{"id":598,"date":"2010-03-13T08:09:22","date_gmt":"2010-03-13T08:09:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=598"},"modified":"2016-05-28T14:33:11","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:11","slug":"por-onde-andou-sebastiao-salgado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/por-onde-andou-sebastiao-salgado\/","title":{"rendered":"Por onde andou Sebasti\u00e3o Salgado?"},"content":{"rendered":"<p>Esses dias, li uma entrevista com Sebasti\u00e3o Salgado na revista <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/serafina\/sr2802201009.htm\" target=\"_blank\">Serafina <\/a>(dispon\u00edvel on-line apenas para assinantes), da Folha de S. Paulo, publicada no domingo passado. A\u00ed fiquei pensando: porque paramos de falar de Sebasti\u00e3o Salgado? Pra dizer a verdade, nem tenho certeza de que paramos, mas tenho a impress\u00e3o de n\u00e3o ter ouvido quase nada sobre ele nos \u00faltimos anos. N\u00e3o tenho lido artigos, o nome dele n\u00e3o \u00e9 citado nos debates e palestras dos colegas. Apenas vez ou outra ele aparece como not\u00edcia.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado que, nas minhas aulas, mais cedo ou mais tarde algu\u00e9m sempre perguntava: o que voc\u00ea acha de Sebasti\u00e3o Salgado? Hoje, ningu\u00e9m pergunta mais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o honesta, n\u00e3o tenho id\u00e9ia do que aconteceu. Como eu n\u00e3o tenho acompanhado muito o fotojornalismo, eu posso muito bem ter perdido alguma coisa. Mas, at\u00e9 que algu\u00e9m me explique, vou especular:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez esteja tudo bem. Apenas se tornou muito \u00f3bvio falar de Sebasti\u00e3o Salgado: pra que falar dele se todo mundo fala dele? A\u00ed, ningu\u00e9m falou mais dele.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez as pessoas tenham se saturado dele por conta de um processo de celebriza\u00e7\u00e3o. Cansamos de Sebasti\u00e3o Salgado, como cansamos de toda superexposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez ele tenha se tornado uma figura messi\u00e2nica demais e, como somos c\u00e9ticos, temos a obriga\u00e7\u00e3o de desconfiar de algu\u00e9m que aparece de repente para salvar o mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez guardemos algum ressentimento. Nos anos 90, comemoramos seu sucesso. Mas o \u201cbom filho\u201d n\u00e3o tem retornado muito \u00e0 casa, e passamos a assumi-lo como estrangeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez as pessoas n\u00e3o gostem mais do seu trabalho. Talvez condenem o excesso de pose: Sebasti\u00e3o Salgado manipula a realidade atrav\u00e9s de sua fotografia!<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai. Talvez um pouco de cada coisa, e de outras tantas.<\/p>\n<p><strong>\u00caxodos<\/strong><\/p>\n<p>Quando Salgado lan\u00e7ou o livro <em>\u00caxodos<\/em>, eu gostei muito, e gostei mais ainda por uma circunst\u00e2ncia muito pessoal. Eu tinha acabado de traduzir um livro de Pierre L\u00e9vy, fil\u00f3sofo franco-tunisiano, um dos primeiros a produzir um pensamento denso sobre as novas tecnologias. Mas a obra que me propuseram, <em>World Philosophie<\/em> (que virou <em>A Conex\u00e3o Planet\u00e1ria<\/em>), representava um momento de deslumbramento de L\u00e9vy com o mundo. Ele falava da liberdade trazida pelas redes e pela economia globalizada. Era lindo poder ser um cidad\u00e3o do mundo, trabalhar e pensar em colabora\u00e7\u00e3o com pessoas t\u00e3o distantes, dormir num pa\u00eds e acordar em outro. O mundo come\u00e7ava a abrir suas fronteiras, era f\u00e1cil ver como as pessoas se deslocavam e dilu\u00edam o mapa.<\/p>\n<p>A\u00ed chegou em casa o livro <em>\u00caxodos<\/em>, e foi f\u00e1cil entender que esse grande fluxo de pessoas se deslocando pelo mundo n\u00e3o \u00e9 necessariamente produto de uma liberdade, mas de um ex\u00edlio. Para mim, a tese de Salgado era mais convincente do que a de L\u00e9vy. Gostei das imagens, gostei do choque de realidade e gostei principalmente de poder ver um pensamento ser desenvolvido por meio de imagens.