{"id":5159,"date":"2013-08-05T17:53:02","date_gmt":"2013-08-05T17:53:02","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5159"},"modified":"2016-05-28T13:21:44","modified_gmt":"2016-05-28T13:21:44","slug":"o-territorio-sem-distancias-das-imagens-contemporaneas-e-a-teimosia-dos-estados-fotograficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-territorio-sem-distancias-das-imagens-contemporaneas-e-a-teimosia-dos-estados-fotograficos\/","title":{"rendered":"O territ\u00f3rio sem dist\u00e2ncias das imagens contempor\u00e2neas e a teimosia dos estados fotogr\u00e1ficos *"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_5166\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/atacama_desert1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5166\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5166 \" alt=\"Deserto de Atacama, Chile\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/atacama_desert-620x300.jpg\" width=\"620\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5166\" class=\"wp-caption-text\">Deserto de Atacama, Chile<\/p><\/div>\n<p>Como j\u00e1 discutimos largamente, os discursos e as an\u00e1lises acerca das imagens e, sobretudo, das imagens fotogr\u00e1ficas, que caracterizaram o campo te\u00f3rico at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980 j\u00e1 n\u00e3o parecem encontrar tanta resson\u00e2ncia na realidade do mundo contempor\u00e2neo. As investiga\u00e7\u00f5es que, como sabemos, desejavam saber o que a fotografia era em si, pensar a fotografia contra o cinema, identificar o irredut\u00edvel fotogr\u00e1fico, n\u00e3o parecem fazer tanto sentido diante dos processos atuais de produ\u00e7\u00e3o, difus\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n<p>Com efeito, as investiga\u00e7\u00f5es acerca das rela\u00e7\u00f5es transversais entre as imagens, as lateralidades entre diversos dispositivos imag\u00e9ticos, as transgress\u00f5es de fronteiras imag\u00e9ticas, as intromiss\u00f5es m\u00fatuas entre modos de circular, produzir, enviesar e hibridizar imagens n\u00e3o s\u00e3o mais, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, novidades nem nas reflex\u00f5es acad\u00eamicas, muito menos no campo das experimenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<\/p>\n<p>Sim! Todas as fam\u00edlias de imagens se contaminam, se interpenetram, dialogam! Nenhuma das imagens do mundo contempor\u00e2neo (e muito provavelmente do passado tamb\u00e9m) parece hoje suportar ser pensada como se n\u00e3o dialogasse com outras imagens (nessas rela\u00e7\u00f5es de cont\u00e1gio, as imagens atuais est\u00e3o tingidas tamb\u00e9m por toda sua hist\u00f3ria, pela hist\u00f3ria da pintura, do cinema, do v\u00eddeo, da literatura, da ci\u00eancia \u00a0e, tamb\u00e9m, pelas imagens dos sonhos e da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sim! A constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade contempor\u00e2nea exige entrever o aspecto transitivo das imagens, levar em conta a diversidade de materialidades e opera\u00e7\u00f5es que se efetivam hoje.<\/p>\n<div id=\"attachment_5164\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Douglas_Gordon_24_Hour_Psycho_Back_and_Forth__and_To_and_Fro_2008_c_low1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5164\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5164\" alt=\"Exibi\u00e7\u00e3o de 24 hour Psycho, Douglas Gordon\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Douglas_Gordon_24_Hour_Psycho_Back_and_Forth__and_To_and_Fro_2008_c_low-620x465.jpg\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5164\" class=\"wp-caption-text\">Exibi\u00e7\u00e3o de 24 hour Psycho, Douglas