{"id":5251,"date":"2013-09-09T18:30:25","date_gmt":"2013-09-09T18:30:25","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5251"},"modified":"2016-05-28T14:04:16","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:16","slug":"nordeste-identidades-em-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/nordeste-identidades-em-movimento\/","title":{"rendered":"Nordeste: representa\u00e7\u00e3o e virtualidade*"},"content":{"rendered":"<p>Existe hoje um claro esfor\u00e7o para repensar as representa\u00e7\u00f5es tradicionais do Nordeste. Uma alternativa tem sido investir na amplia\u00e7\u00e3o de temas e formas de abordagem de seus personagens e de suas paisagens. Outra, \u00e9 revisitar os modelos hist\u00f3ricos de constru\u00e7\u00e3o da imagem para expor seus limites.<\/p>\n<p>Se olharmos para os registros que ilustram o estudo feito por Roquette Pinto, no inicio do s\u00e9culo XX, encontramos os &#8220;tipos brasileiros&#8221; \u2013 dentre eles, o do sertanejo \u2013 fotografados segundo o m\u00e9todo de cataloga\u00e7\u00e3o criminal do franc\u00eas Alphonse Bertillon, que se tornou recorrente\u00a0nos estudos antropom\u00e9tricos. Ao construir a pose, centralizar o personagem, situ\u00e1-lo \u00e0 frente de um fundo neutro, buscar uma luz que preenche todos os detalhes de sua fisionomia, impor o rigor da pose, o cientista positivista acredita estar tocando objetivamente a realidade mais aut\u00eantica desses sujeitos.<\/p>\n<div id=\"attachment_5264\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/a03fig513.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5264\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5264\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/a03fig51-620x372.jpg\" width=\"620\" height=\"372\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5264\" class=\"wp-caption-text\">Roquette-Pinto, Sertanejo (Xanthoderme), 1929<\/p><\/div>\n<p>A fotografia contempor\u00e2nea, tendo compreendido melhor seus limites, pode recorrer \u00e0s mesmas estrat\u00e9gias da fotografia cient\u00edfica cl\u00e1ssica para revelar seus artif\u00edcios, ou seja, para mostrar como esse sujeito \u00e9, em boa medida, negociado pelo m\u00e9todo. \u00c9 o que vemos na s\u00e9rie <em>Sertanejos<\/em>, de Alexandre Severo.\u00a0Ao ampliar o enquadramento da fotografia, identificamos a teatralidade implicada na constru\u00e7\u00e3o do retrato, mesmo quando estamos falando de uma pose que chamar\u00edamos de neutra. Mais precisamente, tal experi\u00eancia ajuda a desconstruir essa pretensa neutralidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_5255\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/alexandre_severo01033.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5255\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5255\" alt=\"Alexandre Severo, 2010\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/alexandre_severo01033.jpg\" width=\"550\" height=\"368\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5255\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Severo, 2010<\/p><\/div>\n<p>Com isso, exp\u00f5e-se aquilo que h\u00e1 de virtualidade no retrato, ou seja, assume-se que a fotografia inventa em certa medida a paisagem e o sujeito que supostamente registra. Essa id\u00e9ia \u00e9 levada ao limite em outras experi\u00eancias recentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_5263\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/vale-do-catimbau-brasil13.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5263\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-5263\" alt=\"vale do catimbau - brasil\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/vale-do-catimbau-brasil1-360x478.jpg\" width=\"360\" height=\"478\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5263\" class=\"wp-caption-text\">Sinval Garcia, Vale do Catimbau, 2002<\/p><\/div>\n<p>Sinval Garcia percorre o mundo, incluindo o Sert\u00e3o, sem sair de um mesmo lugar, mais precisamente, seu laborat\u00f3rio, com papel velado e revelador. Trata-se, portanto, de um lugar que pertence \u00e0 pr\u00f3pria fotografia. Mais do que representar uma regi\u00e3o espec\u00edfica, esse trabalho demonstra o quanto uma paisagem \u00e9 constru\u00edda tamb\u00e9m pelas refer\u00eancias que orientam nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Admitindo que a fotografia encena em boa medida a identidade do sertanejo, a fotografia pode recorrer a estrat\u00e9gias para projetar essa identidade sobre um sujeito qualquer por meio da performance. \u00c9 o que vemos em \u201cDesejo Eremita\u201d, de Rodrigo Braga. Ele parte de elementos relativamente recorrentes \u2013 o bode, o chifre, os ossos, a terra seca \u2013 para inserir-se nesse local. Busca representar uma identidade n\u00e3o pela s\u00edntese, mas por um ritual que contamina seu corpo com elementos da paisagem. Ele inventa pela encena\u00e7\u00e3o um modo de pertencer ao sert\u00e3o, mas vive autenticamente em seu corpo o personagem que cria.<\/p>\n<div id=\"attachment_5258\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/8570764779_c63b1c1039_h3.