{"id":5179,"date":"2013-08-18T23:21:39","date_gmt":"2013-08-18T23:21:39","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5179"},"modified":"2016-05-28T14:04:23","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:23","slug":"sobre-fantasmas-e-nomenclaturas-parte-1-ensaio-autoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sobre-fantasmas-e-nomenclaturas-parte-1-ensaio-autoral\/","title":{"rendered":"Sobre fantasmas e nomenclaturas [parte 1]: \u201censaio autoral\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana, uma amiga artista quis discutir a defini\u00e7\u00e3o de \u201censaio autoral\u201d, tal como aparecia num edital, porque n\u00e3o se sentia confort\u00e1vel pensando sua produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica nesses termos. Essa \u00e9 uma express\u00e3o que se naturalizou no ambiente da fotografia mas que, de fato, raramente \u00e9 usada por artistas que trabalham com outras linguagens, ou mesmo por aqueles que\u00a0chegam \u00e0 fotografia, mas que t\u00eam sua forma\u00e7\u00e3o num universo mais amplo das artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Podemos fazer desse estranhamento uma boa ocasi\u00e3o para desconstruir as expectativas depositadas em nosso vocabul\u00e1rio ao longo da hist\u00f3ria. Boa oportunidade tamb\u00e9m para tomar consci\u00eancia de pequenos fatos que acabam por fazer da fotografia um territ\u00f3rio muito demarcado. E, para n\u00e3o parecer alheio demais ao problema que coloco, cabe dizer que essa \u00e9 uma express\u00e3o que devo ter usado umas tantas vezes em textos e em aulas, e que esse territ\u00f3rio no qual muitos artistas se sentem estrangeiros, \u00e9 tamb\u00e9m o lugar em que fui formado. Mas vale o interc\u00e2mbio.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de \u201censaio autoral\u201d parece querer evidenciar aspectos da produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica que realizam de modo mais evidente seu potencial como arte: \u201censaio\u201d sugere a extens\u00e3o e profundidade do olhar sobre certo objeto; j\u00e1 \u201cautoral\u201d afirma a singularidade desse olhar, uma esp\u00e9cie de assinatura. Mas por que \u00e9 preciso evidenciar esses aspectos? Vamos por partes.<\/p>\n<p>Dessa express\u00e3o, o termo \u201censaio\u201d \u00e9 menos problem\u00e1tico, mas tamb\u00e9m pass\u00edvel de cr\u00edtica. Entre os fot\u00f3grafos, parece muitas vezes equivaler a \u201cs\u00e9rie\u201d ou simplesmente \u201cobra\u201d, \u201ctrabalho\u201d. Dentre essas denomina\u00e7\u00f5es, a op\u00e7\u00e3o por \u201censaio\u201d pode ser feita por simples in\u00e9rcia, porque as pessoas implicadas se entendem bem desse modo. Mas pode haver uma a\u00e7\u00e3o preventiva, o desejo de afirmar a complexidade e a profundidade do trabalho em quest\u00e3o, algo que, de certo modo, acaba por revelar o medo de que tal reconhecimento seja negado.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho ideia de como e quando o termo ensaio passou a ser usado na fotografia, mas suponho que, como ocorreu em outras \u00e1reas, tenha sido tomado de empr\u00e9stimo da literatura filos\u00f3fica. Com isso, o trabalho fotogr\u00e1fico assume, de um lado, a pretens\u00e3o de ter um car\u00e1ter reflexivo e, de outro, a humildade de ser um processo subjetivo de experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo XVI, pensadores como Montaigne recorrem a essa palavra para se referir a uma escrita que aborda um tema de um ponto de vista pessoal, subjetivo, que assume escolher um dentre outros caminhos poss\u00edveis de argumenta\u00e7\u00e3o, que testa, que experimenta, que ensaia certas ideias. Numa acep\u00e7\u00e3o mais moderna, conforme a discuss\u00e3o proposta por Adorno (\u201cO ensaio como forma\u201d), o ensaio