Gordon<\/p><\/div>\n<p>No entanto, t\u00e3o relevante quanto identificar novos objetos te\u00f3ricos a partir desse estado in\u00e9dito de transversalidade, parece ser questionar se seria poss\u00edvel realizar tr\u00e2nsitos se n\u00e3o estabelecemos dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o sup\u00f5e contato entre organismos (ou corpos) distintos. A transgress\u00e3o sup\u00f5e \u201ca\u00e7\u00e3o que leva algo ou algu\u00e9m a atravessar uma fronteira\u201d. O tr\u00e2nsito sup\u00f5e a passagem de um lugar para outro, de um estado para outro, de uma qualidade para outra. A viola\u00e7\u00e3o sup\u00f5e esgar\u00e7amento de bordas.<\/p>\n<p>Se estamos diante de um \u00fanico territ\u00f3rio de imagens, homog\u00eaneo em sua variedade, poder\u00edamos diante disso, efetuar transgress\u00f5es? Diante de um territ\u00f3rio \u00fanico, sem fronteiras entre imagens, poderia haver tr\u00e2nsitos? Como nos deslocar num territ\u00f3rio sem dist\u00e2ncias?<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para que haja cont\u00e1gios entre os modos imag\u00e9ticos?<\/p>\n<p>Estabelecer as condi\u00e7\u00f5es de possibilidades para encontros e tr\u00e2nsitos n\u00e3o significa reestabelecer as perspectivas ontol\u00f3gicas, ignorando aquilo que se move, se difere e se altera; ignorando a diversidade de \u201cfotografias\u201d que a hist\u00f3ria efetivou.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar, ali\u00e1s, que, algumas vezes, a prop\u00f3sito de se pensar o h\u00edbrido, algumas an\u00e1lises adotam estrat\u00e9gias semelhantes \u00e0s ontol\u00f3gicas, uma vez que procuram \u2212 geralmente a partir de uma l\u00f3gica de causa e feito entre novas tecnologias e imagem \u2212 definir um \u00fanico <i>modus operandi <\/i>desse \u201ccruzamento gen\u00e9tico\u201d, um \u00fanico <i>modus vivendi<\/i> das imagens contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Quando se opera estritamente numa l\u00f3gica de causa e feito entre tecnologia e imagem, em vez de desterritorializa\u00e7\u00e3o, estriamento, multiplicidade, linhas de fuga, aparece, algumas vezes, no discurso do h\u00edbrido profunda territorializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse determinismo, o territ\u00f3rio seria definido pelas tecnologias digitais, respons\u00e1veis pela mudan\u00e7a de natureza da imagem. Nada, portanto, nenhuma materialidade imag\u00e9tica, nenhuma fam\u00edlia de imagem poderia entrever novos agenciamentos, novas temporalidades nem produzir muta\u00e7\u00f5es nos modos de perceber, conhecer e habitar o tempo por meio da imagem.<\/p>\n<p>Acredito que o desafio do pensamento acerca das imagens em nossa atualidade \u00e9 compreender esse novo circuito de imagens, vinculado a uma nova rede de dispositivos, perspectivas filos\u00f3ficas, cient\u00edficas e pr\u00e1ticas sociais, profundamente hibridizante e virtualizante, sem que a multiplicidade das imagens seja eliminada sob uma perspectiva homogeneizante.<\/p>\n<p>Num territ\u00f3rio sem dist\u00e2ncias ainda poderiam nascer fotografias? Ou filmes, ou contos, ou paisagens, ou pinturas, ou romances&#8230;? No territ\u00f3rio sem fronteiras, s\u00f3 poderia emergir apenas uma<i> <\/i>constela\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que a defini\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea da esfera celeste denominada constela\u00e7\u00e3o requer agrupamentos regulares em torno de padr\u00f5es que, no entanto, ligam imaginariamente o que, embora aparentemente pr\u00f3ximo, n\u00e3o est\u00e1 nem no mesmo local, nem possui grandeza, dist\u00e2ncia ou, at\u00e9, idade id\u00eantica. A constela\u00e7\u00e3o requer, portanto, espa\u00e7os heterog\u00eaneos entre pontos luminosos. O centro das constela\u00e7\u00f5es \u00e9 vazio; n\u00e3o podemos reduzir a \u2018caracter\u00edstica\u2019 da constela\u00e7\u00e3o a uma unidade nela contida; as marcas que definem o tra\u00e7ado de toda constela\u00e7\u00e3o s\u00e3o seus extremos; entre seus componentes existem lacunas, do que resulta ser necess\u00e1rio, para sua \u2018contempla\u00e7\u00e3o\u2019, que se entrevejam dist\u00e2ncias.