dizia, ainda no final do s\u00e9culo XIX, que dever\u00edamos nos habituar a pensar a dura\u00e7\u00e3o e a\u00ed&#8230; imediatamente o que estava entorpecido poderia distender-se:<\/p>\n<blockquote><p>Diante do espet\u00e1culo dessa mobilidade universal, alguns de n\u00f3s ser\u00e3o tomados de vertigem. Est\u00e3o acostumados \u00e0 terra firme; n\u00e3o conseguem se acostumar (&#8230;) Precisam de pontos fixos aos quais amarrar as ideias e a exist\u00eancia. Acreditam que se tudo passa; nada existe; e que, se a realidade \u00e9 mobilidade, ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 no momento em que a pensamos (&#8230;) \u2013 Podem ficar tranquilos! A mudan\u00e7a, se consentirem em olhar para ela diretamente, sem v\u00e9u interposto, logo lhes aparecer\u00e1 como o que pode haver de mais substancial e duradouro no mundo. Sua solidez \u00e9 infinitamente superior \u00e0 de uma fixidez que n\u00e3o passa de um arranjo ef\u00eamero entre mobilidades (&#8230;) Para n\u00f3s nunca h\u00e1 instant\u00e2neo (Bergson, em Mem\u00f3ria e Vida).<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_6300\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/FIRE_002.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6300\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6300\" alt=\"Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/FIRE_002-620x417.jpg\" width=\"620\" height=\"417\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6300\" class=\"wp-caption-text\">Patricia Gouv\u00eaa, Imagens posteriores, 2012<\/p><\/div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p>* Texto elaborado para lan\u00e7amento do livro Imagens Posteriores de Patricia Gouv\u00eaa, na livraria Cultura de Bras\u00edlia, 15 de abril de 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens de Patricia Gouv\u00eaa me fizeram voltar no tempo, \u00e0quela \u00e9poca da emerg\u00eancia da fotografia, quando ela se apresenta como um dos mais insignificantes e interessantes dispositivos temporais da modernidade. 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