<\/p>\n<p>Mostrei esse trabalho em algumas aulas, falei um pouco sobre ele, mas passou. Os outros livros que ele lan\u00e7ou, cheguei a ver por a\u00ed, mas n\u00e3o comprei. Eu esqueci Sebasti\u00e3o Salgado. Portanto, dali at\u00e9 a leitura da entrevista na Serafina, tem uma hist\u00f3ria que eu n\u00e3o acompanhei.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Serafina<\/strong><\/p>\n<p>A revista se prop\u00f5e a comentar <em>G\u00eanesis<\/em>, o novo trabalho, mas come\u00e7a de fato desenhando uma celebridade: avisa que levou um ano e meio para conseguir a entrevista e que, logo ap\u00f3s o encontro com a reportagem, ele estaria lotado de compromissos. Dentre eles, uma viagem \u00e0 \u00c1frica \u201cpara passar um tempinho com os Pigmeus\u201d. Essa frase, entre aspas, deve ter sido dita por ele. Mas, colocada desse modo, soa como a Madona fazendo turismo social entre um show e outro. Em seguida, a jornalista descreve sua roupa e explica como ele consegue manter sua careca t\u00e3o reluzente mesmo quando est\u00e1 na Patag\u00f4nia ou em Gal\u00e1pagos.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil saber de quem \u00e9 a culpa, mas a revista aponta para um ecologismo estranho, com frases do tipo: \u201ca iguana \u00e9 minha prima\u201d. Tudo isso soa menos complexo do que as grandes quest\u00f5es sobre a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ou sobre os deslocamentos populacionais que v\u00edamos nas outras pesquisas.<\/p>\n<p>Como todo rom\u00e2ntico, Salgado \u00e9 nost\u00e1lgico: \u201cbusco terras que permanecem iguais desde o come\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o, humanos que representam os seres que fomos h\u00e1 milhares de anos\u201d. Mas, nas palavras da revista (a legenda de uma foto), isso vira um Darwinismo mal interpretado e desastroso: \u201cOs mentawai consideram a natureza uma divindade. Est\u00e3o no est\u00e1gio evolutivo da domestica\u00e7\u00e3o das plantas e animais\u201d. Qual est\u00e1gio evolutivo? Assim, alguma coisa entre o Neanderthalensis e o Sapiens?<\/p>\n<p>As imagens&#8230; Bem, mesmo que n\u00e3o seja o tipo de fotografia que mais me interessa, as imagens s\u00e3o exuberantes. Alguns certamente dir\u00e3o que s\u00e3o muito publicit\u00e1rias: a foto dos tais \u201cmentawai\u201d at\u00e9 parece ter sido feita com um fundo infinito. Mas, pra mim, esse \u00e9 um problema menor. N\u00e3o me incomoda a manipula\u00e7\u00e3o da cena, assim como n\u00e3o me comove o fato de que ele ainda produz negativos, contatos e amplia\u00e7\u00f5es, mesmo depois de adotar uma c\u00e2mera digital. As imagens continuam lindas, humanistas, com cinzas profundos, como sempre foram. Sustentar todas essas caracter\u00edsticas, assim por tanto tempo, \u00e9 o que me surpreende sempre que o vejo, mas \u00e9 provavelmente o que tamb\u00e9m me faz esquecer dele.<\/p>\n<p>Mas um fot\u00f3grafo que tem uma tese e que passa anos desenvolvendo-a atrav\u00e9s de imagens, j\u00e1 merece nosso respeito. Eu estranho o pensamento que Salgado parece querer construir com esse trabalho: aparentemente, a defesa e a busca de um para\u00edso perdido. Mas \u00e9 preciso dar todos os descontos. Se ele encontrou na fotografia uma forma precisa e poderosa de express\u00e3o, n\u00e3o poder\u00edamos querer que seu discurso permanecesse \u00edntegro numa entrevista apressada.<\/p>\n<p>Nesse sentido, vale a pena esperar esse trabalho ser apresentado do modo como ele foi planejado. E vale a pena esquecer entrevistas como a de Serafina e posts como este, que pouco ajudam a lembrar de Sebasti\u00e3o Salgado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esses dias, li uma entrevista com Sebasti\u00e3o Salgado na revista Serafina (dispon\u00edvel on-line apenas para assinantes), da Folha de S. Paulo, publicada no domingo passado. A\u00ed fiquei pensando: porque paramos de falar de Sebasti\u00e3o Salgado? Pra dizer a verdade, nem tenho certeza de que paramos, mas tenho a impress\u00e3o de n\u00e3o ter ouvido quase nada sobre ele nos \u00faltimos anos. N\u00e3o tenho lido artigos, o nome dele n\u00e3o \u00e9 citado nos debates e palestras dos colegas. Apenas vez ou outra ele aparece como not\u00edcia. 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