<\/p>\n<div id=\"attachment_5165\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Perseus-constellation-map11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5165\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5165\" alt=\"Mapa de constela\u00e7\u00f5es\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Perseus-constellation-map1-620x547.jpg\" width=\"620\" height=\"547\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5165\" class=\"wp-caption-text\">Mapa de constela\u00e7\u00f5es<\/p><\/div>\n<p>A for\u00e7a da hibridiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea est\u00e1 (me parece) na alquimia produzida pelo que cada modo imag\u00e9tico veio a ser, tanto historicamente quanto em seus usos atuais. Essa grande constela\u00e7\u00e3o h\u00edbrida nos possibilitaria, hoje, observar a \u2018vida\u2019 e a hist\u00f3ria das imagens num grande mapeamento anacr\u00f4nico, talvez como nunca antes tenha sido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Assim, a pot\u00eancia h\u00edbrida est\u00e1, a meu ver, no tr\u00e2nsito entre diferentes estados<b><i> <\/i><\/b>imag\u00e9ticos, permitindo que um filme possa ser compreendido como fotografia; um romance como pintura; uma instala\u00e7\u00e3o como conto \u2212 e, tamb\u00e9m, que a hist\u00f3ria, como Walter Benjamin pensou, pudesse ser fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Bem, se s\u00f3 existe hoje um \u00fanico territ\u00f3rio de imagens, ele n\u00e3o poderia ser compreendido como um ch\u00e3o liso, constitu\u00eddo por \u00fanica fam\u00edlia de imagens, com subst\u00e2ncias de mesma esp\u00e9cie. Para contempl\u00e1-lo, do modo como fazemos com as constela\u00e7\u00f5es celestes, \u00e9 necess\u00e1rio entrever espa\u00e7os vazios, dist\u00e2ncias temporais, lacunas e interrup\u00e7\u00f5es entre seus componentes, uma configura\u00e7\u00e3o saturada de tens\u00f5es.<\/p>\n<p>Afinal, como poder\u00edamos nomear fotogr\u00e1ficas quaisquer imagens dessa grande constela\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica da atualidade?<\/p>\n<p>Importante dizer que nosso diagn\u00f3stico dever\u00e1 depender profundamente da perspectiva hist\u00f3rica que adotamos. Se nosso par\u00e2metro estiver fundamentado exclusivamente numa hist\u00f3ria da t\u00e9cnica, linear e evolutiva, provavelmente estaremos diante de um grande impasse: como denominar fotogr\u00e1fica qualquer uma das imagens atuais se elas prov\u00eam de dispositivos convergentes que pouco t\u00eam a ver com as c\u00e2meras que deram \u2018origem\u2019 a um ato essencialmente fotogr\u00e1fico?<\/p>\n<p>Dificilmente podemos comparar os aparelhos atuais aos sistemas anal\u00f3gicos; o que temos hoje em nossas m\u00e3os s\u00e3o c\u00e2meras que convergem distintas opera\u00e7\u00f5es na captura da imagem: a c\u00e2mera que fotografa \u00e9 a mesma que filma (a c\u00e2mera dos fot\u00f3grafos \u00e9 a mesma dos cineastas), e, em certo sentido, a mesma que pinta, cola, desmonta, monta e faz circularem nossas imagens. Al\u00e9m disso, ela n\u00e3o mais captura quimicamente a marca do real, n\u00e3o estabelece, portando, a famosa contiguidade que configurou muitas das an\u00e1lises ontol\u00f3gicas. Partindo dessa