{"id":606,"date":"2010-03-16T07:39:09","date_gmt":"2010-03-16T07:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=606"},"modified":"2016-05-28T13:53:41","modified_gmt":"2016-05-28T13:53:41","slug":"por-que-ver-os-classicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/por-que-ver-os-classicos\/","title":{"rendered":"Por que ver os cl\u00e1ssicos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_620\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-620\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-620\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/maureen11.jpg\" alt=\"Capa do Livro Fotografias, de Maureen Bisilliat, editado pelo IMS.\" width=\"250\" height=\"389\" \/><p id=\"caption-attachment-620\" class=\"wp-caption-text\">Capa do livro &quot;Fotografias&quot;, de Maureen Bisilliat, editado pelo Instituto Moreira Salles.<\/p><\/div>\n<p>Visitar a exposi\u00e7\u00e3o de Maureen Bisilliat no espa\u00e7o da Galeria de Arte do Sesi, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 adentrar numa rara experi\u00eancia sensorial, na qual imagens de um Brasil profundo articuladas com objetos de produ\u00e7\u00e3o artesanal, textos liter\u00e1rios e po\u00e9ticos, v\u00eddeos e sonoridades, permitem uma comunh\u00e3o \u00fanica com a raiz da cultura brasileira e com a ess\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. Depois de tamanho \u00eaxtase, somos tomados por uma esp\u00e9cie de orgulho vaidoso pois, diante desta grandeza fotogr\u00e1fica, acreditamos que realmente \u00e9 um privil\u00e9gio conviver com estas imagens e estar diante de uma artista cuja produ\u00e7\u00e3o sintetiza de forma t\u00e3o contundente o melhor da fotografia brasileira das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Tomado por esta emo\u00e7\u00e3o, fiquei pensando que todos deveriam ver esta exposi\u00e7\u00e3o \u2013 aqueles que tiveram a oportunidade de acompanhar a trajet\u00f3ria de Maureen Bisilliat e os jovens fot\u00f3grafos que poder\u00e3o se inspirar numa trajet\u00f3ria marcada pelo profissionalismo, pela \u00e9tica e pela permanente inven\u00e7\u00e3o. As c\u00f3pias em prata e os <em>cibaprints,<\/em> que foram produzidas por Silvio Pinhatti, s\u00e3o tamb\u00e9m uma respeitosa homenagem \u00e0 fotografia, j\u00e1 que penetramos num mundo de tons e de texturas, de sombras e luzes, de brilhos, opacidades e transpar\u00eancias, e recuperamos uma experi\u00eancia \u00fanica: a de olhar uma c\u00f3pia fotogr\u00e1fica. Um impacto para nossos olhos j\u00e1 acostumados com a imagem digital, mais \u201cflat\u201d e entintadas por pigmentos comandados por softwares e n\u00e3o impressos pela a\u00e7\u00e3o da luz num suporte sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Imediatamente lembrei-me do livro <em>Por que ler os cl\u00e1ssicos, <\/em>de Italo Calvino. Logo na introdu\u00e7\u00e3o, como se isso fosse necess\u00e1rio, o autor se justifica: os cl\u00e1ssicos s\u00e3o aquelas obras de forma\u00e7\u00e3o para qualquer indiv\u00edduo; constituem uma riqueza \u00edmpar \u00e0queles que t\u00eam acesso; exercem influ\u00eancia particular quando se imp\u00f5em como inesquec\u00edveis; toda releitura de um cl\u00e1ssico \u00e9 na realidade uma redescoberta; entre muitas outras observa\u00e7\u00f5es preciosas. Atrav\u00e9s dessa associa\u00e7\u00e3o, a exposi\u00e7\u00e3o com as diferentes s\u00e9ries de Maureen Bisilliat torna-se obrigat\u00f3ria, adquire uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica e imprescind\u00edvel para a compreens\u00e3o da fotografia brasileira.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante perceber como os visitantes ficam imbu\u00eddos de uma defer\u00eancia com as imagens. Estas s\u00e3o, em sua maioria, um registro colado num referente conhecido, mas tratado com dignidade diferenciada. N\u00e3o buscam o ex\u00f3tico nem o folcl\u00f3rico, mas tratam a identidade cultural brasileira como fato significativo do saber e do conhecimento humano. Maureen foi buscar inspira\u00e7\u00e3o a partir da perspectiva da literatura e em sua fotografia predomina a consci\u00eancia e a lucidez de uma op\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e pol\u00edtica. Ela acredita que sua paix\u00e3o pelo pa\u00eds, que escolheu para viver depois de tantas outras passagens, a aproxima de ser Oxumar\u00e9. Segundo depoimento para o cr\u00edtico Leo Gilson Ribeiro, \u201cOxumar\u00e9 \u00e9 aquele misto de arco-\u00edris e serpente, que n\u00e3o \u00e9 divindade, mas um ponto de liga\u00e7\u00e3o entre fragmentos de um mundo plural que espelha em outros fragmentos os seus equivalentes\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_612\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-612\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-612\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/maureenbisilliat-280x348.jpg\" alt=\"Maureen Bisilliat, Caranguejeiras, 1968.\" width=\"280\" height=\"348\" \/><p id=\"caption-attachment-612\" class=\"wp-caption-text\">Maureen Bisilliat, Caranguejeiras, 1968.