{"id":578,"date":"2010-03-09T10:01:08","date_gmt":"2010-03-09T10:01:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=578"},"modified":"2016-12-29T12:25:58","modified_gmt":"2016-12-29T12:25:58","slug":"fotografia-digital-breve-voce-nao-pode-perder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografia-digital-breve-voce-nao-pode-perder\/","title":{"rendered":"Fotografia Digital. Breve! Voc\u00ea n\u00e3o pode perder!"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre perigoso falar em evolu\u00e7\u00e3o quando estamos no territ\u00f3rio da arte. No que diz respeito aos estilos, n\u00e3o \u00e9 nada correto dizer, por exemplo, que a arte renascentista superou a arte rom\u00e2nica medieval, ou que a pintura neocl\u00e1ssica superou a pintura barroca, mesmo que umas tenham sucedido as outras em termos de cronologia. N\u00e3o podemos pensar a cultura em termos de funcionalidade, portanto, n\u00e3o se trata de dizer um estilo se torna melhor ou mais eficiente que outro. As estrat\u00e9gias da arte dialogam com valores, h\u00e1bitos, cren\u00e7as, pensamentos de uma dada \u00e9poca, e todas essas coisas se constroem e se transformam mutuamente. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de efici\u00eancia, mas de adequa\u00e7\u00e3o entre um modelo est\u00e9tico e a cultura.<\/p>\n<p>E se pensarmos em tecnologia, n\u00e3o em estilo? O assunto continua delicado. Sabemos que foram precipitados os progn\u00f3sticos sobre o fim da pintura diante da fotografia, sobre o fim do cinema diante da televis\u00e3o, sobre o fim de todas as artes diante das tecnologias digitais. Bobagem!<\/p>\n<p>Mas, sem tom apocal\u00edptico, podemos relembrar alguns epis\u00f3dios. Mesmo que haja quem a utilize ainda hoje, a t\u00eampera (pigmentos com base em gema de ovo), hegem\u00f4nica noutros tempos, perdeu quase todo seu espa\u00e7o para a tinta a \u00f3leo entre os s\u00e9culos XV e XVI. Mais pr\u00f3ximo da gente, ineg\u00e1vel que a c\u00e2mera anal\u00f3gica est\u00e1 perdendo quase todo seu espa\u00e7o para a c\u00e2mera digital, mesmo que daqui a um s\u00e9culo, haver\u00e1 quem utilize uma velharia qualquer ou fabrique artesanalmente o pr\u00f3prio equipamento. Enfim, algumas tecnologias podem efetivamente desaparecer, ou sobreviver apenas como \u201cexperimentalismo\u201d.<\/p>\n<p>A pintura a \u00f3leo continuou sendo pintura, ningu\u00e9m discute. E a fotografia digital continua sendo fotografia? Eu diria que sim. Ali\u00e1s, se essa pergunta me fosse feita de surpresa, diria que n\u00e3o faz sentido. Mas n\u00e3o podemos ignorar o discurso recorrente da \u201crevolu\u00e7\u00e3o digital\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 autores de peso que sugerem uma ruptura. Andr\u00e9 Rouill\u00e9 diz logo nas primeiras p\u00e1ginas do rec\u00e9m-traduzido <em>A fotografia (La photographie, <\/em>2005): \u201ca mal denominada \u2018fotografia digital\u2019 n\u00e3o \u00e9 de modo algum uma declina\u00e7\u00e3o digital da fotografia. Uma ruptura radical \u00e0s separa: sua diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de grau, mas de natureza\u201d. Ele n\u00e3o aprofunda a discuss\u00e3o, mas retoma essa afirma\u00e7\u00e3o em algumas passagens e na conclus\u00e3o do livro: &#8220;do universo anal\u00f3gico ao universo digital, a passagem n\u00e3o \u00e9 simplesmente t\u00e9cnica; ela toca a natureza mesma da fotografia. A ponto de que n\u00e3o \u00e9 certo que a &#8216;fotografia digital&#8217; ainda seja fotografia&#8221;.<\/p>\n<p>Num debate no Rio de Janeiro (<em>Projeto Subsolo<\/em>, 2009), eu esbo\u00e7ava timidamente minha desconfian\u00e7a quanto a essa revolu\u00e7\u00e3o, quando Maur\u00edcio Lissovsky atravessou de modo mais corajoso: \u201cA fotografia digital n\u00e3o existe!