perspectiva tecnol\u00f3gica, portanto, haveria uma mudan\u00e7a de natureza e n\u00e3o poderiam mais nascer imagens fotogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Se tivermos como refer\u00eancia uma hist\u00f3ria estritamente dos usos e da percep\u00e7\u00e3o da fotografia, tamb\u00e9m enfrentaremos, me parece, uma profunda impossibilidade, j\u00e1 que a passagem do regime disciplinar para a sociedade do controle implicou a transmuta\u00e7\u00e3o de uma cultura visual para um regime de visibilidade, cuja circula\u00e7\u00e3o difere verticalmente do que constituiu historicamente o tipo fotogr\u00e1fico de imagem.<\/p>\n<p>Falemos, ent\u00e3o, acerca de sua poss\u00edvel sobreviv\u00eancia hist\u00f3rica. Como j\u00e1 tratado em artigo anterior, a sobreviv\u00eancia fotogr\u00e1fica \u00e9, de fato, bastante enigm\u00e1tica. Hoje, em meio a tantas tecnologias inovadoras, tantos cruzamentos imag\u00e9ticos, tantas <i>performances<\/i> midi\u00e1ticas, como poder\u00edamos ainda nomear fotogr\u00e1fica qualquer imagem? Como poderia a fotografia n\u00e3o ter sido totalmente tragada pelas outras fam\u00edlias de imagens que n\u00e3o cessam de se multiplicar e fundir? N\u00e3o teria de fato sido tragada?<\/p>\n<p>A despeito dos progn\u00f3sticos mais acurados de te\u00f3ricos e pensadores da mais alta qualidade, que avistavam apenas o decl\u00ednio hist\u00f3rico da fotografia e seu desuso pr\u00e1tico; a despeito da diminui\u00e7\u00e3o de sua efic\u00e1cia e de seu poder, a fotografia persiste. Persiste disseminada, dissimulada, transmutada em v\u00e1rias imagens, v\u00e1rios objetos. Uma persist\u00eancia da qual s\u00f3 conhecemos restos, vest\u00edgios da carne que foi convertida em \u2018outramentos\u2019. Persiste e, paralelamente, se transforma.<\/p>\n<p>Persiste como um f\u00f3ssil: n\u00e3o um objeto do passado, mas um am\u00e1lgama que cristaliza as diferen\u00e7as e as sincronias entre aquilo em que ela veio a ser (na modernidade) e o que j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser. (Como Benjamin afirmava, os f\u00f3sseis s\u00e3o sempre atuais, pois o invent\u00e1rio do velho faz emergir o gesto presente: as imagens que se levantam n\u00e3o devem tanto explicar o passado quanto descrever precisamente o lugar em que dele tomamos posse.) Nessa terra profunda, cheia de caminhos e larguras, repleta de extratos, a fotografia sobrevive como estilha\u00e7o, caco de uma hist\u00f3ria descont\u00ednua, f\u00f3ssil que n\u00e3o contrai uma \u00fanica fotografia, mas, diferente, cristaliza uma ideia de fotografia que servir\u00e1 como par\u00e2metro para que sejam vislumbradas as dimens\u00f5es das altera\u00e7\u00f5es e os deslocamentos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Persiste, por exemplo, quando se torna, <em>desde a virada pict\u00f3rica dos anos 90, uma pe\u00e7a fundamental para a reflex\u00e3o e tamb\u00e9m para a\u00e7\u00e3o art\u00edstica da atualidade. Persiste quando \u00e9 proclamada aos quatro ventos pelo mundo, proliferando imagens que nada mais t\u00eam tecnicamente de \u2018fotogr\u00e1ficas\u2019; persiste como um fantasma: viva e morta, simultaneamente. <\/em><\/p>\n<p>Assim, identificar linhas de fotografia nessa grande constela\u00e7\u00e3o de imagens contempor\u00e2neas requer, a meu ver, reconhecer a sobreviv\u00eancia de estados fotogr\u00e1ficos, subjacentes ao decl\u00ednio de sua experi\u00eancia nos moldes modernos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, entrever as dist\u00e2ncias no territ\u00f3rio contempor\u00e2neo de imagens, delimitando as fronteiras que ser\u00e3o transgredidas, significa pensar as imagens n\u00e3o como meros produtos de aparelhos, dos quais o \u2018fotogr\u00e1fico\u2019 j\u00e1 nem existe mais. Diferente, requer pensar a fotografia como uma experi\u00eancia hist\u00f3ria, que, ainda hoje, emerge quando, de s\u00fabito (como fantasma) se institui uma certa configura\u00e7\u00e3o temporal.