<\/p><\/div>\n<p>Essa conex\u00e3o entre literatura e fotografia \u00e9 que tornou a inglesa Maureen Bisilliat, naturalizada brasileira em 1963, uma das principais artistas do pa\u00eds. Seu processo de trabalho \u00e9 quase sempre detonado a partir das refer\u00eancias que buscou para compreender o povo brasileiro e a ancestralidade de suas manifesta\u00e7\u00f5es culturais de raiz. Por exemplo, seu cl\u00e1ssico ensaio <em>As Caranguejeiras<\/em>, publicado pela editora Abril, mat\u00e9ria de capa da revista <em>Realidade<\/em>, nasceu de sua curiosidade por vest\u00edgios encontrados em outras linguagens. Depois disso, eles passam por uma cuidadosa elabora\u00e7\u00e3o e foram transformados em imagens que trazem uma incr\u00edvel dimens\u00e3o po\u00e9tica, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita na fotografia brasileira. Veja o fragmento do v\u00eddeo-depoimento que me foi dado em 2009, e entenda o processo criativo, que teve a participa\u00e7\u00e3o do acaso, mas foi sua consci\u00eancia cr\u00edtica e hist\u00f3rica que a permitiu potencializar politicamente o ensaio.<\/p>\n<p><script type='text\/javascript' src='https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/html\/flashembed2.min.js'><\/script>\n<div >\n<div id='hana_flv_flow_1' style='display:block;width:400px;height:300px;background-color:#555555;color:#ffffff;padding:0'>\n<div class='inactive_message'><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n<script type='text\/javascript'>\nif (typeof g_hanaFlash !== 'undefined' && !g_hanaFlash){\n    jQuery('#hana_flv_flow_1').css( 'padding', '5px' );\n\tjQuery('#hana_flv_flow_1 .inactive_message').html('Sorry, your browser does not support Flash Video Player');\n}else{\n    flashembed2('hana_flv_flow_1',\n      { src:'https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/FlowPlayerDark.swf', wmode: 'transparent', width: 400,  height: 300 },\n      { config: { videoFile: 'http:\/\/www.iconica.com.br\/videos\/maureen_rubens_fernandes.flv', autoPlay: false ,loop: false, autoRewind: true, autoBuffering: true,\n\t\t\t initialScale: 'scale' ,showVolumeSlider: true,showMuteVolumeButton: false, showMenu: false, controlBarBackgroundColor: 0x000000\n\n\t    }}\n    );\n}\n<\/script><\/p>\n<p>Maureen Bisilliat inscreveu seu nome na fotografia brasileira com um percurso bastante incomum. Trabalhou na editora Abril entre 1964 e 1972, para as revistas <em>Quatro Rodas<\/em> e <em>Realidade<\/em>, publicando ensaios que hoje s\u00e3o refer\u00eancias para o fotojornalismo inteligente e diferenciado. Editou livros de fotografia sobre as obras de Euclides da Cunha, Jorge Amado, Guimar\u00e3es Rosa, Adelia Prado, Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto, e ensaios sobre o Xingu, Romeiros, O Turista Aprendiz, de Mario de Andrade, Pele Preta, China, Jap\u00e3o, entre outros.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o sintetiza os 50 anos de intensas atividades de Maureen Bisilliat e oferece uma possibilidade \u00edmpar para refletirmos sobre a fotografia, sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, documental e art\u00edstica. Ainda traz uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es sobre o processo de produ\u00e7\u00e3o dos livros, pois re\u00fane fotolitos, chapas de impress\u00e3o, provas de m\u00e1quina, cartas de cr\u00edticos, escritores e intelectuais de todo o mundo. Isso s\u00f3 refor\u00e7a e reflete sua import\u00e2ncia no trabalho de edi\u00e7\u00e3o de imagens e sua preocupa\u00e7\u00e3o em publicar e democratizar, atrav\u00e9s da fotografia, a cultura e o conhecimento.<\/p>\n<p>Atualmente, seu acervo de fotografias pertence ao Instituto Moreira Salles que n\u00e3o s\u00f3 participou ativamente do projeto da mostra, como se esmerou em produzir um livro que documenta toda a trajet\u00f3ria criativa de Maureen Bisilliat. O exerc\u00edcio de revis\u00e3o de sua produ\u00e7\u00e3o e de edi\u00e7\u00e3o de imagens para a exposi\u00e7\u00e3o permitiu a Maureen pensar sobre seu trabalho e seu percurso. Ela declarou: \u201ca cataloga\u00e7\u00e3o do meu acervo fotogr\u00e1fico obrigou-me n\u00e3o s\u00f3 a preservar meu material, mas a organizar e refletir como sou hoje, aquilo que fui ontem. \u00c9 muito interessante e rico esse exerc\u00edcio\u201d. Essa retrospectiva traz uma imers\u00e3o da artista no pr\u00f3prio trabalho em busca de algumas respostas para sua experi\u00eancia profissional e existencial atrav\u00e9s da arte. O que podemos auferir pelas imagens \u00e9 sua capacidade de dar visibilidade \u00e0 exuberante paisagem brasileira e a tornar p\u00fablica a dignidade nem sempre vis\u00edvel do nosso povo.<\/p>\n<p><strong><em>Maureen Bisilliat &#8211; Fotografias<\/em><\/strong><br \/>\nde 02\/03 a 04\/07\/2010<br \/>\nGaleria de Arte do SESI-SP<br \/>\nAv. Paulista, 1313 &#8211; S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Visitar a exposi\u00e7\u00e3o de Maureen Bisilliat no espa\u00e7o da Galeria de Arte do Sesi, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 adentrar numa rara experi\u00eancia sensorial, na qual imagens de um Brasil profundo articuladas com objetos de produ\u00e7\u00e3o artesanal, textos liter\u00e1rios e po\u00e9ticos, v\u00eddeos e sonoridades, permitem uma comunh\u00e3o \u00fanica com a raiz da cultura brasileira e com a ess\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. 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