\u201d (e n\u00e3o vamos ignorar as in\u00fameras pondera\u00e7\u00f5es que ele certamente \u00e9 capaz de fazer, mas que, em nome da provoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se deu ao trabalho de fazer).<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de ouvir o recado de Benjamin, que nos ensina que a mudan\u00e7a no modo de produzir as imagens muda a percep\u00e7\u00e3o que temos dela. Ele \u00e9 muito convincente quando fala da fotografia e do cinema: por mais que essas artes permanecessem presas por algum tempo aos c\u00e2nones da pintura ou do teatro, algo havia mudado pra valer na rela\u00e7\u00e3o com p\u00fablico.<\/p>\n<p>Benjamin &#8211; assim como Marx &#8211; n\u00e3o poderia imaginar algumas sutilezas do capitalismo, que sabe colocar o novo a servi\u00e7o da conserva\u00e7\u00e3o das estruturas. Assim se diluem muitas das grandes e pequenas promessas de revolu\u00e7\u00e3o. Somos convidados a renovar nossos gadgets, mas continuamos em boa medida produzindo nossas imagens do mesmo modo e vendo as mesmas imagens nos mesmos lugares.<\/p>\n<div id=\"attachment_587\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-587\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-587\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/paris_an_dig-487x177.jpg\" alt=\"Fotografia anal\u00f3gica e fotografia digital de Paris\" width=\"487\" height=\"177\" \/><p id=\"caption-attachment-587\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia anal\u00f3gica e fotografia digital de Paris<\/p><\/div>\n<p>No final das contas, pode ser que a resit\u00eancia \u00e0s mudan\u00e7as tenha sobretudo raz\u00f5es mercadol\u00f3gicas. Mas, ao contr\u00e1rio do que sugere \u00a0as correntes menos dial\u00e9ticas do marxismo, \u00e9 prefer\u00edvel pensar a economia como um elemento dentro da cultura, e n\u00e3o como sua determinante. Isso significa que uma resist\u00eancia mercadol\u00f3gica \u00e9 tamb\u00e9m uma resist\u00eancia cultural.<\/p>\n<p>De todo modo, n\u00e3o vejo raz\u00e3o para usar outro termo que n\u00e3o \u201cfotografia\u201d. Do ponto de vista te\u00f3rico, entendo perfeitamente a mudan\u00e7a de natureza de que fala Ruill\u00e9, mas ainda n\u00e3o posso senti-la pra valer. \u00c9 mais ou menos como a f\u00edsica qu\u00e2ntica, quando nos convence de que h\u00e1 toda uma dimens\u00e3o da realidade que n\u00e3o se submete \u00e0 mec\u00e2nica de Newton. Acreditamos, mas continuamos regidos pela mesma gravidade. <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=476\" target=\"_blank\">Gravidade\u00a0da qual, ali\u00e1s, j\u00e1 muito pouco nos lembr\u00e1vamos<\/a>.<\/p>\n<p>Enfim, reconhecemos que o processo de codifica\u00e7\u00e3o da imagem digital \u00e9 radicalmente diferente e isso se desdobra em in\u00fameras possibilidades e promessas. Mas, na pr\u00e1tica, a din\u00e2mica de utiliza\u00e7\u00e3o das imagens produzidas pelas novas c\u00e2meras tem sido submissa \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. A gente fotografa os amigos, as festas, as viagens, as coisas inusitadas do cotidiano. O estado, a ci\u00eancia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o continuam documentando com a c\u00e2mera digital as coisas importantes para a ordem do conhecimento e da sociedade. Vez ou outra, nos assustamos com epis\u00f3dios de manipula\u00e7\u00e3o da imagem. Antes, idem.<\/p>\n<p>Isso acontece em outros campos tamb\u00e9m: com medo de ficar de fora do jogo tecnol\u00f3gico, comprei um LCD e mudei o plano da minha TV a cabo. Mas ainda estou esperando para ver do que se trata a tal da TV digital. \u00c9 incr\u00edvel como as mudan\u00e7as s\u00e3o r\u00e1pidas, \u00e9 incr\u00edvel como as mudan\u00e7as s\u00e3o lentas.