{"id":5129,"date":"2013-06-25T12:55:35","date_gmt":"2013-06-25T12:55:35","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5129"},"modified":"2016-05-28T14:04:40","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:40","slug":"estudo-para-diversao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/estudo-para-diversao\/","title":{"rendered":"Estudo para divers\u00e3o*"},"content":{"rendered":"<p>[*\u00a0texto para a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Estudo para divers\u00e3o&#8221;, de Flavia Junqueira, na Galeria Bar\u00f3, em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 20\/07\/2013. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de duas s\u00e9ries: Cartografia Afetiva, que traz em tamanho ampliado imagens &#8211; \u00a0originalmente em Polaroid &#8211; de carross\u00e9is de Paris; A crian\u00e7a e sua fam\u00edlia, que sobrep\u00f5e registros de parques de divers\u00f5es de Paris a fotos de fam\u00edlia encontradas em sebos dessa mesma cidade. No centro da galeria, a artista traz numa instala\u00e7\u00e3o um carrossel real que gira em sentido inverso.]<\/p>\n<div id=\"attachment_5132\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_59451.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5132\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5132\" alt=\"Fl\u00e1via Junqueira, Cartografia Afetiva\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_5945-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5132\" class=\"wp-caption-text\">Flavia Junqueira, Cartografia Afetiva<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_5134\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_59541.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5134\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5134\" alt=\"Fl\u00e1via Junqueira, A crian\u00e7a e sua fam\u00edlia\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_5954-620x415.jpg\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5134\" class=\"wp-caption-text\">Flavia Junqueira, A crian\u00e7a e sua fam\u00edlia<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_5135\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_58681.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5135\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5135\" alt=\"Flavia Junqueira, Instala\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/IMG_5868-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5135\" class=\"wp-caption-text\">Flavia Junqueira, Instala\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p align=\"right\">\u201caquilo que tem na inf\u00e2ncia a sua p\u00e1tria origin\u00e1ria,<br \/>\nrumo \u00e0 inf\u00e2ncia e atrav\u00e9s da inf\u00e2ncia, deve manter-se em viagem<i>\u201d<br \/>\n<\/i>(Giorgio Agamben,\u00a0<i>Inf\u00e2ncia e Hist\u00f3ria<\/i>)<\/p>\n<p>H\u00e1 um paradoxo na apropria\u00e7\u00e3o de elementos que representam a inf\u00e2ncia, porque sempre h\u00e1 nela algo de irrepresent\u00e1vel. Como sugere a origem do termo,\u00a0<i>infantia<\/i>\u00a0\u00e9 a incapacidade de falar,\u00a0<i>infante<\/i>\u00a0\u00e9 aquele que ainda n\u00e3o tem dom\u00ednio da linguagem.<\/p>\n<p>Trata-se do est\u00e1gio da exist\u00eancia em que tudo existe como virtualidade e, assim, em que todas as pot\u00eancias desse sujeito em forma\u00e7\u00e3o parecem realiz\u00e1veis. O tempo \u00e9 aqui a condi\u00e7\u00e3o para que essas pot\u00eancias se cumpram, mas \u00e9 tamb\u00e9m o percurso ao longo do qual parte delas \u00e9 abandonada.<\/p>\n<p>Para recompor a promessa de plenitude da inf\u00e2ncia, recorremos a imagens que lhe s\u00e3o muito pr\u00f3prias: o passeio em fam\u00edlia, o parque, o brinquedo. Mas s\u00f3 conseguimos reencontrar tal momento de uma forma modelar, emblem\u00e1tica, abstrata, distante daquilo que desejamos reviver como experi\u00eancia efetiva. O que resta \u00e9 percorrer artificiosamente as varia\u00e7\u00f5es desse modelo, como estudo, tipologia ou cartografia, estrat\u00e9gias que abordam com uma raz\u00e3o sistem\u00e1tica aquilo que gostar\u00edamos de resgatar como viv\u00eancia, como afeto.<\/p>\n<p>Nas fotografias de fam\u00edlia em que vemos o passeio ou o momento que o antecede, espera-se preservar esse instante em que todos os desejos pareciam prestes a ser realizados. Olhando agora para esses rostos e gestos, \u00e9 inevit\u00e1vel intuir certa desconfian\u00e7a, ind\u00edcios de que aquela promessa jamais se cumpriria totalmente. As imagens a que recorremos para dar forma a uma\u00a0<i>fantasia<\/i>\u00a0de felicidade s\u00e3o agora signo de uma aus\u00eancia, tornam-se\u00a0<i>fantasmas<\/i>, algo que desejamos tanto quanto nos assombra, porque n\u00e3o reconhecemos mais totalmente como parte do nosso mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_5131\" style=\"width: 518px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/S_cartografia-afetiva-1-co_pia-508x5231.