{"id":553,"date":"2010-03-01T09:59:40","date_gmt":"2010-03-01T09:59:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=553"},"modified":"2016-05-28T14:33:31","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:31","slug":"o-olhar-e-as-paixoes-sobre-o-novo-filme-de-j-j-campanella","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-olhar-e-as-paixoes-sobre-o-novo-filme-de-j-j-campanella\/","title":{"rendered":"O olhar e as paix\u00f5es: sobre o novo filme de J. J. Campanella"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_559\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-559\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-559\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/el-secreto-280x188.jpg\" alt=\"Soledad Villamil, Ricardo Darin e Juan Jos\u00e9 Campanella, durante filmagens de O segredo de seus olhos\" width=\"280\" height=\"188\" \/><p id=\"caption-attachment-559\" class=\"wp-caption-text\">Soledad Villamil, Ricardo Darin e  Campanella, durante filmagem de O segredo de seus olhos<\/p><\/div>\n<p>Neste final de semana, fui ao cinema ver <em>O segredo de seus olhos<\/em>, dirigido por Juan Jose Campanella e um dos mais bem cotados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Para quem gosta do cinema argentino, a nova produ\u00e7\u00e3o pode soar um pouco grandiloq\u00fcente, afetada pelos anos em que o diretor esteve a frente de seriados norte-americanos como <em>Law &amp; Order<\/em>. Mas o filme \u00e9 \u00f3timo e, mesmo com uma complicada trama policialesca, n\u00e3o perde sua capacidade de introspec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muito de passagem, a fotografia est\u00e1 presente na hist\u00f3ria. Durante a investiga\u00e7\u00e3o de um assassinato, o escriv\u00e3o Benjam\u00edn Esp\u00f3sito, personagem interpretado por Ricardo Darin, chega ao nome de um suspeito depois de observar atentamente um \u00e1lbum de fam\u00edlia. Ali, um amigo de inf\u00e2ncia da v\u00edtima aparece em diferentes momentos, sempre com um olhar encantado sobre ela.<\/p>\n<p>Lembrei de Blow Up. No cl\u00e1ssico de Antonioni, o fot\u00f3grafo Thomas chega tamb\u00e9m \u00e0 hip\u00f3tese de um assassinato quando segue a dire\u00e7\u00e3o do olhar da suposta criminosa. Num exerc\u00edcio de associa\u00e7\u00f5es livres, fui um pouco mais longe: tanto o fot\u00f3grafo Thomas quanto o escriv\u00e3o Esp\u00f3sito s\u00e3o figuras entediadas com a rotina de seus trabalhos. Ambos se descobrem enredados pela imprecis\u00e3o dos registros t\u00e9cnicos com que lidam, sejam os do aparelho fotogr\u00e1fico, sejam os do aparelho judici\u00e1rio (aparelhos sempre pregam pe\u00e7as, vejam tamb\u00e9m a m\u00e1quina de escrever de Esp\u00f3sito, que fala uma l\u00edngua pr\u00f3pria). Nos dois filmes, uma fixa\u00e7\u00e3o pelos supostos crimes \u00e9 constru\u00edda pelos personagens como uma forma de preencher suas vidas \u201ccheias de nada\u201d, como \u00e9 dito por Esp\u00f3sito.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 sobre as \u201cpaix\u00f5es\u201d humanas, num sentido amplo: aquilo que se manifesta mesmo quando se tenta esconder. E o olhar de Esp\u00f3sito \u00e9 uma esp\u00e9cie de narrador silencioso da trama, que ora tenta desvendar essas paix\u00f5es, ora finge inutilmente que n\u00e3o as percebe. Por vezes, tenta dissimular as suas pr\u00f3prias. O olhar est\u00e1 em destaque no t\u00edtulo, mas tamb\u00e9m num tipo de c\u00e2mera subjetiva que Campanella inventa: subjetiva em termos t\u00e9cnicos, porque mostra o mundo pelos olhos do personagem, mas tamb\u00e9m em termos simb\u00f3licos, porque os sentidos das imagens podem ser contundentes ou tateantes, n\u00edtidos ou obscuros, conforme as paix\u00f5es que movem esse olhar.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui o exerc\u00edcio daquilo que o professor Alfredo Bosi chamou de \u201colhar expressivo\u201d, composto pelo fluxo imagens que o mundo dirige ao corpo, mas tamb\u00e9m pelo fluxo de sentidos que o corpo dirige ao mundo: \u201cesse novo olhar \u00e9 o que, desde sempre, exprime e reconhece for\u00e7as e estados internos, tanto no pr\u00f3prio sujeito, que deste modo se revela, quanto no outro, com o qual o sujeito entret\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o compreensiva. A percep\u00e7\u00e3o do outro depende da leitura dos seus fen\u00f4menos expressivos dos quais o olhar \u00e9 o mais prenhe de significa\u00e7\u00f5es\u201d (Bosi, \u201cFenomenologia do Olhar\u201d, 1988).<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 fotografia, olhar para os olhares \u00e9 um exerc\u00edcio que dever\u00edamos fazer com mais freq\u00fc\u00eancia. \u00c9 algo que o antrop\u00f3logo belga Albert Piette chega a propor como m\u00e9todo, convidando o etn\u00f3grafo a observar a realidade atrav\u00e9s de seus \u201cmodos menores\u201d que se manifestam nas fotografias. Dentre, esses modos menores, destaca os gestos, movimentos, rela\u00e7\u00f5es, posturas corporais e, explicitamente, os \u201ctipos de olhar\u201d (Piette, Le Mode Mineur De La Realit\u00e9: paradoxes et photographies en anthropologie, 1992).<\/p>\n<p>Para terminar, uma foto de Doisneau. Sempre achei que essa \u00e9 uma imagem sobre os olhares (incluindo alguns que n\u00e3o aparecem). Quando voc\u00ea estiver vendo a foto, haver\u00e1 pelo menos 6 olhares implicados por essa imagem. Quais s\u00e3o eles?<\/p>\n<div id=\"attachment_554\" style=\"width: 348px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-554\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-554\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/Doisneau-Le-Peintre-du-Pont-des-Arts19531.jpg\" alt=\"Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953.\" width=\"338\" height=\"400\" \/><p id=\"caption-attachment-554\" class=\"wp-caption-text\">Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste final de semana, fui ao cinema ver O segredo de seus olhos, dirigido por Juan Jose Campanella e um dos mais bem cotados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. 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