<\/p>\n<p>Para mim, a passagem da m\u00e1quina de escrever para o computador foi uma experi\u00eancia mais radical que a da c\u00e2mera anal\u00f3gica para a digital. Comecei a escrever minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado numa Olivetti e terminei num Word para DOS. Ao final do processo, n\u00e3o sabia mais lidar com os rascunhos que havia feito a m\u00e3o, quando ainda pensava na datilografia. Aqui sim as possibilidades de manipula\u00e7\u00e3o foram imediatamente sentidas e adotadas, mesmo pelo p\u00fablico leigo. Antes, o texto passava mais abruptamente de pensamentos desconexos para a vers\u00e3o final. Agora o texto vai sendo constru\u00eddo, lapidado, revisado, reorganizado, enfim, editado. Mesmo assim, quem usa essa ferramenta para fazer arte, continua fazendo literatura.<\/p>\n<p>\u00c9 certo, alguns grandes impactos ainda est\u00e3o por acontecer ou por serem assumidos. Boa parte da mudan\u00e7a ainda \u00e9 quantitativa (fotografamos mais, mais gente fotografa, manipulamos mais), n\u00e3o de natureza. Eu imaginava que o acesso \u00e0s novas tecnologias traria maior consci\u00eancia dos c\u00f3digos (em outras palavras, do car\u00e1ter constru\u00eddo da imagem), do modo de funcionamento do aparato. Mas at\u00e9 isso a fotografia digital ainda est\u00e1 devendo. O mesmo usu\u00e1rio que usa softwares para tirar olho vermelho, para deixar o c\u00e9u mais azul ou para fazer pequenas montagens ainda abre o jornal e acredita na fidelidade da fotografia aos fatos.<\/p>\n<div id=\"attachment_588\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-588\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-588\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/paris_google-487x213.jpg\" alt=\"Paris vista pelo Google Maps\" width=\"487\" height=\"213\" \/><p id=\"caption-attachment-588\" class=\"wp-caption-text\">Paris vista pelo Google Maps<\/p><\/div>\n<p>Se vejo uma mudan\u00e7a importante, \u00e9 aquela que ocorre nas brechas. Tem a ver com os celulares, com as redes sociais, e mesmo com a pirataria, coisas que ainda estamos aprendendo a digerir. Nesse contexto, as fotografias s\u00e3o feitas e publicadas de um modo surpreendente: as imagens passam das gavetas e para os pendrives, dos \u00e1lbuns para redes; n\u00e3o h\u00e1 mais estruturas distintas (e nem delay) para a produ\u00e7\u00e3o, a edi\u00e7\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o; as imagens se tornam livres das legendas e dos textos ou, pelo menos, um tanto desconexas com rela\u00e7\u00e3o a eles; o ciclo de interesse do olhar \u00e9 mais curto, mas as imagens est\u00e3o mais sujeitas \u00e0 reciclagem e \u00e0 recontextualiza\u00e7\u00e3o; a autoria se dilui&#8230; Essas sim s\u00e3o coisas que merecem torrar nossos neur\u00f4nios, n\u00e3o tanto a passagem da pel\u00edcula para o CCD.<\/p>\n<p>Tem um lado ruim nisso: nunca olhamos t\u00e3o pouco para as imagens que produzimos, em termos de intensidade e dura\u00e7\u00e3o do olhar. Mas sem moralismos, tem tamb\u00e9m uma experi\u00eancia boa acontecendo bem aqui ao lado com as fotografias veiculadas pelas redes. Basta olhar para os blogs dos colegas e para os projetos que nascem em torno deles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre perigoso falar em evolu\u00e7\u00e3o quando estamos no territ\u00f3rio da arte. No que diz respeito aos estilos, n\u00e3o \u00e9 nada correto dizer, por exemplo, que a arte renascentista superou a arte rom\u00e2nica medieval, ou que a pintura neocl\u00e1ssica superou a pintura barroca, mesmo que umas tenham sucedido as outras em termos de cronologia. N\u00e3o podemos pensar a cultura em termos de funcionalidade, portanto, n\u00e3o se trata de dizer um estilo se torna melhor ou mais eficiente que outro. 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