{"id":5146,"date":"2013-07-03T04:50:49","date_gmt":"2013-07-03T04:50:49","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5146"},"modified":"2016-05-28T14:04:31","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:31","slug":"demasiado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/demasiado\/","title":{"rendered":"Demasiado*"},"content":{"rendered":"<p>[*texto para a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Demasiado&#8221;, de Ricardo Barcellos, com tr\u00eas trabalhos mostrados simultaneamente na Galeria Central, at\u00e9 03\/08\/13, e o Espa\u00e7o Fidalga, at\u00e9 06\/07\/2013]<\/p>\n<div id=\"attachment_5150\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/demasiado11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5150\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5150\" alt=\"Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/demasiado1-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5150\" class=\"wp-caption-text\">Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013<\/p><\/div>\n<p>Houve um tempo em que o homem enxergava o mundo como um conjunto de for\u00e7as ca\u00f3ticas e violentas que amea\u00e7avam sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Sem poder domin\u00e1-las, ele encontrava a possibilidade de experimentar um prazer extremo abandonando-se \u00e0s desmesuras dos rituais dedicados ao deus Dion\u00edsio. Essas for\u00e7as precisaram ser constrangidas pela boa medida das formas impostas por Apolo, para que o processo civilizat\u00f3rio se constitu\u00edsse e para que o homem se reconhecesse como sujeito. Nesse esfor\u00e7o de domestica\u00e7\u00e3o da natureza, s\u00e3o recalcadas tens\u00f5es que seguir\u00e3o nos assombrando.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o excesso ressurge no seio da civiliza\u00e7\u00e3o moderna como efeito supostamente inofensivo, produzido pela pr\u00f3pria t\u00e9cnica. As demasias que marcam os novos rituais \u2013 agora traduzidos em espet\u00e1culo, como \u00e9 aqui o caso do fisiculturismo ou do jogo de guerra \u2013 n\u00e3o parecem comprometer o poder conquistado pelo homem, uma vez que s\u00e3o produto de sua vontade aut\u00f4noma. Elas representam apenas um incremento da ordem conquistada, n\u00e3o mais a sua perturba\u00e7\u00e3o. Positivado como efeito pl\u00e1stico ou l\u00fadico, o excesso se converte em valor: n\u00e3o h\u00e1 limite ou sufici\u00eancia para aquilo que uma sociedade cultiva como belo ou prazeroso.<\/p>\n<p>A medicina est\u00e1 para o corpo biol\u00f3gico como a guerra est\u00e1 para o corpo social: uma e outra s\u00e3o interven\u00e7\u00f5es da cultura sobre um organismo em desordem. A analogia permite um interc\u00e2mbio de representa\u00e7\u00f5es: a guerra \u00e9 justificada como um rem\u00e9dio amargo e necess\u00e1rio, assim como o tratamento m\u00e9dico \u00e9 pensado como luta contra um inimigo invasor.<\/p>\n<p>O corpo saud\u00e1vel e a batalha sempre foram objetos de interesse da poesia, da pintura e da escultura. Mas essa abordagem est\u00e9tica n\u00e3o estava dissociada de uma dimens\u00e3o moral: a gin\u00e1stica se apresentava como uma disciplina formadora do car\u00e1ter, como a guerra se pretendia um instrumento civilizador. Desse modo, ambas implicavam certo ideal justi\u00e7a. \u00c9 exatamente quando o corpo e a guerra se reduzem \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, perform\u00e1tica, que o exagero se faz necess\u00e1rio: a demasia da forma \u00e9 um modo de compensar o esvaziamento de sentido psicol\u00f3gico ou social dos esfor\u00e7os despendidos.<\/p>\n<div id=\"attachment_5151\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Demasiado21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5151\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-5151 \" alt=\"Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Demasiado2-360x534.jpg\" width=\"360\" height=\"534\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5151\" class=\"wp-caption-text\">Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013<\/p><\/div>\n<p>O fisiculturismo, mesmo quando envolvido por um discurso m\u00e9dico, permanece uma atividade cosm\u00e9tica que n\u00e3o visa \u00e0 boa funcionalidade do corpo. Ao contr\u00e1rio, opera essa ci\u00eancia em detrimento de qualquer no\u00e7\u00e3o de sa\u00fade ou efici\u00eancia org\u00e2nica. Visa essencialmente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de poses que permitam ultrapassar a geometria dos m\u00fasculos j\u00e1 um tanto idealizada pela escultura cl\u00e1ssica.<\/p>\n<div id=\"attachment_5149\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Paintball_031.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5149\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-5149\" alt=\"Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Paintball_03-360x600.jpg\" width=\"360\" height=\"600\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5149\" class=\"wp-caption-text\">Demasiado, Ricardo Barcellos, 2013<\/p><\/div>\n<p>J\u00e1 o paintball \u00e9, num certo sentido, a guerra em uma vers\u00e3o literalmente pict\u00f3rica, em que a tinta, e n\u00e3o o sangue, representa a morte. Como jogo, \u00e9 menos um exerc\u00edcio de estrat\u00e9gia \u2013 como \u00e9, por exemplo, o xadrez \u2013 do que de dramatiza\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 uma express\u00e3o convincente nesses soldados, \u00e9 porque eles reproduzem com sua atua\u00e7\u00e3o, figurino e cenografia o imagin\u00e1rio sobre a guerra constru\u00eddo sobretudo pelo cinema.