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5258\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5258\" alt=\"Rodrigo Braga, Desejo Eremita\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/8570764779_c63b1c1039_h-620x415.jpg\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5258\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Braga, Desejo Eremita<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_5259\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screen-shot-2011-08-04-at-20.03.093.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5259\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5259\" alt=\"Rodrigo Braga, Desejo Eremita\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screen-shot-2011-08-04-at-20.03.09-620x415.png\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5259\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Braga, Desejo Eremita<\/p><\/div>\n<p>Trabalhos como esses nos ajudam a entender o que j\u00e1 havia de virtualidade em fotografias cient\u00edficas como as de Roquette-Pinto: o que temos ali \u00e9 n\u00e3o mais do que um homem abstrato, inventado pelo m\u00e9todo, capaz de absorver o discurso que a ci\u00eancia quer projetar sobre ele.<\/p>\n<p>S\u00e3o propostas que trazem em si um gesto \u00e0s vezes radical, ir\u00f4nico, violento, cr\u00edtico e que, aparentemente, inviabilizam a compreens\u00e3o da fotografia como instrumento de pesquisa antropol\u00f3gica. Isso ser\u00e1 verdadeiro apenas se estivermos apegados a no\u00e7\u00f5es muito ortodoxas de testemunho e documento.<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias nos trazem a oportunidade de recobrar a consci\u00eancia sobre os artif\u00edcios implicados na imagem, critica necess\u00e1ria a todo discurso cient\u00edfico. Colocada sob suspeita, a fotografia redefine seu contrato com o olhar, \u00a0e encontra as condi\u00e7\u00f5es para retomar em bases mais cr\u00edticas seu poder de referenciar o mundo.<\/p>\n<p>Trata-se de assumir que todo documento e todo testemunho \u00e9 produto de um acordo negociado no \u00e2mbito da cultura. Revelar aquilo que nela h\u00e1 de constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o invalida o uso da imagem pela ci\u00eancia, ao contr\u00e1rio: ao revelar a opacidade da imagem, os m\u00e9todos que definem seu uso se tornam mais transparentes.<\/p>\n<p>O excesso de confian\u00e7a ou desconfian\u00e7a parece resultar de uma velha oposi\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza: ou fantasiamos uma neutralidade da t\u00e9cnica para nos convencer de que o mundo se manifesta por si mesmo na imagem ou, ao afirmar as determina\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica, denunciamos a redu\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 imagem, \u00e0 encena\u00e7\u00e3o, ao artif\u00edcio, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simulacro. Superada essa oposi\u00e7\u00e3o, temos condi\u00e7\u00f5es de buscar os potenciais do mundo que s\u00f3 a imagem ajuda a revelar, e tamb\u00e9m o modo como a imagem \u00e9 parte daquilo que chamamos de realidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_5256\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/alexandre_severo01223.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5256\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5256\" alt=\"Alexandre Severo, Sertanejo, 2010\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/alexandre_severo01223.jpg\" width=\"550\" height=\"368\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5256\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Severo, Sertanejo, 2010<\/p><\/div>\n<p>Nesta imagem de Alexandre Severo, \u00e9 n\u00edtido o fato de que a imagem n\u00e3o \u00e9 mais um elemento exterior \u00e0 cena. De um lado, \u00e9 ela assume a tarefa de representar a inten\u00e7\u00e3o votiva do fiel. De outro, &#8220;Padre Siso&#8221; est\u00e1 plenamente consciente do quanto sua autoridade depende da aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 figura emblem\u00e1ica do &#8220;Padim Ci\u00e7o&#8221;, constru\u00edda pela pose, pela indument\u00e1ria, pelo nome, mas pelas tantas imagens que faz circular com seu nome, conforme conta Alexandre Severo.\u00a0Enquanto sonhamos em usar a t\u00e9cnica para revelar uma identidade pura de um lugar, ou enquanto riscos de a imagem anular a identidade desse lugar, o Sert\u00e3o foi se transformando e as imagens foram se tornando parte dele.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>* Este texto \u00e9 um resumo da palestra proferida no V Theoria, evento realizado pela Universidade Federal de Pernambuco e pela Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco, em Recife (agosto de 2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe hoje um claro esfor\u00e7o para repensar as representa\u00e7\u00f5es tradicionais do Nordeste. Uma alternativa tem sido investir na amplia\u00e7\u00e3o de temas e formas de abordagem de seus personagens e de suas paisagens. Outra, \u00e9 revisitar os modelos hist\u00f3ricos de constru\u00e7\u00e3o da imagem para expor seus limites. Se olharmos para os registros que ilustram o estudo feito por Roquette Pinto, no inicio do s\u00e9culo XX, encontramos os &#8220;tipos brasileiros&#8221; \u2013 dentre eles, o do sertanejo \u2013 fotografados segundo o m\u00e9todo de cataloga\u00e7\u00e3o criminal do franc\u00eas Alphonse Bertillon, que se tornou recorrente\u00a0nos estudos antropom\u00e9tricos. 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