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, em seu percurso, a fotografia n\u00e3o foi coisa \u00fanica. No entanto, pensar o descont\u00ednuo \u2013 o fato de que, em alguns anos, por vezes, uma cultura deixa de pensar como fizera at\u00e9 ent\u00e3o e se p\u00f5e a pensar outra coisa e de outro modo \u2013 sup\u00f5e, necessariamente, que, durante algum tempo, ele esteja relacionado a certos sistemas e encadeamentos; que, em algum per\u00edodo, haja um movimento capaz de atribuir certa configura\u00e7\u00e3o, constitui\u00e7\u00e3o, emerg\u00eancia que obedece ao mesmo tempo a certa coer\u00eancia e \u00e0 entrada em cena de elementos estranhos, ou seja, a seu pr\u00f3prio deslocamento.<\/p>\n<p>Se pensarmos a fotografia a partir de sua genealogia, de seu \u2018vir a ser\u2019, \u00e9 poss\u00edvel identificar um tipo de experi\u00eancia e de imagin\u00e1rio que, em transmuta\u00e7\u00f5es permanentes, acabou configurando uma tens\u00e3o eminentemente temporal. A experi\u00eancia fotogr\u00e1fica moderna contraiu, de modo singular, o mortal e o eterno, o descont\u00ednuo e o cont\u00ednuo, o heterog\u00eaneo e o homog\u00eaneo, a urg\u00eancia e a perman\u00eancia, a espera e a interrup\u00e7\u00e3o. Se tomarmos como base n\u00e3o s\u00f3 aquilo que a fotografia absorveu de sua \u00e9poca (como efeito de sua constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica), mas tamb\u00e9m o que ela produziu como experi\u00eancia in\u00e9dita, encontraremos certo modelo temporal que, entre outras coisas, liberta a dura\u00e7\u00e3o do movimento e institui o fragmento e a interrup\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De todo modo, para instaurar as dist\u00e2ncias indispens\u00e1veis ao tr\u00e2nsito entre as imagens contempor\u00e2neas, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m supor que haja uma hist\u00f3ria anacr\u00f4nica das imagens, fugitiva da perspectiva do progresso, desertora da terr\u00edvel perspectiva evolucionista, cujo \u00edmpeto declararia a superioridade total das imagens provenientes das novas tecnologias imag\u00e9ticas. \u00c9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, perceber estados fotogr\u00e1ficos como uma configura\u00e7\u00e3o sempre provis\u00f3ria, capaz de apoderar-se do cinema, da pintura, dos artistas, de nosso pensamento e da hist\u00f3ria toda vez que, em termos contra\u00eddos, haja, por exemplo, a experi\u00eancia de um tempo vertiginoso, desligado do movimento.<\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p>* Originalmente, parte deste texto orientou minha fala no I Col\u00f3quio de Fotografia na Universidade de Bras\u00edlia, <a title=\"Fotografia Contempor\u00e2nea: Fronteiras e Transgress\u00f5es\" href=\"http:\/\/www.dobrasvisuais.com.br\/2013\/07\/fotografia-contemporanea-fronteiras-e-transgressoes\/\">Fotografia Contempor\u00e2nea: Fronteiras e Transgress\u00f5es<\/a>, organizado por Susana Dobal e Osmar Gon\u00e7alves, em junho de 2013.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como j\u00e1 discutimos largamente, os discursos e as an\u00e1lises acerca das imagens e, sobretudo, das imagens fotogr\u00e1ficas, que caracterizaram o campo te\u00f3rico at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980 j\u00e1 n\u00e3o parecem encontrar tanta resson\u00e2ncia na realidade do mundo contempor\u00e2neo. 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