<\/p>\n<p>Mesmo que reconhe\u00e7amos tra\u00e7os arquet\u00edpicos nas performances que restam do culto ao corpo ou \u00e0 guerra, o que seus praticantes buscam \u00e9 um efeito que se esgota no presente, em outras palavras, na apresenta\u00e7\u00e3o, no espet\u00e1culo: trata-se portanto de um rito desprovido de mito.<\/p>\n<p>As obras mostradas nesta exposi\u00e7\u00e3o evidenciam que parte daquilo que chamamos de realidade j\u00e1 existe por si mesma como pose, independentemente de haver diante dela uma c\u00e2mera. Mas n\u00e3o devemos tomar essas cenas como como algo simplesmente ex\u00f3tico e distante. Elas mostram a situa\u00e7\u00e3o limite de uma experi\u00eancia que atravessa nossa vida cotidiana: a representa\u00e7\u00e3o \u00e9, e sempre foi, um elemento constituinte de nossa realidade social, e n\u00e3o h\u00e1 como viver dentro de uma cultura sem assumir pap\u00e9is. Isso exige que a quest\u00e3o seja pensada para al\u00e9m das no\u00e7\u00f5es manique\u00edstas de verdade e mentira.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que, tamb\u00e9m para n\u00f3s, a medicina demonstra sua efici\u00eancia inventando um corpo h\u00edbrido, algo entre o natural e o artificial, com m\u00fasculos, seios, narizes, peles, mas tamb\u00e9m com express\u00f5es, h\u00e1bitos e comportamentos que pouco traduzem nossa vontade ou personalidade. Por sua vez, a gestualidade e o vocabul\u00e1rio da guerra s\u00e3o assimilados em rela\u00e7\u00f5es corriqueiras de estudo, de trabalho e de conviv\u00eancia social. Num ambiente que faz da competitividade seu principal motor, toda e qualquer efici\u00eancia \u00e9 medida em fun\u00e7\u00e3o da capacidade de dominar um oponente. Assim, as poses que vemos aqui desempenhadas de forma hiperb\u00f3lica tamb\u00e9m fazem parte, de algum modo, dos papeis que nos s\u00e3o atribu\u00eddos.<\/p>\n<p>Na instala\u00e7\u00e3o mostrada na Galeria Central, vemos os corpos pesados de dois fisiculturistas, um homem e uma mulher, paradoxalmente suportados por tecidos leves e transl\u00facidos. Assim, esses corpos densos e dilatados evidenciam sua condi\u00e7\u00e3o de imagem: aquilo que o fisiculturismo trabalha e constr\u00f3i \u00e9, de fato, n\u00e3o mais do que uma superf\u00edcie. A proje\u00e7\u00e3o das fotografias est\u00e1 mediada por um aparato hospitalar: a imagem \u00e9 refletida por um meio l\u00edquido, em princ\u00edpio neutro e transl\u00facido, que n\u00e3o parece afetar a imagem final. No entanto, a mesma subst\u00e2ncia m\u00e9dica que reflete esses corpos, de tempos em tempos, tamb\u00e9m os desestabiliza pelo efeito de gotejamento que perturba a superf\u00edcie refletora. Reconhecemos ent\u00e3o a inconst\u00e2ncia desses corpos s\u00f3lidos, elaborados em sua apar\u00eancia pela t\u00e9cnica e que s\u00e3o, ao mesmo tempo, disfuncionalizados como organismo. Em sua capacidade de manipula\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia torna o pr\u00f3prio corpo uma exist\u00eancia l\u00edquida, capaz de assumir formas planejadas e pouco compat\u00edveis com sua pr\u00f3pria natureza. As fotografia que complementam estas proje\u00e7\u00f5es, e que ocupam o Espa\u00e7o Fidalga, apenas reafirmam em sua fixidez a dilui\u00e7\u00e3o desse corpo numa imagem em que resta apenas um efeito pict\u00f3rico, n\u00e3o mais um sujeito.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo que encontramos tamb\u00e9m no Espa\u00e7o Fidalga, soldados surgem de um ambiente escuro, primeiro, apenas como manchas, depois, como corpos camuflados em movimentos r\u00edgidos, ralentados, quase rob\u00f3ticos. Mais cedo ou mais tarde, a luz misteriosa e dram\u00e1tica que acrescenta tens\u00e3o \u00e0 performance n\u00e3o se mostra suficiente para esconder a artificialidade da pose, das roupas e das armas. Ainda assim, a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante realista, n\u00e3o tanto porque sabemos o que \u00e9 a realidade da guerra, mas porque corresponde, como dissemos, ao tratamento que o cinema d\u00e1 a esse tema. A tela do v\u00eddeo \u00e9 aquilo que, em nossa experi\u00eancia m\u00e9dia, mais caracteriza o campo de batalha. Mas h\u00e1 aqui uma perturba\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o: visto na vertical, esse campo deixa de ser paisagem e se torna retrato, porque a guerra n\u00e3o existe em outro territ\u00f3rio que n\u00e3o esse corpo que a encena como um jogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[*texto para a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Demasiado&#8221;, de Ricardo Barcellos, com tr\u00eas trabalhos mostrados simultaneamente na Galeria Central, at\u00e9 03\/08\/13, e o Espa\u00e7o Fidalga, at\u00e9 06\/07\/2013] Houve um tempo em que o homem enxergava o mundo como um conjunto de for\u00e7as ca\u00f3ticas e violentas que amea\u00e7avam sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Sem poder domin\u00e1-las, ele encontrava a possibilidade de experimentar um prazer extremo abandonando-se \u00e0s desmesuras dos rituais dedicados ao deus Dion\u00edsio. Essas for\u00e7as precisaram ser constrangidas pela boa medida das formas impostas por Apolo, para que o processo civilizat\u00f3rio se constitu\u00edsse e para que o homem se reconhecesse como sujeito. 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