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5131\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5131 \" alt=\"Fl\u00e1via Junqueira, Cartografia Afetiva\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/S_cartografia-afetiva-1-co_pia-508x5231.jpg\" width=\"508\" height=\"523\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5131\" class=\"wp-caption-text\">Fl\u00e1via Junqueira, Cartografia Afetiva<\/p><\/div>\n<p>A decora\u00e7\u00e3o dos parques de divers\u00e3o, com sua est\u00e9tica arcaica, traz a ilus\u00e3o de perman\u00eancia, de uma imobilidade do tempo. Tamb\u00e9m o cavalo, que est\u00e1 paradoxalmente em movimento e congelado em sua pose, aparece como numa cronofotografia do galope de Muybridge, imagens que almejam resgatar pela t\u00e9cnica aquilo que o fluxo do tempo n\u00e3o permite reter. No final das contas, essa est\u00e9tica arcaica opera como um simulacro que apenas esconde aquilo que a pr\u00f3pria divers\u00e3o consome. Diz Agamben: \u201cem meio aos passatempos cont\u00ednuos e divertimentos v\u00e1rios, as horas, os dias, as semanas passam num lampejo\u201d. Quando se constata que o tempo passou r\u00e1pido demais, que nele algo foi perdido, e que a pr\u00f3pria divers\u00e3o foi o agenciador dessa passagem, \u00e9 tamb\u00e9m pelo recurso a seus mecanismos, agora operando de forma invertida, que se tentar\u00e1 \u2013 em v\u00e3o \u2013 retroceder no tempo.<\/p>\n<p>O que a inf\u00e2ncia demarca \u00e9 o processo de aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, ou seja, a capacidade de fazer com que uma forma seja articulada simbolicamente. Tamb\u00e9m aqui, uma conquista e uma perda: ao querer se apropriar do mundo exercendo a capacidade de represent\u00e1-lo, o sujeito se v\u00ea condenado a uma rela\u00e7\u00e3o sempre \u201cmediada\u201d com as coisas, que o impede de toc\u00e1-las diretamente.<\/p>\n<p>Reconhecemos algumas estrat\u00e9gias de compensa\u00e7\u00e3o: a cartografia cont\u00e9m a promessa de que a representa\u00e7\u00e3o (o mapa) ir\u00e1 garantir o acesso ao espa\u00e7o real (o territ\u00f3rio). Mas aquilo que \u00e9 cartografado j\u00e1 \u00e9 em si uma representa\u00e7\u00e3o, um brinquedo, uma forma simb\u00f3lica constitu\u00edda pela linguagem. Nesse caso, trazer para a cena o brinquedo em sua escala real (\u201creal\u201d \u00e9 aqui for\u00e7a de express\u00e3o) seria talvez um esfor\u00e7o para compensar o fracasso do mapa fazendo-o coincidir com o territ\u00f3rio, como fizeram os cart\u00f3grafos do imp\u00e9rio imaginado por Borges (\u201cDel rigor en la ciencia\u201d). Inevit\u00e1vel reconhecer que esse empenho aponta apenas para uma utopia: uma mapa inoperante feito para um territ\u00f3rio inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cDar sentido\u201d \u00e0s coisas \u00e9 coloc\u00e1-las num certo fluxo, mas \u00e9 tamb\u00e9m dar a elas uma significa\u00e7\u00e3o. \u00c9, simultaneamente, a experi\u00eancia do tempo e da linguagem. \u201cInverter o sentido\u201d sugere o desejo de retornar ao ponto de partida, a uma origem, ao grau zero da significa\u00e7\u00e3o, ao tempo em que todas as pot\u00eancias pareciam realiz\u00e1veis. Mas resulta no absurdo, na m\u00fasica desarmoniosa, no movimento disfuncional do brinquedo; em outras palavras, na consci\u00eancia de que a mem\u00f3ria jamais reencontrar\u00e1 o passado de forma intacta.<\/p>\n<p>Resta certa melancolia. Mas a resposta que vemos n\u00e3o \u00e9 de todo niilista, porque n\u00e3o resulta em in\u00e9rcia, na mera constata\u00e7\u00e3o de um fracasso. A arte \u00e9 o campo em que a pr\u00f3pria linguagem revela sua maior vitalidade, em que \u00e9 poss\u00edvel jogar de modo mais intenso e livre com suas pr\u00f3prias pot\u00eancias. Pela arte, n\u00e3o se busca apenas o relato desses momentos irrecuper\u00e1veis, escava-se a mem\u00f3ria tamb\u00e9m na dire\u00e7\u00e3o de um porvir. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque a origem n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o morto, um para\u00edso perdido. \u00c9 ainda a fonte de tens\u00f5es que alimentam uma busca. Como reivindicado por Agamben, \u201cuma tal origem n\u00e3o poder\u00e1 jamais resolver-se completamente em \u2018fatos\u2019 que se possam supor historicamente acontecidos, mas \u00e9 algo que ainda n\u00e3o cessou de acontecer\u201d. Na mesma medida em que o tempo evidencia aquilo que parece irrecuper\u00e1vel, ele abre diante de n\u00f3s o territ\u00f3rio em que todas as coisas ainda est\u00e3o por ser constru\u00eddas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de arrancar pela divers\u00e3o um riso pleno, como aquele que acreditamos ter existido na inf\u00e2ncia. A divers\u00e3o diz respeito agora \u00e0quilo que pode haver de diverso, divergente, \u00e0 possibilidade de produzir perturba\u00e7\u00f5es no curso de um tempo que muitas vezes nos parece retil\u00edneo e homog\u00eaneo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[*\u00a0texto para a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Estudo para divers\u00e3o&#8221;, de Flavia Junqueira, na Galeria Bar\u00f3, em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 20\/07\/2013. 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No centro da galeria, a artista traz numa instala\u00e7\u00e3o um carrossel real que gira em sentido inverso.] \u201caquilo que tem na inf\u00e2ncia a sua p\u00e1tria origin\u00e1ria, rumo \u00e0 inf\u00e2ncia e atrav\u00e9s da inf\u00e2ncia, deve [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[833,827],"tags":[364,410,453,599],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5129"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6501,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions\/6501"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}