comporta o desejo articular no discurso uma concep\u00e7\u00e3o de verdade, assim como a presen\u00e7a de elementos est\u00e9ticos, o que torna problem\u00e1tico seu reconhecimento tanto no contexto da literatura, quanto no da ci\u00eancia. De todo modo, o que marca um texto ensa\u00edstico \u00e9 exatamente seu car\u00e1ter autoral, o que tornaria redundante o uso dessa adjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No cinema, a ideia de uma produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica aparece em autores como Godard ou Chris Marker, numa acep\u00e7\u00e3o relativamente fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: trata-se de um cinema de reflex\u00e3o, dotado de teses ou hip\u00f3teses sobre determinado objeto, no qual a narra\u00e7\u00e3o e a imagem atuam conjuntamente no desenvolvimento das argumenta\u00e7\u00f5es (ver o artigo \u201cFilme-Ensaio\u201d, de Arlindo Machado). Nas artes pl\u00e1sticas, o termo \u00e9 incomum. Aparece eventualmente na voz dos cr\u00edticos, quando percebem na produ\u00e7\u00e3o de um artista esse car\u00e1ter de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de ensaio pode abarcar coisas muito heterog\u00eaneas, de grandes projetos documentais a pequenas s\u00e9ries em torno de um tema ou personagem, como quando falamos em <i>ensaio sensual<\/i>, <i>ensaio de moda<\/i>. De todo modo, essa palavra trouxe para a fotografia a condi\u00e7\u00e3o de percurso, de desenvolvimento, de pesquisa, de discurso, de narrativa ou, pelo menos, de processo articulado de experimenta\u00e7\u00f5es. Vale como contraponto a trabalhos fragment\u00e1rios, dispersos, compostos de imagens isoladas. Serve tamb\u00e9m como um modo de enfrentar a ideia de que a fotografia \u00e9 a apenas uma t\u00e9cnica de registro de impress\u00f5es, de capta\u00e7\u00e3o de apar\u00eancias. Pela no\u00e7\u00e3o de ensaio, a fotografia reivindica o v\u00ednculo das imagens entre si, e delas com um pensamento articulado, um projeto, um investimento que n\u00e3o se esgota num encontro fortuito, no instante captado pela c\u00e2mera.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser um termo \u00fatil, mas que ainda \u00e9 usado muitas vezes apenas como ornamento ret\u00f3rico. Para aqueles que t\u00eam seguran\u00e7a, \u201cs\u00e9rie\u201d soa uma op\u00e7\u00e3o mais simples, menos pretensiosa. H\u00e1 os ensaios cl\u00e1ssicos, como os de Eugene Smith, e n\u00e3o precisamos discutir o modo como a hist\u00f3ria tem se referido a eles. Mas teria dificuldade de chamar de ensaio, por exemplo, as imagens de um livro de artista como os de Ed Ruscha, ou ent\u00e3o uma das s\u00e9ries de Thomas Struth. A diferen\u00e7a \u00e9 menos o tipo de fotografia ou de edi\u00e7\u00e3o, do que o lugar em que os cr\u00edticos ou os pr\u00f3prios artistas situam seus trabalhos (dentro ou fora de uma tradi\u00e7\u00e3o da fotografia).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/player.vimeo.com\/video\/72609333\" height=\"551\" width=\"620\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><a href=\"http:\/\/vimeo.com\/72609333\">Country Doctor, Eugene Smith, 1948<\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_5182\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/struth1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5182\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5182\" alt=\"Thomas Struth, Museum Photographs: Louvre 1 (1989), Stanze di Raffaello 2 (1990), Pantheon (1990)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/struth-620x144.jpg\" width=\"620\" height=\"144\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5182\" class=\"wp-caption-text\">Thomas Struth, <em>Museum Photographs<\/em>: Louvre 1 (1989), Stanze di Raffaello 2 (1990), Pantheon (1990)<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_5234\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/ed_ruscha_twentysix-gasoline-stations11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5234\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5234\" alt=\"Edward Ruscha, Twentysix Gasoline Stations, 1963\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/ed_ruscha_twentysix-gasoline-stations1-620x256.jpg\" width=\"620\" height=\"256\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5234\" class=\"wp-caption-text\">Edward Ruscha, Twentysix Gasoline Stations, 1963<\/p><\/div>\n<p>J\u00e1 o termo \u201cautoral\u201d me parece conter ainda mais descaradamente um gesto defensivo que, a esta altura, poder\u00edamos dispensar. Vejo aqui o desejo de responder a um trauma: a resist\u00eancia hist\u00f3rica por parte de artistas e intelectuais em reconhecer como arte uma imagem produzida mecanicamente. Se a fotografia \u00e9 uma imagem produzida numa a\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, o fot\u00f3grafo n\u00e3o \u00e9 autor. Desmontada essa ideia, torna-se importante sublinhar o status conquistado pelos fot\u00f3grafos.<\/p>\n<p>Por vezes, o termo autoral visa distinguir a fotografia pensada como arte, de outra mais utilit\u00e1ria, essa \u201cserva das ci\u00eancias e das artes, a mais humilde das servas\u201d, como sugeriu Baudelaire (\u201cO p\u00fablico moderno e a fotografia\u201d). Nesse sentido, um mesmo fot\u00f3grafo pode trazer em seu portf\u00f3lio experi\u00eancias pautadas, \u201cbrifadas\u201d, encomendadas, mas tamb\u00e9m um conjunto que lhe d\u00e1 mais orgulho, que chamar\u00e1 de \u201cautoral\u201d, ou de \u201ctrabalho pessoal\u201d, com imagens que at\u00e9 podem ter nascido daquelas mesmas encomendas, mas que foram elaboradas, pensadas, editadas, conceituadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo imaginar algu\u00e9m falando de suas pinturas, esculturas, instala\u00e7\u00f5es ou performances como autorais. De um lado, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio distinguir o trabalho do pintor-artista daquele feito pelo pintor de letreiro de lojas ou do designer de estampas de tecidos. De outro lado, algu\u00e9m que se pensa como artista n\u00e3o precisa redimensionar o car\u00e1ter autoral de sua produ\u00e7\u00e3o, mesmo quando \u00e9 convidado a produzir ilustra\u00e7\u00f5es para um livro, ou criar um mural para um edif\u00edcio, o r\u00f3tulo de um produto, a estampa de um tecido.<\/p>\n<p>Importante tomar consci\u00eancia de que certas express\u00f5es convocam antigos fantasmas, exatamente ao pretender exorciz\u00e1-los. A censura n\u00e3o \u00e9 uma alternativa: \u201cum nome que n\u00e3o se pode pronunciar\u201d \u00e9 apenas um outro modo de se fazer assombrar por aquilo que se evita dizer. Espero apenas alcan\u00e7ar um tempo em que esses fantasmas possam ser esquecidos, para que eles descansem em paz enquanto os artistas simplesmente produzem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, uma amiga artista quis discutir a defini\u00e7\u00e3o de \u201censaio autoral\u201d, tal como aparecia num edital, porque n\u00e3o se sentia confort\u00e1vel pensando sua produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica nesses termos. Essa \u00e9 uma express\u00e3o que se naturalizou no ambiente da fotografia mas que, de fato, raramente \u00e9 usada por artistas que trabalham com outras linguagens, ou mesmo por aqueles que\u00a0chegam \u00e0 fotografia, mas que t\u00eam sua forma\u00e7\u00e3o num universo mais amplo das artes pl\u00e1sticas. Podemos fazer desse estranhamento uma boa ocasi\u00e3o para desconstruir as expectativas depositadas em nosso vocabul\u00e1rio ao longo da hist\u00f3ria. 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